Gal Costa: “O Brasil precisa de elegância e pureza”

Em ‘Nenhuma dor’, a cantora revisita em duetos com jovens artistas canções que gravou entre 1967 e 1981. Um repertório que acredita ter muito a dizer ao Brasil que vê espelhado no ‘Big Brother’: “Há muito veneno, muita maldade”

Gal Costa, em foto de arquivo de novembro de 2018.
Gal Costa, em foto de arquivo de novembro de 2018.Folhapress

Gal Costa tem assistido ao Big Brother Brasil. No paredão da última terça-feira (9), torceu pelos integrantes Gil e Juliette, que acabaram ficando na casa, sob o crivo dos telespectadores que torcem por eles, como Gal.

— Eu defendo a nordestina (Juliette). Sei do preconceito que as pessoas têm com a gente, com o sotaque da gente. Ficam mangando, como ela mesma fala — diz a baiana, marcando o sotaque para reforçar sua identidade nordestina, antes de lançar um diagnóstico sobre o ambiente de preconceito, lacração e violência psicológica que se testemunha no programa: — É um espelho dos tempos de hoje, no Brasil e no mundo.

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É frente a estes tempos que Gal lançou na sexta-feira, 12, o álbum Nenhuma dor — além do formato digital nas plataformas, o disco sai em CD (Biscoito Fino) e vinil (Noize Record Club). Nenhuma dor reúne 10 duetos da cantora lançados como singles nos últimos meses — com Seu Jorge, Criolo, Rodrigo Amarante, Zé Ibarra, Rubel, Silva, Tim Bernardes, Zeca Veloso, o uruguaio Jorge Drexler e o português António Zambujo. Todas as faixas são regravações de músicas lançadas por ela entre 1967 e 1981, ou seja, num período no qual o Brasil vivia uma ditadura militar. Gal acredita que, a despeito da passagem de décadas, elas ainda têm muito a ensinar ao Brasil que se vê espelhado no BBB — seja pela simples defesa da beleza, seja pela manifestação de liberdade contracultural que carregam:

— É importante que essas canções sejam ouvidas, porque parece que as pessoas não mudam — avalia a cantora. — Continuam iguais as militâncias, a caretice, a falta de uma visão mais aberta de respeito ao próximo, às diferenças. Tudo isso agora evidenciado pelas mídias digitais. Há muito veneno, muita maldade. As pessoas estão muito caretas, muito policiadoras, todos vigiando e condenando todos. O Brasil precisa de elegância e pureza.

Elegância e pureza é, em certa medida, a proposta estética de Nenhuma dor — que tem concepção e direção artística de Marcus Preto. Com economia de elementos, as canções (Avarandado, Só louco, Paula e Bebeto, Pois é, Meu bem, meu mal, Juventude transviada, Baby, Coração vagabundo, Negro amor e Nenhuma dor) são reduzidas à sua essência. A base de todas elas são os violinos e violas de Felipe Pacheco Ventura (responsável também pelos arranjos de cordas) e os cellos de Marcus Ribeiro. O processo foi determinado pela pandemia: cada convidado enviava a gravação de sua voz (e, em muitos casos, um ou outro instrumento), e a partir dali Gal registrava seu canto.

— Gostei muito da ideia de cada um produzir sua faixa, traz uma riqueza musical enorme — diz Gal, que já conhecia todos os nomes sugeridos por Preto, e com alguns deles já havia trabalhado. — Gravei Tim num passado recente (Realmente lindo, no disco A pele do futuro, de 2018). Silva também (Palavras no corpo, parceria dele com Omar Salomão, registrada no mesmo álbum), além de ele ter tocado comigo no show que fiz para Lupicínio Rodrigues. Zé Ibarra eu vi cantando Milton Nascimento num vídeo que Caetano postou. Já cantei com Rubel (um dueto dos dois em Baby, gravado ao vivo, foi lançado em 2020), gravei Criolo (Dez anjos, dele com Milton)... Amarante sempre gostei muito, sempre achei que era o bossa nova do rock’n’roll. Adoro todos.

A cantora se surpreendeu quando Preto chamou sua atenção para o fato de que seu canto havia influenciado não só as cantoras que vieram depois dela — mas também os homens, como se mostra no elenco exclusivamente masculino de Nenhuma dor.

— Quando ouvi Tim Bernardes cantando Baby, notei que ele fazia umas inflexões que são do meu jeito de cantar, não estavam originalmente na composição — diz, antes de entoar “baby-y-y-y”, mostrando a variação. — Marcus me disse que não só ele, mas muitos cantores homens também foram muito marcados por minha voz. Eu fui muito influenciada por um homem, que é João Gilberto. Agora estou gravando com homens que receberam minha influência. É bonito isso.

