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Turnê de embaixadores pela Amazônia termina sem visitar áreas afetadas por queimadas e desmatamento

Viagem organizada pelo vice-presidente Hamilton Mourão levou à região representantes de uma dezena de países, que não puderam se reunir com participantes de organizações da sociedade civil

Soldado participa da operação Verde Brasil, que tenta combater queimadas, desmatamento e delitos ambientais na região da Amazônia
Soldado participa da operação Verde Brasil, que tenta combater queimadas, desmatamento e delitos ambientais na região da Amazôniano

Dois meses após sete países europeus terem advertido publicamente o Governo do Brasil de que o desmatamento afugenta seus investidores – pressão somada à dos fundos de investimentos e ONGs –, o vice-presidente brasileiro, general Hamilton Mourão, levou embaixadores de uma dezena de países para uma viagem à Amazônia. O trajeto, que durou três dias e teve a participação dos ministros do Meio Ambiente e da Agricultura, deixou de fora as zonas afetadas pelo crescente corte de árvores e pelos incêndios.

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Farm employees stand in front of a burning fire at a ranch in the Pantanal, the world's largest wetland, in Pocone, Mato Grosso state, Brazil, August 26, 2020. REUTERS/Amanda Perobelli  TPX IMAGES OF THE DAY  SEARCH "PANTANAL PEROBELLI" FOR THIS STORY. SEARCH "WIDER IMAGE" FOR ALL STORIES
Governar é produzir incêndios
Penn Township, PA - October 9: Mark Weiss, the Game Lands Maintenance Supervisor watches as a male Ring-Necked Pheasant flies out of the crate it was in on the truck. The Pennsylvania Game Commission releases Ring-necked Pheasants in State Game Lands 280, north of route 183 in Penn Township Friday morning October 9, 2020. The birds, which are not native, are stocked in the game lands each season for hunters. (Photo by Ben Hasty/MediaNews Group/Reading Eagle via Getty Images)
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O Brasil é consciente do enorme peso que a questão ambiental tem em suas relações exteriores e comerciais, para desgosto de seu presidente, Jair Bolsonaro. O tour dos embaixadores terminou horas antes da vitória de Joe Biden nas eleições dos Estados Unidos, o que aumenta a pressão sobre o Brasil, porque o democrata já deixou claro que reserva um lugar importante em sua agenda de presidente para a luta contra a mudança climática e a preservação da Amazônia.

Para o embaixador da União Europeia (UE) no Brasil, o espanhol Ignacio Ybáñez, a viagem é uma boa iniciativa que contribui “para fortalecer o diálogo” num tema crucial para os europeus. Mas ele lembra que agora é necessário que a “vontade política se traduza em resultados, em fatos, para dar resposta à grande preocupação que existe na Europa”. Ybáñez considera que “o vice-presidente é consciente de que as cifras de desmatamento são elevadas e que é preciso tomar medidas”.

Além do representante dos 27 países do bloco, participaram diplomatas da Alemanha, França, Suécia, Reino Unido, Espanha, Portugal, Canadá, Peru, Colômbia e África do Sul.

Os embaixadores lamentam não ter visitado zonas desmatadas nem podido se reunir com representantes da sociedade civil – afastados pelo Governo dos órgãos de supervisão da política ambiental. Após a viagem, a encarregada de negócios britânica, Liz Davidson, escreveu no Twitter que espera que Mourão e os ministros envolvidos detalhem “um plano transparente com metas quantitativas” para enfrentar o problema, incluindo “reduzir a zero o desmatamento líquido até 2030”.

Os dados anuais oficiais da floresta tropical destruída devem ser publicados nas próximas semanas. Pela primeira vez, abrangerão um ano completo de gestão de Bolsonaro, e as cifras preliminares indicam que serão ainda piores que as do último balanço, quando o território desmatado aumentou em 30%, chegando a 9.700 quilômetros quadrados – a pior marca em uma década. Tudo isso agrega dificuldades evidentes ao processo de ratificação do acordo comercial entre a UE e o Mercosul assinado no ano passado.

A viagem dos embaixadores foi criticada por várias ONGs ambientais porque se concentrou ao redor de Manaus e São Gabriel da Cachoeira, sem penetrar nas regiões destruídas. O Greenpeace inclusive enviou às Embaixadas uma rota alternativa à projetada por Mourão, que, desde a crise diplomática causada pelos incêndios de 2019, lidera o Conselho da Amazônia – responsável por coordenar as ações dos diferentes Ministérios e organismos. A ONG, que teria levado os diplomatas aos Estados de Pará, Mato Grosso e sul do Amazonas, afirma que “uma rota que não inclui os desafios e os graves danos ambientais que a região enfrenta é uma viagem incompleta e uma oportunidade perdida”.

O tour por uma parte dessa região – maior que o território da UE – incluiu a visita a um zoológico, a um pelotão de fronteira, ao Centro de Monitoramento da Amazônia (organismo militar que observa a zona com radares) e a um laboratório policial que investiga crimes ambientais. O representante da UE no Brasil elogia o compromisso de promover o desenvolvimento sustentável nesta região tão empobrecida, mas lembra também que “é preciso impor multas, e é preciso cobrá-las”, em referência ao debilitamento dos organismos de inspeção governamental nesse vasto território onde a presença do Estado é escassa. Os diplomatas também estiveram na parada imprescindível para qualquer turista que visita Manaus: o ponto em que se encontram os rios Negro e Amazonas (ali chamado de Solimões). Suas águas de cores diferentes não se misturam devido à diferente temperatura e densidade.

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