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Você conhece o ‘pop tropical’?

Bandas do norte do Brasil apresentam sua mistura de carimbó e ritmos latinos para o resto do país e garantem que é a nova grande onda brasileira

O grupo Saulo Duarte e a Unidade.
O grupo Saulo Duarte e a Unidade. Divulgação

Acolhidos pela megalópole São Paulo, grupos do norte do Brasil trazem novos sons para quem é daqui, mas velhos conhecidos para quem é de lá. A mistura do merengue do Caribe e da bachata e cumbia latina provocam surpresas ao ouvinte desavisado, que tenta entender o requebrar da guitarra, um instrumento mais acostumado a acordes menos calientes. Toques de lambada também podem aparecer e aí está a primeira pista para entender um ritmo que já nasce híbrido, entre os estados do Pará, Pernambuco e Ceará.

“É uma antropofagia local que se desloca”, argumenta Felipe Cordeiro, um dos músicos que traz a onda do pop tropical, como ele mesmo denomina. A princípio, a razão para justificar a mistura de ritmos é geográfica, já que Belém, capital do Pará e de onde vem Cordeiro, está muito mais próxima de países como Suriname, Guiana e Venezuela que de cidades como São Paulo e Rio de Janeiro, naturais caixa de ressonância para o mundo. “Desde os anos 50, 60, sintonizamos rádios caribenhas, então desde pequenos ouvimos ritmos latinos, que se impregnaram em nossa melodia e na nossa forma de fazer música”, explica Cordeiro, que é filho de Manoel Cordeiro, músico e produtor que lançou o rei da lambada nos anos 80, Beto Barbosa. Sua escola foi a guitarrada, um estilo de tocar o instrumento que caracteriza o conhecido brega do norte e nordeste. No entanto, o termo, para Cordeiro, é menosprezado por sua associação com grupos de forró eletrônico, outra febre do seu estado de origem. “O brega nada mais é que uma batida repetitiva”, esclarece o músico que também é formado em filosofia.

 

“Passamos por três grandes movimentos da música genuinamente brasileira: o primeiro foi o samba, no Rio de Janeiro dos anos 1920, o segundo foi Luiz Gonzaga e Dominguinhos com o forró e o baião nos anos 1950, e o terceiro é o de agora, com a música do norte dialogando com a América Central”, explica Saulo Duarte, músico natural do Pará e criado em Fortaleza, que apresenta um trabalho singular que mescla o ska e o reggae com metais cubanos, tambores de Belém e a gaita diatônica, um tipo de sanfona do Peru. Já a MPB de Caetano e Gil, para Cordeiro e Duarte “está morta há anos”. O som do tal pop tropical também dialoga com a produção do francês Manu Chao, que incluiu a cumbia argentina em seu repertório.

Para os músicos desta cena alternativa, uma das principais razões pelo qual o que fazem não seja muito conhecido no sul do país é que a região norte é autossustentável e que “não está nem aí para o comercial”, afirma Klaus Gena, músico cearense que atua no projeto Saulo Duarte e a Unidade. O grupo está neste momento “na síndrome do segundo disco”, uma aposta de mais miscelânea ainda financiada através do mecenato coletivo, o crowdfunding, que conseguiu arrecadar 19.040 reais. Tanto Cordeiro quanto Duarte não vendem discos. O CD, para eles, é apenas um cartão de visita e um registro da realização musical. “Vivemos da música, só que fazendo shows”, explica Cordeiro, que conta que às vezes grava uma música em casa e solta na internet, “o palco do mundo”. Outro grupo que também divulga suas músicas na internet através de sites como Soundcloud e o já antigo MySpace é o Bixiga 70, que se aproxima dessa forma de produzir com o resgate e mistura de sons exclusivos de um só estilo, como o choro ou samba, que criam um terceiro quando mesclados.

 

A condição de migrante para esses músicos que vêm do norte e nordeste não lhes assusta e acreditam que São Paulo seja realmente o lugar certo para o tipo de trabalho que querem vender. Ainda que tenham sido influenciados pelo manguebeat de Chico Science, um dos primeiros a experimentar o rock com maracatu, ritmo folclórico de Pernambuco, afirmam que as trocas com grupos de estética similar é o que move o circuito da música heterogênea e sem etiquetas, onde também se incluem grupos paulistanos. Ouvem sons tão variados quanto o do Meta Metá, Tulipa Ruiz, Nina Becker e até Jorge Benjor. A diferença entre eles e outros nomes da atualidade, representados por selos de grandes gravadoras, é que sua relação com o público é direta e muito próxima. Responderam pessoalmente à solicitação de entrevista do EL PAÍS, um oásis no deserto para jornalistas que tentam driblar as assessorias de imprensa. “E somos nós mesmos que vendemos CDs durante os shows”, garante Duarte.

O produtor Carlos Eduardo Miranda, do selo YB, acredita que o que acontece hoje em São Paulo, o grande destino para músicos brasileiros de todas as partes, é fruto da aproximação da diversidade do norte e nordeste com os grupos locais. “Eles acabam se contaminando também. Ouvem Gaby Amarantos, Jaloo, Dona Onete, Rômulo Fróes, Pinduca, Alípio Martins e o Mestre Aldo Sena, que são muito variados, do brega ao samba, ao carimbó, à guitarrada, ao pop cult e até mariachi mexicano”, diz ele. “No norte há muita diversidade, que ficou demasiado tempo guardada por lá”, conclui Miranda. E Duarte concorda: “Nós não somos um produto para exportação. Temos nossos pés onde nos criamos e essa é a sonoridade que conseguimos e queremos transmitir”.

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