Recorde, fúria dos incêndios na Amazônia se intensifica em setembro

O focos de fogo aumentaram 13% neste ano na maior selva tropical do mundo, segundo dados do Inpe. Números do mês passado deram salto de 9,2% em relação a agosto

Um incêndio ilegal em uma reserva ambiental da Amazônia, em agosto.
Um incêndio ilegal em uma reserva ambiental da Amazônia, em agosto.CARL DE SOUZA / AFP

Os ecossistemas mais valiosos do Brasil estão sofrendo uma devastadora onda de incêndios que devoram uma rica vegetação e fauna. A Amazônia vive a pior onda de incêndios da última década, segundo dados de um balanço oficial divulgado nesta quinta-feira pelo Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe). Os satélites detectaram mais de 32.000 focos de calor na maior floresta tropical do mundo. Ao sul, outro rico bioma brasileiro, menos conhecido mas com enorme biodiversidade, o Pantanal ―a maior área úmida do planeta―, sofre a pior temporada de incêndios da história. O meio ambiente é um calcanhar de Aquiles do Governo Bolsonaro. Também nesta quinta, o Supremo Tribunal Federal deu um prazo de 48 horas para que o ministro Ricardo Salles explique a retirada de proteção a manguezais e de restingas do litoral brasileiro para promover o turismo.

Esta é a época da seca e dos incêndios na Amazônia. Desde o começo do ano os incêndios aumentaram 13% na região em relação a 2019, de acordo com os dados mais recentes do Inpe. A situação também piorou em setembro na floresta: os focos de fogo foram 9,2% maiores do que em agosto. A conjuntura internacional, com a atenção da Europa e do resto do mundo voltada para a crise sanitária e econômica por conta da pandemia do coronavírus, contribuiu para que este ano os incêndios não tenham causado uma crise diplomática como a de agosto de 2019. Há um ano, um grande pico de incêndios em agosto, exatamente no momento em que o G7 se reunia na França, provocou fortes críticas de líderes mundiais contra o Brasil, cujo presidente, Jair Bolsonaro, discutiu com seu homólogo francês, Emmanuel Macron.

Agora o contexto internacional é outro, mas as florestas tropicais continuam queimando com fúria, apesar de que neste ano as autoridades restringiram os incêndios desde o início da temporada com uma grande mobilização militar na região. “Estamos há dois meses com muitos incêndios. Já estamos pior do que no ano passado”, explicou à Reuters Ane Alencar, diretora científica do Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia (IPAM). “Se a seca persistir, pode ser pior. Estamos à mercê das chuvas”, acrescentou a especialista. São mais de 30.000 focos se somarmos os do resto dos países amazônicos.

Sem a aura da Amazônia, os incêndios no Pantanal têm menos repercussão fora do Brasil, mas aqui têm sido o grande assunto ambiental dos últimos meses. O fogo destruiu um quarto do território desta zona úmida localizada no Mato Grosso, um dos ecossistemas com maior biodiversidade do mundo e que abriga uma notável população de onças-pintadas.

O Governo tem plena consciência de que o meio ambiente é um de seus grandes calcanhares de Aquiles na sua relação com o resto do mundo, como ficou claro quando Bolsonaro dedicou ao assunto metade de seu discurso por videoconferência perante a Assembleia Geral das Nações Unidas no mês passado. É um tema capital nas negociações para o processo de ratificação do acordo de livre comércio entre a União Europeia e o Mercosul, que já começou.

Os incêndios na Amazônia também estão no radar do candidato a substituir Donald Trump como presidente dos Estados Unidos. A única menção ao Brasil no caótico primeiro debate eleitoral veio da boca do democrata Joe Biden, que prometeu que, se vencer, buscará 20 bilhões de dólares (cerca de 113 bilhões de reais) em seu país e no mundo para combater os incêndios na Amazônia. Biden alertou que se o Brasil não mudar o rumo de sua política ambiental terá prejuízos econômicos. Fundos de investimento e empresas europeias estão levantando cada vez mais suas vozes, pressionados por sua clientela, para que as autoridades brasileiras levem a sério a necessidade de preservar a frágil Amazônia para tentar mitigar os impactos da mudança climática.

A referência de Biden aos incêndios indignou Bolsonaro, sempre temeroso, como boa parte de seus compatriotas, de que a descomunal floresta tropical lhe seja arrebatada por estrangeiros. O brasileiro respondeu ao candidato norte-americano em uma série de tuítes contundentes, incluindo um que dizia: “O Brasil mudou. Hoje, seu presidente, diferentemente da esquerda, não mais aceita subornos, criminosas demarcações ou infundadas ameaças”. E terminou em maiúsculas: “Nossa soberania é inegociável”.

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