Música brasileira

Antonio Neves traça mapa musical quente como o Rio

Baterista, trombonista e arranjador aponta para as tradições e as sonoridades contemporâneas cariocas em novo disco. Escalado para álbum de Marisa Monte, se consolida em sua geração

O baterista, trombonista e arranjador Antonio Neves.
O baterista, trombonista e arranjador Antonio Neves.Lucas Vaz

Com um mapa musical amplo, um lema ao mesmo tempo ambicioso e descompromissado, A pegada agora é essa é o nome do disco que o baterista, trombonista e compositor Antonio Neves lança pelo selo britânico Far Out Recordings —conhecido por sua atenção ao que de mais quente há na música brasileira, do pianista-revelação Amaro Freitas a gravações perdidas de Hermeto Pascoal. Com a participação de convidados como Hamilton de Holanda, Leo Gandelman, Ana Frango Elétrico e Alice Caymmi, A pegada agora é essa (“The sway now”, em inglês) confirma o talento do artista de 30 anos, no momento em que se desenha sua consolidação entre os grandes. Arranjador de Little electric chicken heart, de Ana Frango Elétrico (álbum vencedor do Prêmio da Associação Paulista dos Críticos de Arte 2019 na categoria Revelação Musical), ele agora trabalha em arranjos no novo disco de Marisa Monte —o primeiro solo da cantora desde 2011, que vem sendo gravado em clima de sigilo.

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Nos primeiros minutos, o disco de Neves parece free jazz, mas está mais pra free tamborzão —sobre o qual a voz da mulher de garganta curtida manda expressões como “o bagulho tá doido”, “tá bolado?”, “o bicho tá pegando”. Mais à frente, um cool jongo abraça Nelson Cavaquinho. Noutro ponto, vem um Summertime cantado em embromation carioca depois da terceira (talvez quarta) cerveja —numa sonoridade que faz uma caminhada impossível passando por Beco das Garrafas (berço da bossa nova e do samba-jazz, em Copacabana), Jazzmania (casa em Ipanema fundamental pra música instrumental carioca na década de 1980), Aparelho (espaço na praça Tiradentes, no Rio, onde vem fermentando nos últimos anos a cena novíssima da cidade) e baile do Conjunto Copa 7 no Vera Cruz (clube localizado em Piedade, bairro do subúrbio da cidade).

O caminho na carreira não foi curto. A pegada agora é essa, que traz composições próprias e releituras, é o segundo disco solo do artista, sucessor de PA7, de 2017. Mas vem de mais longe o início de sua trajetória, que inclui bailes noite adentro no Clube Democráticos (na Lapa carioca) com a Orquestra Republicana, atuação ativa na cena de bandas de jazz na rua da década passada, gravação em álbuns como Jobim, orquestra & convidados, shows com artistas como Teresa Cristina a Natiruts e participação na banda do programa de TV Adnigth (de Marcelo Adnet). Filho do maestro, flautista e saxofonista Eduardo Neves e sobrinho do cavaquinista Jayme Vignoli, Antonio diz, rindo, que foi “praticamente obrigado a ser músico”.

O baterista, trombonista e arranjador Antonio Neves e Ana Frango Elétrico.
O baterista, trombonista e arranjador Antonio Neves e Ana Frango Elétrico.Lucas Vaz

“Meu pai ouvia muito saxofonista: Pixinguinha, Coltrane, Joshua Redman… Muito jazz e muito choro”— conta o músico. “Lembro que com uns seis anos eu ficava cantarolando temas como Tequila, na versão do Henry Mancini, ou Sing a song of song, de Kenny Garret. Cantava imitando os solos, os improvisos. Também se ouvia muito lá em casa Paulinho da Viola e Milton Nascimento, mais do que qualquer jazz. Mas o que eu ficava mais ligado era na coisa dos improvisos.”

Com os colegas da escola, ouviu bandas como Nirvana, Red Hot Chili Peppers e “até Charlie Brown Jr.”: “Tinha que escutar. Porque parecia que eu era de outro mundo, né? Com 13 anos ouvindo jazz. Mas eu era realmente fissurado em Rappa, o disco Lado B lado A. E ouvi muito funk carioca. ‘O natural do Rio é o batidão’ [canta o verso de Diretoria, do MC Sapão]. Minha família não gosta, mas eu ouvia. Porque você percebe ali algo que existe no samba, no maxixe, esses gêneros que eram praticamente proibidos e viraram algo grande.”

Aos 14 anos começou a fazer seus primeiros bailes na Lapa, sempre como baterista —aos 11, ele havia ganhado sua primeira bateria (“Meu pai queria alguém pra acompanhá-lo”, brinca). Tocou com os músicos Vittor Santos e Leo Gandelman. Poucos anos depois, na faculdade de Música, caiu quase por acaso no trombone. “Eu precisava pegar uma matéria eletiva, e sem pensar muito fui pro trombone”, lembra Antonio. “O professor, João Luiz Areias, me disse que eu tinha facilidade na embocadura, que eu tinha que seguir no trombone. Levei a sério. Agora tenho vontade de estudar outros instrumentos. Na quarentena fiquei vidrado no trompete. Não me sinto tão seguro ainda, mas acho que a música é maior do que escolher um instrumento.”

