Música brasileira

Pabllo Vittar: “Cresci ouvindo forró e tecnobrega e é graças a isso que faço a música pop de 2021”

Prestes a completar cinco anos de carreira e considerada a “drag queen mais popular do mundo”, artista lança álbum ‘Batidão tropical’, no qual resgata suas raízes no Norte e Nordeste do Brasil

Pabllo Vittar em imagem de divulgação de seu novo álbum, 'Batidão tropical'.
Pabllo Vittar em imagem de divulgação de seu novo álbum, 'Batidão tropical'.

Já imaginou um show de forró ou de tecnobrega no palco de um festival como o Coachella ou o Primavera Sound? Pabllo Vittar (São Luís, 24 anos), sim. É em espaços como esses que ela deseja ver os ritmos musicais do Norte e Nordeste do Brasil com os quais cresceu e formou memórias afetivas. Prestes a completar cinco anos de carreira, a cantora, considerada pela revista Forbes a “drag queen mais popular do mundo” resgata esses gêneros, além do carimbó e da bachata, no álbum Batidão tropical, lançado nesta quinta-feira, 24 de junho. O single Ama, sofre, chora, lançado em maio, que tem uma inegável batida forrozeira (também presente no refrão de Seu crime), foi uma prévia do novo trabalho, que a artista considera um “álbum de brasilidade”, contando também com a famosa pisadinha na regravação de Clima quente. “Sinto que, como artista, tenho que honrar e valorizar esses ritmos, porque cresci ouvindo forró e tecnobrega e é graças a isso que faço o pop de 2021″, diz Vittar em entrevista ao EL PAÍS.

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Calcinha Preta, Aviões do Forró, Desejos de Menina, Mala sem Alça, Lagosta Bronzeada, Companhia do Calypso, Banda Ravelly. A cantora consegue citar, sem titubear, até 15 bandas que influenciam seu trabalho, mas é incapaz de escolher uma favorita. “Tem umas 30.000 bandas de forró e todas regravaram as mesmas músicas, então é quase impossível descobrir de quem é a versão original”, ri, justificando-se. “Acho incrível essa cultura musical tão interligada. Você tem uma banda, eu tenho outra, mas você regrava minha música, eu faço a sua também... Fico muito feliz quando lanço uma música e alguma banda já regrava em forró. Para mim, isso é como ganhar na Mega Sena!”, diz.

Pabllo Vittar nasceu na capital maranhense, mas cresceu até os 13 anos em Santa Izabel do Pará, voltando depois para Caxias, interior do Maranhão, onde ainda hoje tem família e amigos. Foi a partir das lembranças desses lugares que escolheu, entre um vasto repertório, quais canções fariam parte do Batidão tropical. “Fui selecionando por memória empírica, lembrando das músicas que escutava quando ia para a escola lá em Caxias, por exemplo. É por isso que não tem nenhum feat, não queria dividir esse sabor com ninguém”, conta ela, explicando porque o álbum não tem colaborações com outros artistas —no passado, gravou com nomes como Anitta, Emicida, Diplo, Thalía e Luísa Sonza, entre outros.

Quando se mudou para São Paulo, Vittar não deixou de ouvir os gêneros que foram base de sua formação musical —”No último fim de semana, eu e minha mãe ficamos vendo as lives de São João das bandas de forró”, conta. Ela lamenta, no entanto, que esses ritmos sejam tratados apenas com o selo de regionais —com todos os preconceitos que a palavra implica— e não com o prestigioso carimbo de música brasileira. “É por isso que esse álbum é um apogeu do Norte e Nordeste. Quero exaltar essas regiões, bater no meu peito e dizer que não é só cultura regional, é um patrimônio brasileiro. É muito louco a desvalorização do que é nosso enquanto importamos cultura. É muito legal escutar coisas de fora, eu adoro uma Beyoncé, uma Madonna, adoro um K-pop, mas o que estamos ouvindo de música nacional? As mesmas canções, os mesmos artistas e os mesmos ritmos. A gente tem que quebrar a hegemonia das músicas que tocam nas rádios e trazer novidade, principalmente daqui, do Brasil”, defende.

