Luísa Sonza: “Gostaria que nós mulheres não tivéssemos que ser fortes”

Prestes a lançar seu primeiro álbum, a cantora gaúcha, que deu os primeiros passos na carreira aos sete anos, diz que o apoio de outras mulheres a ajudou a superar a exposição involuntária de fotos suas seminua nas redes sociais

A cantora Luísa Sonza na redação do EL PAÍS Brasil.
A cantora Luísa Sonza na redação do EL PAÍS Brasil.Maressa Andrioli

Mas outro assunto se impõe na conversa com Luísa. A cantora foi vítima de um crime virtual, quando fotos suas seminua foram expostas sem o seu consentimento no Instagram. A cantora acordou no meio da noite com ligações de familiares e amigos para informar sobre o ocorrido e reagiu imediatamente, falando com naturalidade, ainda que emocionada, sobre o assunto: "Meninas que passam por isso, não se abalem. Sei que é ruim, é difícil, todo mundo vai falar, mas não deixem isso abalar vocês", aconselhou nas redes sociais, no mesmo dia do vazamento. Foi uma resposta pública enquanto superava o abalo que viveu. “O apoio que recebi de outras mulheres me ajudou a lidar com aquele momento, me lembrou que temos que nos colocar muito no lugar da outra. Hoje, sinto-me mais madura e vejo que minhas mensagens a favor da equidade de gênero vão pelo caminho certo", acrescenta.

Com uma trajetória na música que começou aos sete anos, quando cantava no Centro de Tradições Gaúchas de sua cidade, Luísa foi convidada a integrar a Banda Sol Maior, com a qual trabalhou durante uma década. Em 2014, criou um canal no YouTube para publicar versões das músicas de seus artistas favoritos e transformou-se na rainha dos covers. Em 2017, conquistou inclusive o Prêmio Multishow nessa categoria. A visibilidade online também rendeu-lhe a pecha de influenciadora digital, ainda que ela diga que é algo que nunca buscou. "Este ano já começou de uma maneira muito diferente, as pessoas já me veem como cantora. Acho que pelo menos 90% da minha base de seguidores já me conhece assim, porque a música tomou uma proporção maior do que qualquer outra coisa", comemora.

O reconhecimento, no entanto, não veio de repente. Como ela mesma conta, cada passo da carreira foi cuidadosamente pensado pela jovem, como "uma escadinha": seu primeiro objetivo foi ganhar o prêmio de cantora cover para poder deixar em segundo plano o papel de influencer. O que ela queria mesmo era começar a cantar suas próprias composições. "Sempre deixei claro que os covers eram uma porta de entrada para um trabalho autoral. O Prêmio Multishow, que é por votação popular, foi um termômetro muito bom, já que me fez entender que teria uma base grande de fãs para escutar minhas músicas", diz ela.

A cantora Luísa Sonza.
A cantora Luísa Sonza.Foto e arte de Maressa Andrioli

Quando recebeu essa validação, Luísa já tinha fechado contrato com a gravadora e estava pronta para cantar frases como "não deixem te dizer o que deve fazer" (música Boa Menina). Mensagens de cunho feminista, a favor da igualdade de gêneros e da desconstrução do papel tradicional da mulher na sociedade são temática constante em suas composições, sejam elas baladas mais românticas ou de pop dançante. E esse posicionamento não é uma estratégia de construção de imagem. "Eu transmito o que aprendi em casa. Sou de uma família de mulheres. Meu avô foi assassinado quando minha mãe tinha 14 anos e minha vó criou três filhas sozinha. Sempre vi a força delas e, mesmo sem saber, elas me transmitiram essa consciência. Tudo o que eu prego, devo a elas, aprendi com elas", diz.

Luísa acredita que foi a consciência feminista que a ajudou a enfrentar o crime virtual do qual foi vítima no início do ano. "Ali vi o quanto o feminismo é importante", lembra ela, três meses depois.  Luísa também sente-se mais fortalecida e grata por "ter voz para mostrar àquelas que não têm as mesmas oportunidades" que ela que podem "sentir-se fortes para lidar com as coisas que a vida joga". No entanto, pondera: "Gostaria que nós mulheres não tivéssemos que ser fortes, não assim".

Para uma pessoa reservada, de uma cidadezinha de 6.000 habitantes – "onde todo mundo conhece todo mundo" –, e que não gosta de demonstrar suas "fraquezas e vulnerabilidade", ela considera que reagiu bem à exposição indesejada. "Sempre tive muita vergonha e muita insegurança até para compor. Comecei com 13 anos, mas só fui mostrar uma letra para uma amiga aos 17. Era uma vergonha absurda", comenta, ao lembrar que, na escola, era alvo das piadas dos colegas por cantar. "Estávamos a oito horas de Porto Alegre, todo mundo sabia que o sonho estava distante demais". 

A primeira música autoral que mostrou ao público foi Olhos Castanhos, escrita para o marido (então namorado), o humorista e youtuber Whindersson Nunes – e essa é a única vez  na entrevista de 40 minutos em que ela menciona o nome do amado, ainda que as fotos de vídeos em que trocam carinhos sejam abundantes nas redes sociais. "Ainda me preocupo em expor meus sentimentos assim", diz. Foi com Whindersson que a menina do mato mudou-se há um ano e meio para São Paulo, onde afirma sentir-se à vontade. "Sempre quis isso, sempre gostei de ter uma vida agitada, então estou ótima". Às vezes, no entanto, ela procura a natureza para reconectar-se ou trabalhar. O futuro álbum, ainda sem nome e faixas definidas, foi gravado no estúdio de Elba Ramalho, em meio à mata atlântica do Rio de Janeiro.  A sonoridade predominante continuará sendo o pop, mas ela garante que, no futuro, quer fazer blues. "É um ritmo que sempre me influenciou muito, comecei a tocar violão e gaita por conta do blues", revela.

Depois do lançamento do primeiro disco, virá a primeira turnê e mais um turbilhão de novidades na vida da jovem de 20 anos. Mais um degrau na "escadinha de suas metas". Ela diz estar preparada, afinal, um dos seus lemas parece ser este: "Não precisamos falar tanto, precisamos fazer mais".