Nas ‘capitanias hereditárias’ da política de Minas Gerais, até herdeiros de José Bonifácio arriscam votos

Sobrenome e grau de parentesco têm peso estratégico nas eleições municipais, que reforçam hegemonia dos clãs. Sexta geração do ex-ministro de Dom Pedro I disputou duas prefeituras

Lafayette Andrada posa no Itamaraty, em frente à obra que mostra a coroação de Dom Pedro I
Lafayette Andrada posa no Itamaraty, em frente à obra que mostra a coroação de Dom Pedro IDivulgação

Em 31 de janeiro de 2019, parecia ter chegado ao fim uma dinastia no Congresso Nacional. Bonifácio Andrada (DEM), que, aos 88 anos, decidiu se aposentar da política, encerrava o último de seus 10 mandados consecutivos como deputado federal. No entanto, entregou o gabinete que ocupou por quatro décadas ao filho Lafayette Andrada, eleito pela primeira vez para uma vaga na Câmara. Ao herdar o posto, o parlamentar, candidato a prefeito de Belo Horizonte pelo Republicanos, inaugurou em Brasília o ciclo da sexta geração de congressistas da família, operante no circuito político desde os tempos de Brasil Colônia, com o precursor José Bonifácio de Andrada e Silva, que foi ministro do Reino e dos Negócios Estrangeiros de Dom Pedro I entre 1822 e 1823. Bonifácio é tido na história como o Patrono da Independência brasileira, pelo seu papel exercido para separar o Brasil de Portugal. Foi tutor de Pedro II, quando ainda era criança.

Na República brasileira, ser parente de político é um atributo destacável na biografia, uma distinção utilizada para abrir portas e transferir votos, a exemplo do presidente Jair Bolsonaro e seus três filhos mais velhos. Em Minas Gerais, estado com mais municípios e segundo maior colégio de eleitores do país, ser parente de político é meio caminho andado para chegar às altas esferas do poder. Existem exceções, claro, como Alexandre Kalil (PSD), um ex-outsider que se reelegeu prefeito de Belo Horizonte no primeiro turno.

Mas trata-se da famosa exceção que confirma a regra. Entre os 130 deputados estaduais e federais eleitos pelos mineiros dois anos atrás, mais da metade (71) têm familiares com histórico na política. E as eleições municipais mantêm a hegemonia dos clãs em várias regiões. Um retrato de como os feudos eleitorais se transformaram em capitanias hereditárias ―as antigas divisões do Brasil colonial que podiam ser transferidas de pai para filhos― em pleno século XXI.

Mais informações

De todos os 24 prefeitos da história de Barbacena, seu berço eleitoral no Campo das Vertentes, cinco pertencem à família Andrada. O último deles, Toninho Andrada, irmão de Lafayette, governou até 2016. A nova aposta é Bonifácio Andrada Neto (DEM), sobrinho de Toninho. Aos 30 anos, ele queria se tornar o prefeito mais jovem de Barbacena e conta com o apoio do avô na campanha. “É meu neto, eu o conheço bem, e por isso peço que votem nele”, recomendou o patriarca e ex-deputado nas peças de campanha. Tamanha predominância gera situações insólitas. Um dos concorrentes de Bonifácio é justamente seu tio Martim Andrada (PTC), ex-prefeito da cidade apoiado pelo primo, o deputado estadual Doorgal Andrada (Patriota), 29. Apesar da força atávica, os herdeiros da linhagem foram derrotados por Carlos Du (MDB).

Já na vizinha Zona da Mata, os Braz e os Varella pariram sua própria versão da “política do café com leite”, imperando em Muriaé e cidades da região a partir da convivência pacífica em busca de votos. Lael Varella (PSD), 81, emplacou sete mandatos seguidos como deputado federal até passar o bastão em 2015 ao filho Misael (PSD), 60, que hoje apoia os primos Gerson Varella Neto (PSL) e seu xará Mizael Varela (PSD) na campanha a vereador —apenas Gerson foi eleito. Do outro lado, José Braz (PP), 94, tornou-se o prefeito mais velho do país. O empresário, que já exerceu dois mandatos na Prefeitura, é pai do deputado estadual Braulio Braz (PTB), 72, e do ex-deputado federal e suplente no Senado, Renzo Braz (PP), 40.

A região ainda está no raio de influência dos Castro, representada pelo ex-deputado federal por três legislaturas, Danilo de Castro (PSDB), e seu filho Rodrigo de Castro (PSDB), que desfruta do quarto mandato na Câmara Federal. “Eu nunca o induzi a isso. Ele sempre quis e se preparou para virar político”, diz Danilo sobre o filho. Ambos ocuparam altos cargos na gestão tucana entre 2003 e 2014 e formaram a base que sustentou a ascensão de Aécio Neves (PSDB) a governador, senador e candidato à Presidência da República, peça que une as famílias Andrada, Braz, Castro e Varella.

