Argentina é o primeiro país a declarar que “respeita” a mudança no Brasil

Governo Macri dá um primeiro passo de aproximação com Temer

O Governo argentino foi o primeiro a demonstrar publicamente seu respeito pela nova situação brasileira, em que o vice-presidente Michel Temer assumirá interinamente a presidência. “Diante dos fatos registrados no Brasil, o Governo da Argentina manifesta que respeita o processo institucional em curso e confia em que o desenlace da situação consolide a solidez da democracia brasileira”, diz nota oficial da chancelaria emitida no começo da manhã desta quinta-feira, pouco depois de o Senado aprovar a tramitação do processo de impeachment da presidenta Dilma Rousseff. O gesto foi muito medido em sua forma e momento, e aparentemente combinado com Temer. Se Macri contatar o presidente interino nas próximas horas, algo que teria lógica depois desse comunicado tão rápido, seria um gesto definitivo de respaldo.

Maurício Macri impeachment
Argentina  Mauricio Macri.

“O Governo Argentino continuará dialogando com as autoridades constituídas a fim de seguir avançando com o processo de integração bilateral e regional” conclui o texto, rapidamente publicado pela chanceler Susana Malcorra na sua conta no Twitter.

A Argentina vem se empenhando em barrar nos organismos regionais a tentativa de alguns países, como Bolívia e Venezuela, de aplicar a cláusula democrática contra Brasil. Macri a todo momento se negou a falar em “golpe” no gigante sul-americano, ao contrário do que fizeram Evo Morales e outros mandatários esquerdistas. Agora, dá um passo a mais no seu apoio implícito a Temer, uma pessoa com quem tem uma proximidade ideológica muito maior do que com Rousseff. Apesar disso, o Governo argentino está inquieto, porque teme que o Executivo de Temer seja frágil e instável.

Macri chegou ao cargo há poucos meses, convivendo com uma crise inédita em seu principal sócio comercial e político. O presidente argentino havia desenhado uma estratégia de política externa que ficou muito prejudicada. Apesar das diferenças ideológicas, e de Rousseff e principalmente Lula terem apoiado enfaticamente a candidatura do peronista Daniel Scioli na última disputa presidencial, Macri apostou desde o primeiro momento por um pacto com o Governo brasileiro. Foi o primeiro país a visitar, e estreitou laços com Brasília desde o primeiro dia de mandato. Tentou acelerar com Rousseff o pacto UE-Mercosul e buscou inclusive convencê-la a aplicar a cláusula democrática contra a Venezuela.

As relações pareciam muito sólidas. Mas veio o processo de impeachment, e Macri num primeiro momento prestou apoio a Rousseff, embora sempre de forma muito mais precavida do que Morales. Apesar dos apelos da oposição brasileira, Macri em momento algum respaldou o processo contra Rousseff, sempre defendendo que a crise se resolvesse por vias constitucionais. Mas, pouco a pouco, o Governo argentino começou a assumir que Rousseff ia cair. Assim, manteve a cautela, mas impediu que fossem aprovadas declarações conjuntas na Unasur e Mercosul de rechaço ao impeachment, descartou a palavra golpe e esperou a votação desta madrugada. Agora, com um novo presidente como interlocutor, Macri quis ser o primeiro a deixar claro que Temer pode contar com o apoio argentino enquanto for o presidente constitucional do Brasil.

MAIS INFORMAÇÕES