A música, para Antonio, também é maior do que escolher uma turma. Filho dos ambientes do choro, do samba e do jazz, ele não quis se limitar a eles. Circulando pela cidade, começou a trocar com músicos de outras cenas, como Ana Frango Elétrico e Alice Caymmi —ambas convidadas de A pegada agora é essa, respectivamente em Luz Negra (Nelson Cavaquinho e Amâncio Cardoso) e Noite de temporal (Dorival Caymmi).

Os pares de Antonio —músicos de gerações e ambientes diferentes— identificam nele o brilho de um artista especial: Mário Adnet (“Vejo um futuro muito bonito pra ele, que é um craque escrevendo arranjo, tocando e produzindo, com uma concepção muito pessoal”), Kassin (“Ele toca uma bateria poética, e toca trombone tão bem quando toca bateria, é um fenômeno”), Alice Caymmi (“É uma estrela grande na música brasileira hoje, um dos maiores”) e Hamilton de Holanda (“Ele tem uma visão global da música muito nova e muito fresca, umas levadas únicas, uma coisa de misturar, sei lá, afrobeat com Cacique de Ramos”).

Hamilton também está em A pegada agora é essa. A lista de participações do disco, aliás, dá boas pistas do território que interessa a Antonio. Um território profundamente ligado ao Rio —ou melhor aos Rios. Alice e Ana trazem essa informação de um Rio mais jovem. Leda, dona da voz que aparece em Simba (com improvisos como “tá bolado?”), trabalhava na casa da avó do músico e o viu crescer, tornando-se uma grande amiga. Entra no disco numa participação afetiva, improvisando com musicalidade falas carioquíssimas sobre o instrumental. Outro que conhece Antonio desde menino, Marcos Esguleba, percussionista que toca com Zeca Pagodinho há décadas, entra em A pegada agora é essa, na qual expõe, na percussão e nos bordões, sua verve suburbana.

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Hamilton de Holanda traz ao disco, em Forte Apache, a atmosfera do Baile do Almeidinha, festa realizada regularmente no Circo Voador sob o comando do bandolinista —acontecimento único, de música de altíssimo nível a serviço da dança e da alegria pura. Eduardo Neves, em Jongo no feudo, representa toda uma tradição carioca de choro e samba e gafieira, assim como Leo Gandelman, em Lamento de um perplexo, encarna essa geração de instrumentistas de jazz que vicejou na cidade na década de 1980 —e que anos depois rebateria na cena de jazz na rua. Ou seja, A pegada agora é essa condensa em oito faixas muitas tradições e vocações do Rio, atestando a insistência da vitalidade da cidade em meio à crise na qual ela está afundada há anos.

“O Rio do disco é aquele de um dia que você acorda tarde de ressaca, pega um fim de praia e dali começa”, descreve o músico. “Toma um chopp já pra curar a ressaca, passa por Santa Teresa, praça Tiradentes… Tá numa roda de samba, daqui a pouco chega numa galera do rock’n’roll alternativo louco. Essa caminhada no centro sem ter muito pra onde ir. Aparelho, Escritório, Bar do Nanan, rua Joaquim Silva...”

Sonoramente, em A pegada agora é essa, esse Rio foi traduzido em timbres acústicos, como piano e contrabaixo —um desejo de Antonio desde quando finalizou PA7, seu álbum anterior. A fagulha para o disco foi um documentário sobre a trajetória de Quincy Jones e seu jeito de trabalhar. O filme despertou no artista a vontade de juntar os músicos que ele imaginava que dialogariam bem dentro de sua proposta. Fez uma lista, foi ligando e ouvindo os aceites: Eduardo Farias (piano), Gus Levy (guitarra), Luiz Otávio (Rhodes), André Vasconcellos e Alberto Continentino (contrabaixo acústico), Thiago da Serrinha (percussão)...

“No plano da melodia, quis usar a sonoridade do clarone da Joana Queiroz e do meu trombone juntos, muitas vezes em uníssono, de maneira mais calma”, explica o músico. “Para o ritmo, eu já estava fissurado no afrobeat cruzando com percussões e levadas brasileiras. A pegada agora é essa, Noite de temporal e Forte Apache, por exemplo, têm a coisa do afrobeat com, respectivamente, partido alto, jongo e funk carioca. E os dois pianos eu queria como se fossem dois cachorros brigando. A ideia geral era fazer uma linha de baixo definida e deixar percussões e pianos soltos.”

Em meio ao turbilhão, há samples pontuais, como um trovão em Noite de temporal e o burburinho das manifestações de 2013 em Luz negra. Sons do céu e sons do chão —ou sons ancestrais e sons do presente, do calor das ruas. Sons que falam do Rio que emerge no disco, a cidade que Kassin evoca para formular uma síntese sobre Antonio:

—É uma das pessoas do Rio de Janeiro que tem a grandeza do Rio de Janeiro.

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