Nos seus respectivos redutos, era comum cada clã receber em campanhas a visita do líder tucano, que, em troca, contava com cabos eleitorais fiéis no interior e até mesmo suporte financeiro para o partido. Em 2018, por exemplo, a família Varella doou quase 1 milhão de reais para a campanha a governador de Antonio Anastasia (PSDB) —Lael Varella é seu segundo suplente no Senado. Chamuscado por escândalos de corrupção, Aécio se distanciou dos antigos apoiadores, mas, rebaixado a deputado federal, conseguiu se manter na política, onde alçou voos sob a grife de neto do ex-presidente Tancredo Neves e do ex-deputado Tristão da Cunha. Iniciou a carreira pública como assessor de gabinete do pai, Aécio Ferreira da Cunha, que foi deputado estadual e federal.

Aécio ao lado do avô Tancredo Neves.
Aécio ao lado do avô Tancredo Neves.Arquivo Pessoal

Pais, filhos, netos, primos e esposas

O apadrinhamento de parentes na política mineira independe de situação ou oposição, direita ou esquerda. Caciques do PT, rival do aecismo nas últimas décadas, também são adeptos da prática. Ex-ministro de Lula e Dilma e ex-prefeito de Belo Horizonte, o deputado federal Patrus Ananias, sobrinho do ex-deputado estadual por cinco mandatos, Agostinho Patrus, e primo do atual presidente da Assembleia Legislativa, Agostinho Patrus Filho (PV), era o maior avalista da candidatura a vereador de seu filho Pedro Patrus (PT). “As viagens que fazia em campanhas com meu pai foram grandes momentos de aprendizado e formação”, lembra Pedro, que filiou-se ao PT ainda na adolescência e não conseguiu se reeleger .

Nem sempre o sobrenome garante alinhamento ideológico dentro das tradicionais famílias políticas. O deputado estadual André Quintão (PT), correligionário de Pedro e Patrus Ananias, é sobrinho de Geraldo Quintão, patriarca de um poderoso clã fundado no Vale do Aço. Depois de três mandatos como deputado estadual pela Arena, partido aliado da ditadura militar, ele morreu aos 100 anos, deixando herdeiros na política.

Seu irmão mais novo, Sebastião Quintão (MDB), foi prefeito de Ipatinga, cassado em 2016 por abuso de poder econômico e captação ilícita de recursos na campanha. Agora, foi candidato a vice na chapa de Jadson Heleno (DEM), mas saiu derrotado. O filho Leonardo Quintão (MDB), pastor evangélico que chegou a integrar o Governo Bolsonaro, exerceu três mandatos consecutivos como deputado federal e, em 2008, perdeu a eleição para prefeito de BH no segundo turno. Já seu primo Gabriel Quintão, assim como André, milita na esquerda e foi candidato a deputado federal pelo PDT em 2018.

A bancada evangélica ganhou corpo pela expansão dos tentáculos da família Portela. Pastor da Igreja Batista Solidária, Lincoln Portela (PL) é deputado federal desde 1999. Há cinco anos, ajudou a eleger o filho Léo Portela (PL) como deputado estadual. No ano seguinte, coordenou a campanha a vereadora de BH da mulher Marilda Portela (Cidadania), que acabou reeleita. Por cinco meses, Léo foi superintendente de relações governamentais do Cruzeiro, clube que serviu como trampolim eleitoral para outra conhecida família da capital mineira. Foi lá que o ex-senador Zezé Perrella (MDB), suspeito de desviar 1,3 milhão de reais na época em que era deputado estadual e réu por improbidade administrativa, catapultou o primogênito Gustavo Perrella, empregando como diretor de futebol, a uma cadeira na Assembleia.

Também há casos em que o filho puxa votos para o genitor, como fez o deputado federal Marcelo Aro (PP) em 2018, ao bancar com doações entre partidos —consideradas irregulares pelo Ministério Público Eleitoral— a campanha do pai, José Guilherme Ferreira Filho, eleito deputado estadual. A dupla encabeçou a campanha para vereadora da Professora Marli (PP), mãe de Aro, a terceira mais votada de BH. Membro de uma casta que há mais de cinco décadas monopoliza o comando da Federação Mineira de Futebol (FMF), Zé Guilherme, como é conhecido, se define como “um ferrenho defensor da família”.

Da mesma maneira, pregando valores tradicionais e ultraconservadores, Lafayette Andrada tocou sua campanha a prefeito de BH inspirado nas bandeiras “em defesa da família” empunhadas nacionalmente pelos Bolsonaro e apreciadas pelo tutor Bonifácio. “Além de pai e filho, somos grandes parceiros. Sempre trabalhamos juntos para o bem dos mineiros”, afirmou o candidato, que se vangloria da larga trajetória familiar na política. “Desde a Independência do Brasil, tivemos pelo menos um Andrada no Parlamento. O caminho político virou algo natural, está em nosso sangue.” Mesmo derrotado nestas eleições, o herdeiro ainda tem, no mínimo, mais dois anos de mandato na Casa que há quase dois séculos abriga seus intermináveis laços sanguíneos.

Mais informações

Arquivado Em

Recomendaciones EL PAÍS
Logo elpais

Você não pode ler mais textos gratuitos este mês.

Assine para continuar lendo

Aproveite o acesso ilimitado com a sua assinatura

ASSINAR

Já sou assinante

Se quiser acompanhar todas as notícias sem limite, assine o EL PAÍS por 30 dias por 1 US$
Assine agora
Siga-nos em: