Flamengo x River, o pecado do jogo único entre dois times fabulosos

Com decisão em Santiago, as melhores equipes da América do Sul medirão forças longe de seus verdadeiros estádios e torcedores

No Maracanã, torcedores do Flamengo comemoram classificação à final.
No Maracanã, torcedores do Flamengo comemoram classificação à final.Pilar Olivares (Reuters)

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A maior final de todos os tempos da Libertadores não aconteceu na América. Da mesma forma, a final com os melhores times de Brasil e Argentina não acontecerá nos países mais vitoriosos do continente. Assim como o clássico argentino disputado em Madri, no ano passado, o duelo entre Flamengo e River Plate terá como palco, até segunda ordem, a capital chilena, escolhida pela Conmebol para sediar a primeira decisão do torneio em jogo único e campo neutro. Uma vitória para o negócio do futebol – e um revés derradeiro para os combalidos torcedores de arquibancada.

Sob a justificativa de atrair mais receitas e patrocinadores para as competições continentais, cartolas da Conmebol anunciaram com pompas a resolução de eliminar os jogos de ida e volta na final. O presidente Alejandro Domínguez discursou sobre estudos financeiros e análises “sociopolíticas” que teriam embasado a escolha. “As finais únicas são eventos que inspirarão todos os sul-americanos a pensar grande”, disse o dirigente da confederação que foi incapaz de organizar uma final com Boca Juniors e River Plate na América do Sul depois dos incidentes violentos na segunda partida.

Ao reproduzir padrões europeus em solo sul-americano, as instituições que regem o futebol local, incluindo AFA e CBF, sempre alinhadas aos discursos mercadológicos da Conmebol, resumem o jogo apenas a sua dimensão como produto e pensam pequeno. Desprezam a cultura singular que representa a verdadeira marca da Copa Libertadores, a atmosfera dos estádios, as peculiaridades de um continente mergulhado em profundas desigualdades sociais, extensões territoriais que inviabilizam deslocamentos de curto prazo e gargalos na logística de transportes. Mas o maior desprezo, consequentemente, é pela paixão do torcedor.

Na final de Santiago, cada time tem direito a 12.500 ingressos para vender a suas torcidas. Na noite desta quarta-feira, contra o Grêmio, mais de 60.000 rubro-negros estiveram no Maracanã, onde o Flamengo ostenta média de público superior a 50.000 torcedores nesta temporada. Quando venceu o Boca no primeiro jogo da semifinal, o River contou com apoio de quase 70.000 aficionados. Para dois clubes populares, que possuem torcidas com tamanho equivalente a populações de muitos países, é um insulto receber carga de ingressos inferior a 1/4 da capacidade de seus estádios no jogo mais importante do ano.

Com a badalada “Final Única”, termo incorporado ao nome do torneio, os protagonistas deixam de ser os donos do espetáculo e, a troco de alguns milhões de dólares convenientemente garantidos na conta, transferem seu grande ativo a burocratas que impõem ao evento uma estética asséptica e insossa. Além dos sócios que não podem arcar com os custos de uma viagem ao Chile e entradas a partir de 320 reais, some-se à exclusão numérica pela diminuição de uma partida na final a parcela majoritária dos torcedores de Flamengo e River já violentada e excluída pelo processo de elitização dos estádios, que, aos mais pobres, tornou proibitivo o ato de frequentar jogos tanto no Brasil quanto na Argentina. É nesse cenário de apaixonados marginalizados que a Conmebol transforma um acontecimento que deveria mobilizar massas nos dois maiores países da América em solenidade exclusiva para poucos e privilegiados, reduzindo a festa do futebol a estandarte do turismo de negócios.

Jogo único em campo neutro se encaixa em um movimento calculado da cartolagem sul-americana para higienizar o ambiente dos estádios e, por tabela, inflacionar seus lugares, como já havia ficado evidente na política de preços praticada durante a Copa América no Brasil e a transferência da última final, de Buenos Aires para Madri. A exclusão simboliza uma política lucrativa que cega clubes e federações, indiferentes ao sentimento dos torcedores cada vez mais resignados a acompanhar seus ídolos à distância, pela televisão.

Para o verdadeiro amante do futebol, é um pecado que times tão encantadores como o Flamengo de Jorge Jesus e o River de Marcelo Gallardo não decidam o principal título do continente nos gramados míticos do Maracanã e do Monumental de Núñez. Divisor de águas na história da Libertadores, o Chile vive uma convulsão social que nasce da incapacidade política de ouvir a voz das ruas. Caso os protestos tornem inviável a realização da final única em Santiago no próximo mês, a Conmebol certamente encontrará outra sede em tempo hábil, na América ou na Europa, para garantir a rentabilidade de seu produto VIP. A única voz das arquibancadas que ecoa no ouvido dos cartolas é a das cifras que se multiplicam na bilheteria.