CASO ROBINHOOpinião
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O constrangedor silêncio do Atlético sobre Robinho

Não bastasse se omitir diante de uma condenação por estupro, clube mineiro insiste em renovar contrato com atacante, que também é desejado pelo Santos

Robinho, disputado por Atlético e Santos, apesar de condenação por estupro.
Robinho, disputado por Atlético e Santos, apesar de condenação por estupro.Divulgação

Já se passaram mais de duas semanas desde que a Justiça italiana condenou Robinho a nove anos de prisão por participação em um estupro coletivo, e seu clube, o Atlético-MG, ainda não se manifestou sobre a sentença. Nem mesmo após o protesto de um grupo de torcedoras feministas, que cobraram um posicionamento oficial com faixas de protesto em frente à sede, os dirigentes atleticanos atentaram-se para o fato de que o silêncio expõe ao constrangimento uma instituição centenária que parece desconectada das transformações vividas pela sociedade.

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Não que o protesto pregasse a execração pública ou rompimento com o princípio da presunção de inocência. Robinho, assim como qualquer acusado de cometer um crime, tem direito a julgamento justo e aos recursos previstos por lei. No entanto, ao evitar comentar o caso, alegando se tratar de “um assunto pessoal do atleta”, o Atlético simplesmente despreza a gravidade da acusação contra um de seus principais jogadores e, como não raro no meio do futebol, relativiza a violência contra a mulher. Na pior das hipóteses, sob a desculpa de respeitar o direito a ampla defesa do jogador, o mínimo que se espera de um clube como o Atlético é o compromisso de romper ou suspender o vínculo de trabalho de Robinho se a Justiça italiana mantiver sua condenação em segunda instância. Porém, a única resposta até agora é uma profunda indiferença.

Nenhuma nota oficial, nenhuma palavra do presidente Daniel Nepomuceno, nenhum pronunciamento público de Robinho, que se restringiu a declarar inocência em um breve comunicado elaborado por sua defesa. Ao contrário de ocasiões em que o clube se vê prejudicado pela arbitragem ou por arbitrariedades da CBF, quando discursos verborrágicos inundam câmeras e microfones, o Atlético adere ao silêncio de forma covarde e conveniente, já que negocia a renovação de contrato com o jogador. Tão vergonhosa quanto a omissão dos cartolas atleticanos é a conduta do Santos, ex-clube de Robinho, que não expressou nenhum desconforto em oferecer contrato de quatro anos para promover o retorno de um jogador que, dependendo do desfecho do processo na Itália, pode se ver impedido de viajar ao exterior para jogos de competições internacionais. Inclusive, o novo presidente santista, José Carlos Peres, eleito neste sábado, reafirmou o “interesse em contar com grandes ídolos”.

Mesmo se condenado em última instância, Robinho dificilmente cumprirá pena na cadeia. Por se tratar de um crime cometido fora do país, a Constituição brasileira não prevê a extradição de cidadãos nascidos em território nacional. Seria necessária a abertura de um novo processo no Brasil, algo que poderia se arrastar eternamente entre recursos e mais recursos. Pela atitude complacente de dirigentes e torcedores que chegaram ao ponto de ameaçar as mentoras do protesto contra o Atlético, não é difícil imaginar que, num hipotético cenário de condenação definitiva e esgotamento de recursos, o atleta seguirá jogando normalmente, como se nada tivesse acontecido.

Improvável é que por trás da passividade do Atlético resida a preocupação com o ser humano, a suposta obrigação de amparar um trabalhador encrencado nos tribunais. Clubes e dirigentes, espelhando a irracionalidade de parte expressiva de seus torcedores, salvo exceções, se preocupam basicamente com resultado no campo. Vide o exemplo do Boa Esporte, que anunciou a contratação de Bruno, condenado a mais de 22 anos de prisão pelo assassinato de Eliza Samudio, como uma ação beneficente em favor da ressocialização do ex-goleiro. O clube de Varginha, mesmo ciente de que a liberdade do atleta era provisória e de que uma volta aos gramados em momento inoportuno poderia contribuir apenas para demonizá-lo, decidiu correr o risco para reforçar seu time e, ao mesmo tempo, fazer marketing em cima da contratação. Uma jogada de puro oportunismo.

É sintomático que, há pouco tempo, o gol de Jô com o braço tenha gerado mais repercussão que o fato de um jogador condenado em primeira instância por estupro seguir treinando e jogando sem dar maiores explicações. Novamente, Robinho deve ser julgado de acordo com o processo legal, como qualquer outro réu. Mas chama a atenção tamanha preocupação de alguns torcedores com o que entendem se tratar de um julgamento antecipado do craque. Uma suposta injustiça com Robinho desperta mais indignação que a realidade de insegurança vivida por mulheres no Brasil, que registra um estupro coletivo (praticado por dois ou mais agressores) a cada duas horas e meia. Em momento algum, o Atlético cogitou não renovar o contrato, que vence em dezembro, de um jogador acusado por estupro pela segunda vez. Em 2009, quando jogava pelo Manchester City, ele já havia sido apontado como agressor sexual por uma mulher que conhecera em uma casa noturna de Leeds. Robinho chegou a se apresentar à delegacia na Inglaterra, mas o processo acabou arquivado.

Recentemente, ao comentarem uma matéria sobre a cultura do estupro no futebol, várias leitoras do EL PAÍS afirmaram não gostar do esporte justamente pela estrutura machista que ainda o permeia. O machismo é um problema social de largas proporções, mas a comunidade da bola permanece alheia aos limites impostos pela efervescência de movimentos liderados por mulheres que já não silenciam diante de abusos. Em 2016, por exemplo, dirigentes do Atlético entenderam como “mimimi” a insatisfação de torcedoras que reclamaram do desfile de lançamento do uniforme alvinegro, que usou modelos de biquíni para apresentar a nova camisa. Neste mesmo ano, o Sunderland rescindiu o contrato de Adam Johnson assim que ele admitiu ter aliciado uma garota de 15 anos. O clube reconheceu que errou ao permitir que o jogador continuasse no time por quase um ano após seu indiciamento pelo crime. Ele foi condenado a seis anos de prisão.

Sem nenhum pudor, os homens que comandam o futebol não demonstram tanta solidariedade com as justas reivindicações femininas como a lealdade dedicada a jogadores intocáveis. Independentemente do caso Robinho, ainda em curso na Justiça, é no mínimo intrigante constatar que o meio intolerante à figura de Richarlyson, que jamais revelou sua orientação sexual, segue endeusando, protegendo e valorizando boleiros acusados de praticar violência contra mulheres. Muito além de títulos e vitórias, a grandeza de um clube é medida por atitudes que transcendem o campo e a bola. Ao blindar o astro da companhia e ignorar as vozes de torcedoras que também ajudaram a moldar sua fama como o time da massa, o Atlético se apequena.

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