O tom de homenagem atravessa o disco — que tem capa assinada por Omar Salomão. As novas gravações são reverentes a Gal, a despeito de trazerem as marcas estilísticas dos convidados e uma abordagem contemporânea. Algumas alcançam resultados mais surpreendentes, como a de Seu Jorge para Juventude transviada (por seu canto grave, duas oitavas abaixo da cantora, ou “no porão”, como a cantora diz), a de Tim para Baby (pela delicadeza de cristal do arranjo assinado por ele, inclusive as cordas) ou a de Amarante para Avarandado (por seu frescor elegantemente pop).

— Achei lindo o grave de Seu Jorge. Ele cantou no meu tom, coitado, mas se saiu maravilhosamente. Não é fácil. Sei porque às vezes tenho que fazer isso. Recentemente gravei com Daniela (Mercury, no frevo Quando o carnaval chegar), e me mandaram a gravação pronta, no tom dela. Ainda bem que minha voz tem extensão, grave e agudo, muitas das minhas músicas canto nos tons que gravei originalmente. Mas não seria meu tom ideal para gravar um frevo.

Sobre tonalidade, aconteceu algo curioso no registro de Meu bem, meu mal, com Zé Ibarra (do Dônica). Acompanhando-se ao piano, ele mandou uma gravação na qual cantava em seu tom e depois modulava para o tom de Gal, no qual fez uma voz guia — ou seja, apenas para que a cantora tivesse uma referência quando fosse gravar.

— No estúdio, depois que já tinha gravado a minha voz, Marcus pediu que eu gravasse também no tom do Zé Ibarra, mais grave. Falei que não ia ficar bom, ele insistiu. Acabei fazendo, e ficou tão bonito que acabamos usando meu canto nesse tom e o de Zé, que ele tinha feito apenas como voz guia, no agudo. Ele tem um canto muito técnico, maravilhoso.

Nenhuma dor é carregado de memórias que passam por momentos fundamentais da trajetória da baiana, como a Tropicália (Baby) e a fase Gal Tropical (Juventude transviada) — originalmente, o nome do álbum era Gal 75, em referência aos 75 anos da cantora que o projeto celebra. O início de sua caminhada tem importância destacada. Seu disco de estreia, Domingo (de 1967), que dividiu com Caetano, é lembrado em três canções: Coração vagabundo (em dueto com Rubel), Avarandado (com Amarante) e Nenhuma dor (com Zeca Veloso, filho do compositor). Caetano, aliás, é o autor de sete das dez canções do disco — assina quatro sozinho (Avarandado, Coração vagabundo, Meu bem, meu mal e Baby), uma com Milton (Paula e Bebeto), outra com Torquato Neto (Nenhuma dor) e, com Péricles Cavalcanti, uma versão (Negro amor) para It’s all over now, baby blue, de Bob Dylan.

Domingo foi o começo do começo — recorda Gal. — Eu e Caetano acordávamos cedo demais para ir pro estúdio, e eu sempre dormi muito tarde, até hoje. Era difícil levantar pra gravar.

O disco tem ainda canções de Luiz Melodia (Juventude transviada), Tom Jobim e Chico Buarque (Pois é) e Dorival Caymmi (Só louco). Gal gosta especialmente de sua voz na regravação desta última, feita com Silva:

— Acho minha performance como cantora melhor nessa gravação do que na primeira (do disco Gal canta Caymmi, de 1976). As cordas me deram inspiração para umas notas alongadas que faço e que gostei muito.

Gal aguarda ansiosamente a volta aos palcos e já começou a conversar com Preto sobre um novo show. Mas respeitando o tempo da pandemia.

— Sou caseira, mas ficar em casa obrigada é outra coisa. Sigo a ciência, quero proteger a mim e a todos, então fico em casa. Mas quero fazer um show assim que acabar isso tudo. Temos algumas ideias...

O repertório de Nenhuma dor refere-se exatamente a um tempo em que Gal atenuava (na doçura de seu canto) a temperatura das ruas. Ou a expunha — fosse no “qualquer maneira de amor vale a pena” de “Paula e Bebeto”, na “Carolina” e na “gasolina” de “Baby”, nas “pedras no caminho” e nos “mortos que já não levantam mais” de “Negro amor”.

— Vejo hoje tudo que fiz no passado, expor o corpo, as pernas, mexer com tudo que era proibido pela cabeça das pessoas, pelo Governo. Eu fazia isso com espontaneidade e uma certa ingenuidade. Era espontaneamente livre. Vejo elegância e pureza nessas minhas imagens.

Essas imagens que Gal, em Nenhuma dor, projeta suavemente sobre o Brasil — e sobre o BBB que o espelha. Se não por mais nada, pelo melhor resultado do paredão — dos paredões cotidianos. “Qualquer canção, quase nada/ Vai fazer o sol levantar/ Vai fazer o dia nascer”, ela canta em Avarandado.

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