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Teresa Cristina: “A empatia e a compaixão com a pele preta é zero”

"Rainha das lives", como vem sendo chamada nesta quarentena, sambista carioca falou sobre o atual momento político do país, a pandemia e o racismo

Acompanhe ao vivo a entrevista com a cantora e compositora Teresa Cristina.

“Você trabalha, trabalha, trabalha e seu trabalho não aparece. Dá muita vontade de desistir, dá muito desânimo”. Quem lê essa frase nem imagina que ela vem de uma mulher que tem arrastado milhares de pessoas em verdadeiras festas virtuais com os maiores nomes da música brasileira nos últimos três meses. “Estou fazendo um show por dia desde o dia 26 de março”, conta a cantora e compositora Teresa Cristina, ou “Tetê” como é chamada por seus fãs, os autodenominados “Cristiners”.

Em conversa com o EL PAÍS, em mais um vídeo da série de entrevistas ao vivo realizadas por este jornal, a sambista carioca falou sobre o atual momento político do país, a pandemia e a dificuldade de ser valorizada como artista negra. Com mais de duas décadas de estrada, foi agora, durante a pandemia, que seus shows se popularizaram e ganharam mais visibilidade. É no Instagram que ela canta, se emociona e conversa sobre os mais variados assuntos com nada menos que artistas como Caetano Veloso, Marisa Monte, Alceu Valença, Preta Gil, Bebel Gilberto e Guilherme Arantes. Seus shows já tiveram um público de mais de 50.000 pessoas. Ainda assim, ela diz, nem a marca da cerveja que ela costumava tomar durante as lives se interessou por patrociná-la. “Enviaram 12 garrafas long neck aqui para casa e só”, conta ela, depois que os próprios fãs marcaram a cervejaria nos comentários. Resultado? “Não tomo mais”.

Ao longo da conversa, a sambista relata outros momentos em que foi vítima de racismo. E vai além, lembrando da violência sofrida em favelas e comunidades, até mesmo pelas crianças, e a apatia do país diante dessas notícias. “Existe um cidadão do bem, que acha que é cidadão do bem, e que é tão criminoso quanto a bala que mata criança [na favela]”, diz. Essa violência racial, de acordo com ela, já está naturalizada. “A empatia e a compaixão com a pele preta é zero”, diz.

Mas se não há marca de bebida que entenda o filão que está perdendo, por outro lado o carinho dos fãs, que já mandaram até salgadinhos para a casa dela como um mimo para acompanhar a cerveja —não mais aquela— recompensa. “Rainha das lives” e “ministra da sanidade mental” são alguns dos apelidos que a artista ganhou nos últimos meses. “As pessoas me falam “a minha terapeuta me indicou a sua live”. A primeira vez que eu ouvi isso achei um absurdo, falei que terapeuta é essa?”, conta. “Mas no segundo relato eu falei caramba, não posso parar de fazer”.

Agora, a cantora se prepara também para lançar seu próximo DVD Teresa canta Noel: batuque é um privilégio, com interpretações de Noel Rosa e direção de Caetano Veloso. O trabalho, que será exibido no próximo dia 20 no canal Bis, é o segundo de uma trilogia em homenagem a grandes nomes da música brasileira, estreado pela turnê Teresa canta Cartola. Isso tudo além, claro, dos shows virtuais diários, que não devem parar tão cedo, e são preparados como se fossem reais. “Eu me maquio, me preparo, penso no repertório e fico três horas ao telefone”, conta ela. Se cansa? “O que me cansa mais são as notícias”.

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