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Jorge Jesus, a revolução barulhenta que levou o Flamengo “a outro patamar”

Com filosofia de jogo envolvente, treinador português conduziu o time da Gávea à melhor temporada de sua história

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Adepto de um estilo de jogo intenso, que privilegia a troca de passes em velocidade, Jorge Jesus precisou de pouco tempo para mudar a cara do Flamengo. Teve um mês para conhecer o elenco e ajustar a equipe durante a parada da Copa América. Apesar da eliminação para o Athletico na Copa do Brasil, a produtividade ofensiva aumentou em comparação ao período sob o comando de Abel Braga. O uruguaio De Arrascaeta, por quem o clube desembolsou quase 80 milhões de reais, pouco prestigiado pelo antigo treinador, se tornou titular e ajudou a municiar a linha de frente encabeçada pelos artilheiros Bruno Henrique e Gabigol. Em seu primeiro jogo no Maracanã, Jesus viu o time aplicar 6 a 1 no Goiás, indício do que viria a se consagrar como o melhor ataque dos pontos corridos no Campeonato Brasileiro.

Sua revolução rapidamente fez barulho além dos muros da Gávea. Enquanto o Flamengo tomava a liderança do Palmeiras e emplacava longa sequência de invencibilidade na competição nacional, o treinador passou a receber alfinetadas de alguns colegas brasileiros, como Tiago Nunes, Alberto Valentim e Vanderlei Luxemburgo, que, embora pregue respeito ao português, afirmou que ele “não trouxe nada de novo” ao Brasil. Adversário na semifinal da Libertadores, Renato Gaúcho, técnico do Grêmio, chegou a dizer que o clube carioca tinha obrigação de ganhar por ter investido 200 milhões de reais em contratações, mas sustentando a tese de que o time gaúcho praticava o melhor futebol do país. O Flamengo eliminou o Grêmio do torneio continental com uma goleada de 5 a 0, no Maracanã.

“Em um de seus livros, [Luís de] Camões escreveu a palavra ‘inveja”, comentou o técnico ao citar outro poeta português para rebater os críticos. “É um problema que muitas vezes acontece, como está a acontecer comigo agora. Não vim tirar o lugar de ninguém. Quando técnicos brasileiros estiveram lá [em Portugal], tentamos aprender. Não havia essa agressividade verbal que há comigo. Quero que meus colegas cresçam. Não sabem o que é globalização.” Por onde passa, Jesus se acostumou a liderar revoluções barulhentas, indiferente ao incômodo dos companheiros de profissão. Depois de sair do Benfica, sentenciou que não considerava seu sucessor, Rui Vitória, um técnico de futebol, exaltando que deixara “uma Ferrari em suas mãos” como legado no clube.

No Brasil, a Ferrari do Flamengo, turbinada por reforços com rodagem internacional do calibre de Filipe Luís, Gerson e Rafinha, encontrou um piloto sedento por vitórias, que não hesitou em rodar seu motor sempre em alta potência. “Gosto de colocar toda carne no assador”, afirmou o técnico para justificar a escolha de só poupar titulares em ocasiões de extrema necessidade. A metáfora que remete a um farto churrasco contrasta com a personalidade de Jorge Jesus, que há mais de 30 anos não come carne vermelha —“apenas peixe”—. Baseia o ofício de treinar na tarefa diária de convencer atletas a comprar suas ideias, mas há casos em que as sacadas não funcionaram, como a tentativa de transformar Bernardo Silva em lateral-esquerdo no Benfica. Insatisfeito, o meia decidiu deixar o time português para brilhar no Monaco, antes de se converter em um dos principais jogadores do Manchester City, de Pep Guardiola.

Porém, no Flamengo, a adesão incondicional à sua proposta de jogo é praticamente uma unanimidade no elenco. “Ele se preocupa com o posicionamento de todos os jogadores, não apenas com o meu. É um detalhe fundamental da nossa equipe”, diz o Willian Arão, um dos jogadores mais cobrados por Jorge Jesus, que subiu de produção após ser deslocado para a função de primeiro volante pelo treinador. Para o atacante Bruno Henrique, o Flamengo está “em outro patamar” no futebol brasileiro, sobretudo pelo trabalho de Jesus. “É um cara que entendeu o que é ser Flamengo”, conta. “Mesmo ganhando de 5 a 0, ele pede pra gente desfrutar, ter alegria e prazer de jogar futebol.”

Uma característica que levou Jesus a cunhar a expressão “jogar a Flamengo”, sem jamais se intimidar diante de qualquer adversário. Seu time bateu os recordes de gols na temporada e de invencibilidade (24 partidas) no Campeonato Brasileiro. Gabigol, seu maior goleador, marcou 43 vezes. Apesar do comportamento instável e os cartões evitáveis, o centroavante contou com o apoio do treinador a todo momento. “Se fosse muito responsável, não seria o jogador que é”, defende o Mister, como é carinhosamente chamado pelos jogadores. “Nunca tive uma relação tão forte como tenho com essa equipe do Flamengo. Encontrei um grupo que me ama.”

A devoção a Jesus é algo comum pelos lugares onde treinou. Como técnico do Al Hilal, rival do Flamengo em uma das semis do Mundial, escutou pela primeira vez, em inglês, “eu te amo” de seus comandados. “Eu nunca tinha ouvido um homem dizer I love you para outro homem”, contou o treinador sobre sua passagem pelo clube da Arábia Saudita. Ao garantir a vitória dos sauditas nas quartas de final, o francês Gomis se dirigiu ao ex-treinador, que assistia à partida no estádio Jassim Bin Hamad, para comemorar o gol. “Jesus é um pai para mim”, afirmou o atacante no fim do jogo.

Com a permanência ainda em xeque para a próxima temporada, o treinador que construiu sua carreira sob a inspiração no modelo de jogo de Johan Cruyff confiou desde o princípio que poderia alçar voos altos com o Flamengo. Ao negociar contrato, deixou claro à diretoria que não abria mão de estipular por antecipação o prêmio em caso de conquista do Mundial. “Ficaremos marcados na história. Quando eu estiver lá no céu, tenho certeza que ainda vão falar de Jesus”, profetiza o técnico. Com ele, o Flamengo descobriu que, assim como São Judas Tadeu, padroeiro do clube, São Jorge também faz milagres. E que o “ai-jesus” presente no hino rubro-negro, em algum momento da história, faria todo o sentido.