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O tecnobrega e o carimbó encontram o rock no Pará

Festival Se Rasgum, em Belém, chega a 11ª edição misturando nomes regionais ao indie britânico

A cantora paraense Luê, que se apresentou nesta quarta no Festival Se Rasgum.
A cantora paraense Luê, que se apresentou nesta quarta no Festival Se Rasgum.

Logo na terceira edição, em 2008, o Se Rasgum no Rock abandonou a última palavra de seu nome oficial, que limitava o festival paraense a um único estilo de som. Com mais possibilidades, o agora apenas Se Rasgum decidiu colocar no palco, naquele ano, o DJ Maluquinho, acompanhado de dançarinos de biquíni, shortinhos e sunga, para apresentar um animado tecnobrega, estilo que mistura ritmos nascidos no Pará com letras às vezes melosas e, neste caso, acompanhado de um fundo eletrônico. Algo popular na periferia paraense, mas que não podia estar mais distante do rock alternativo. A juventude belenense se rasgou de dançar, cumprindo o objetivo desenhado no próprio nome do festival. Chegou-se, então, ao formato ideal da festa: levar para Belém o que acontece no resto do mundo, celebrando, ao mesmo tempo, o que é produzido num ambiente tão rico como a Amazônia.

Localizado no topo do país, na fronteira com as Guianas e o Suriname, a quase 3.000 quilômetros de São Paulo ou do Rio de Janeiro, o Pará conseguiu sintetizar em suas músicas diversas matrizes. Da raiz dos brasileiros, com o uso de instrumentos indígenas e de tambores africanos, a ritmos caribenhos produzidos na vizinhança e descobertos pela proximidade geográfica. Há algumas décadas, sintonizava-se por ali com mais facilidade rádios dos países vizinhos do que as que tocavam a música do Sudeste.

Com isso, criou um ritmo dançante e único, com uma infinidade de gêneros e subgêneros capaz de confundir até os mais atentos: além do tecnobrega há o carimbó (dança de roda de origem indígena mesclada com ritmos africanos), a guitarrada (uma repetição de solo de guitarra em ritmos caribenhos), a tecnoguitarrada (mistura de tecnobrega, guitarrada e música eletrônica), e um som feito por uma nova geração que resgata tudo isso e mistura ao pop, ao rock e à lambada, criada ali há mais de três décadas. A música, às vezes é acompanhada de um instrumento refinado como o violino, para criar uma outra versão que não é nada daquilo que se viu antes. Uma criatividade sem limites, que muitas vezes nem chega ao resto do país.

"Em uma terra que tem tudo isso, por que iríamos fazer só rock?", resume Marcelo Damaso, um dos realizadores do festival, que surgiu primeiro como uma festa, feita por amigos que não encontravam um lugar na noite da cidade que pudessem aproveitar. "Havia muita música paraense autoral surgindo, mas essas bandas não tinham onde tocar", conta Renée Chalu, outra produtora do festival.

Eles passaram a levar tão a sério a missão de descobrir a música autoral do Pará que começaram a realizar pré-festivais antes do festival oficial, para poder selecionar bandas locais para tocar no Se Rasgum em um concurso com jurados independentes e a participação do público. Em um desses, escolheu-se como atração Felipe Cordeiro, filho do mestre da lambada Manoel Cordeiro. Inspirado no que aprendeu com o pai, o artista criou uma espécie de brega cult, que chamou a atenção do país num movimento que começou a ser chamado de pop tropical.

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Foi nos palcos do Se Rasgum também que ganhou destaque o carimbó chamegado de dona Onete, uma revelação da música paraense quando muitos estão se aposentando. Onete gravou seu primeiro CD com 72 anos e sensualizou nos palcos até dos Estados Unidos.

Imerso nessa miscelânea de ritmos, o Se Rasgum chegou nesta semana a sua 11ª festa. Neste ano, traz a banda de indie rock britânica Yuck e os meninos do Molina y Los Cósmicos, que fazem um folk uruguaio. Mas também haverá um show do Pinduca, de 79 anos, um dos criadores do carimbó eletrônico, que mistura a batida dos tambores africanos à guitarra elétrica, uma ousadia que décadas atrás lhe rendeu muitas vaias nos salões de festa de Belém, mas hoje é cultuado até entre os mais jovens da região.

Há ainda nomes nacionais como Marcelo Jeneci e Tulipa Ruiz, o glam-rock do paulistano Thiago Pethit, a latinidade eletrônica da dupla maranhense Criolina e a voz andrógina do gaúcho Filipe Catto, que na noite desta quarta-feira levou o público a transitar por Paloma Negra, do mexicano Tomás Mendez, e por arranjos de guitarra feitos pelos paraenses Manoel e Felipe Cordeiro. Reúne um público de até 12.000 pessoas, que vai de idosos a crianças, incluindo turistas de fora de Belém.

Depois de tantos anos, o festival acabou servindo como uma vitrine para mostrar para o resto do Brasil o que é produzido no Pará. Neste ano, o Se Rasgum foi selecionado para tocar nas Olimpíadas, em uma mostra de festivais brasileiros realizada pela Fundação Nacional de Artes (Funarte). Ao chegar no Rio de Janeiro, Damaso descobriu que na cidade já há, inclusive, aulas de Carimbó. Concluiu feliz que seu Estado atravessou fronteiras. "O Pará está na moda", diverte-se. 

A jornalista viajou a convite da organização do Festival Se Rasgum.

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