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O passado em aberto que assombra o futuro incerto de Aécio Neves

Embora tenha conseguido manter o foro privilegiado, político mineiro volta ao centro das atenções por mais uma suspeita de corrupção

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Aécio Neves foi alvo da Operação Ross nesta terça-feira. Reuters

No auge de sua carreira, ainda no último mandato como governador de Minas Gerais, o herdeiro do trono imaginário de estadista nacional deixado por Tancredo Neves era exaltado pela habilidade de ser notado sem ser mal falado. O jeito Aécio de fazer política se baseava na discrição tipicamente mineira e num estilo conciliador que o fez colecionar apoios até mesmo de prefeitos de oposição ao PSDB no Estado. Hoje, atordoado por mais uma denúncia de corrupção — dessa vez na esteira da Operação Ross, em que a Polícia Federal suspeita que ele tenha recebido quase 110 milhões de reais em propina do grupo J&F —, o cacique tucano contempla o fracasso de uma estratégia oposta à que marcou sua trajetória: não ser notado para não ser mal falado.

Até a eleição, 2018 conspirava a favor de Aécio Neves, que viveu 12 meses de alívio e euforia. Após ter sido arrastado para o olho do furacão nos escândalos da Odebrecht e JBS, flagrado pedindo 2 milhões de reais ao empresário Joesley Batista, no ano passado, ele superou obstáculos não só ao escapar da prisão, mas também ao se eleger deputado federal, mantendo, assim, o foro privilegiado. Sua primeira vitória veio em outubro de 2017, quando conseguiu reaver o mandato de senador que havia sido suspenso pela Primeira Turma do Supremo Tribunal Federal (STF).

Dois meses depois, o ministro Marco Aurélio Mello, que tinha votado para que Aécio permanecesse em liberdade e com mandato na Primeira Turma, livrou a irmã do tucano, Andrea Neves, de prisão domiciliar, além de permitir que ela voltasse a se comunicar com outros investigados no processo da JBS. Já este ano, o senador comemoraria novos êxitos no STF. Em junho, foi a vez do ministro Gilmar Mendes arquivar o inquérito que apurava o envolvimento do ex-governador no escândalo de lavagem de dinheiro em Furnas. Com a candidatura a deputado lançada, em setembro, obteve mais duas decisões favoráveis no tribunal.

Primeiro, o acolhimento do pedido da procuradora-geral da República, Raquel Dodge, para arquivar o inquérito que apurava a participação do senador no caso conhecido como “mensalão mineiro”. Depois, a ordem do novo presidente do Supremo, Antonio Dias Toffoli, de afastar novamente o promotor Eduardo Nepomuceno de investigações contra Aécio e aliados no Ministério Público de Minas Gerais (MPMG), menos de duas semanas depois de ele determinar a reabertura do inquérito sobre a construção do aeroporto de Cláudio, a 140 km de Belo Horizonte, em 2010, no terreno da família do então governador.

A sequência de boas notícias permitiu que Aécio ganhasse tempo e a tranquilidade necessária para tocar, de forma bastante discreta, a campanha eleitoral em Minas, juntando os cacos do pouco que havia sobrado de seu capital político pelo interior do Estado. Mas, logo depois de celebrar a vaga conquistada na Câmara dos Deputados, o que parecia se encaminhar para um ano de redenção se mostrou um choque de realidade diante das turbulências que o tucano deve ter de enfrentar em seu novo mandato em Brasília.

Passada a eleição, o depoimento de Waldir Rocha Pena, dono de uma rede de supermercados em BH, recolocou Aécio na rota dos escândalos do grupo J&S. O empresário afirmou à Receita Federal que ele recebia dinheiro de propina da JBS em caixas de sabão em pó. A defesa do senador alegou que “a total ausência de provas comprova o caráter mentiroso da afirmação” feita por Pena. Além dele, outros donos de supermercados foram ouvidos na última terça-feira, na sede da Polícia Federal em Belo Horizonte, sobre o esquema de emissão de notas frias supostamente capitaneado por Aécio Neves para financiamento da campanha eleitoral em 2014 e investigado pela Operação Ross.

Ainda em novembro, Dodge pediu ao STF a prorrogação do inquérito contra Aécio nas denúncias da Odebrecht. Na mesma semana, a PGR também conseguiu desarquivar a ação do caso Furnas e, três dias depois, o MP mineiro requisitou a devolução de 11 milhões de reais que teriam sido utilizados no período em que o tucano foi governador para custear mais de 1.000 voos pessoais, sendo 116 deles para o aeroporto de Cláudio. As batidas da PF em seu apartamento e no da irmã nesta terça foram autorizadas por Marco Aurélio Mello, que, em setembro de 2017, para justificar o voto a favor da liberdade de Aécio, exaltara a “carreira política elogiável” do senador. Dessa vez, o ministro voltou rechaçar o pedido de prisão domiciliar tanto para Aécio quanto para os demais investigados na Operação Ross, que tem seu primeiro grande desdobramento um ano depois de Mello solicitar a quebra de sigilo bancário dos irmãos Neves. Em pronunciamento no fim da tarde, Aécio disse que as delações de executivos da JBS “tentam transformar doações feitas a campanhas do PSDB, devidamente registradas na Justiça Eleitoral, em algo ilícito”.

Fora os oito inquéritos que responde no STF, Aécio ainda tem de lidar com os cabos soltos em seu circuito político. Ele é visto entre lideranças tucanas, sobretudo pelo colega de Senado, Tasso Jereissati, que o sucedeu interinamente na presidência do PSDB, como o principal responsável pela derrocada do partido nas eleições. Enquanto articula apoio para Renan Calheiros (MDB), em retaliação a Tasso, na disputa pela presidência do Senado, o mineiro de 58 anos experimenta o fogo amigo de cardeais como Fernando Henrique Cardoso, que dizem abertamente que Aécio “precisa acertar suas contas com a Justiça” para evitar que escândalos de corrupção sigam respingando no partido.

Os números dão a dimensão do rebaixamento de seu status. Em 2014, ele teve 51 milhões de votos no segundo turno da eleição presidencial. Este ano, foram pouco mais de 100.000 votos para deputado, cargo imposto como exigência de Antonio Anastasia para concorrer a governador. Apenas Aécio venceu o pleito, mas voltou a sofrer um duro revés em seu berço eleitoral. Anastasia foi atropelado nas urnas por Romeu Zema, do NOVO. O ex-governador também é um dos investigados na Operação Ross, suspeito de conceder benefícios fiscais à JBS a pedido do padrinho político. Outro ativo a que o aecismo se apegava acabou incorporado pela nova direita no Estado: o posto hegemônico do discurso anti-PT, agora exercido pela dobradinha “Bolsozema” após o futuro governador se atrelar à imagem de Bolsonaro para desbancar os favoritos na eleição. Isolado e investigado, Aécio amarga a ruína de só ser notado por ser mal falado.

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