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Vittar conta que a decisão de fazer uma ode ao forró, ao carimbó, ao tecnobrega e outros gêneros nacionais surgiu justamente devido ao “momento de desgraça” que o país atravessa, o que levou-a a lembrar-se da beleza de nossa riqueza cultural. “Quando estoura qualquer ritmo do Norte e Nordeste eu sou a primeira pessoa a soltar fogos pela janela. Quando Duda Beat apareceu, quando os Barões da Pisadinha apareceram, essa galera que canta com sotaque, que traz essa regionalidade, foi incrível, porque são portas se abrindo. Mas a gente ainda tem muita coisa para mostrar, tem muitos ritmos e músicas que não saíram ainda de seus bairros e periferias e é conhecido muito localmente.” Ela lamenta, no entanto, não ter podido trabalhar diretamente com artistas e produtores musicais dessas regiões. “Mas fomos super fiéis aos ritmos”, garante. “Eu ficava gravando e comentando: ‘Olha, essa bateria está errada, escuta aqui como é, eles fazem assim’”, gesticula, levando o celular ao ouvido. “Também mostrava vídeos de shows, fui muito criteriosa, se eu não me sentia no Nordeste com alguma batida, trocávamos”, acrescenta.

Devido à pandemia de covid-19, Vittar abrirá mão de uma das tradições que tem com seus fãs: um megashow de lançamento do novo álbum, festa que, geralmente, coincide com seu aniversário, em novembro. Desta vez, a apresentação será virtual, ainda sem data, mas com a promessa de uma grande produção, com direito a troca de palcos e de figurino. Tudo isso será parte das comemorações de cinco anos de carreira, que coincide com os ensaios para os shows internacionais já agendados. Ela insiste, no entanto, que ver e ouvir forró, carimbó e tecnobrega também nos festivais brasileiros. “Imagina a gay lá do Pará me ouvindo cantar uma música da Companhia do Calypso que eu ouvia na infância? Eu queria ser essa gay, mona. Queria ser essa gay vendo outra gay cantar uma música da minha terra”, se emociona.

Raízes do pop

Quem cresceu no Nordeste (principalmente no interior) está acostumado a escutar músicas de forró e brega que cantam o amor heterossexual e a ver, quase exclusivamente, casais formados por homens e mulheres dançando de corpos colados nas praças ou salões das cidades. Ironicamente, para Pabllo Vittar, uma artista queer que ousa reivindicar esses gêneros, foi a estética desses shows que despertou nela a vontade de ser cantora e o interesse pela performance de drag queen. “O que sempre me chamou a atenção eram as mulheres das bandas, como elas cantavam com aquelas vozes potentes, a Mylla Karvalho, por exemplo, ex-vocalista da Companhia do Calypso, que era um furacão no palco. Eu pensava: ‘Quero ser ela!’, ela não tem medo de nada, grita, joga o cabelo no palco...”, lembra. O bordão yukê (e o que?), que Vittar solta nos shows com seu característico e afinadíssimo agudo para conclamar os fãs a cantar junto com ela, é uma das referências diretas a Karvallo. “Eu tinha que fazer esse álbum também para homenagear essas mulheres que me fizeram sentir forte e sonhar com uma carreira na música.”

A cantora reivindica, inclusive, a influência —nas batidas, nos arranjos, nas roupas, na cenografia— que tais ritmos têm, ainda hoje, na música pop brasileira, seja no seu próprio repertório ou no de artistas como Jaloo, Johnny Hooker, Duda Beat e outros. Vittar não nega, por exemplo, que muito de como compõe sua imagem vem dessa fonte. “A Companhia do Calypso já trazia estética de um pop internacional, com referências de Britney [Spears], Christina Aguilera, Back Street Boys, quando os caras [dançarinos] entravam no palco, por exemplo. Eles pensavam em tudo. Sempre falo que o brega e o forró sempre estiveram à frente do seu tempo no Brasil. Eu tenho o repertório que tenho porque absorvi tudo isso. A primeira vez que eu vi a Britney, pensei ‘ela está copiando a Mylla!’”, gargalha.

Na era de aclamação de gêneros como o k-pop e em plena disputa geracional entre millennials e gen Z, Vittar não tem receio de que seu álbum com ritmos tradicionais seja considerado cringe (a gíria do momento da geração Z, o antigo da galera de vinte e muitos ou trinta anos). “Meu trabalho sempre foi pautado, de certa forma, no regionalismo, isso sempre esteve nas minhas referências musicais. Acho que essa galera mais novinha vai gostar, porque é uma oportunidade de conhecer coisa nova”, diz. E acrescenta sem modéstia: “Afinal, música boa é música boa em qualquer geração.”

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