Pandemia de coronavírus | O Brasil em luto
Tribuna
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“O amor semeia o amor e foi isso o que meu pai me deixou”

A advogada Luciana Atheniense relata o que a morte por covid-19 de seu pai Aristoteles representou para ela e sua família: "Luto é não querer produzir, é não querer raciocinar"

A advogada Luciana Atheniense, que perdeu o pai, o advogado Aristoteles Atheniense, de 84 anos, vítima Covid-19, no início de julho.Vídeo: Foto: Flavio Tavares/El País| Luciana Atheniense

“Aos oitenta e quatro anos, sou levado a admitir que a saudade a gente mata; a lembrança a gente guarda; a tristeza a gente supera. Mesmo quando a saudade é sofrida, esta é a melhor prova de que o passado valeu a pena”. Com essas palavras o advogado Aristoteles Atheniense iniciava um texto que ninguém suspeitava que fosse o seu último. Foi publicado no dia 19 de junho no Diário do Comércio de Minas Gerais. Pouco tempo depois, em 3 de julho, o reconhecido jurista mineiro —foram 60 anos exercendo a advocacia em Belo Horizonte— se tornou mais uma vítima fatal da covid-19. “Meu pai sempre lutou muito pela questão social. Foi presidente da OAB de Minas Gerais no final da ditadura militar e teve voz muito importante como entidade civil. Ele trabalhou até o fim”, conta sua filha, a também advogada Luciana Atheniense. A perda repentina de seu pai para o coronavírus fez com que ela se juntasse a um grupo voluntários que distribui lanches para os profissionais de saúde que estão na linha de frente da Covid. Em depoimento ao repórter Felipe Betim, ela fala sobre o luto vivido por ela, seus irmãos e sua mãe após a morte de Aristoteles.

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AME6200. RÍO DE JANEIRO (BRASIL), 04/08/2020.- Alumnos de una escuela particular participan de una clase durante el regreso de algunas escuelas, este martes, en la ciudad de Río de Janeiro. Brasil se enfrenta en estos días al dilema de que sus estudiantes regresen a clases o permanezcan con aulas virtuales, en medio del recelo de padres y profesores ante una pandemia que no cesa y que está próxima a dejar 100.000 víctimas. EFE/ Antonio Lacerda
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“O que era a covid-19 para mim? Algo estranho, de longe. Mais um vírus vindo da China. Confesso que desde meados de março comecei a ter preguiça de ouvir, de ver, os noticiários. Achava até um pouco de sensacionalismo, principalmente aquelas notícias vindas de São Paulo. Mas percebi que meu teto era de vidro e que aquela a tristeza daqueles familiares estava, três meses depois, amargurando meu coração. E foi isso o que aconteceu.

Meu pai, de 84 anos, foi vítima da covid-19. Quando ele começou a não querer se alimentar, começou a ficar um pouco prostrado, com um comecinho de febre, liguei pro médico, que falou:

— Luciana, interna. Suspeita de covid-19.

— Como, se ele não está tossindo?

E ele foi para o hospital. Era um domingo e, naquele momento, fez um raio-x que viu que o pulmão estava danificado. Outro exame detectou que o sangue dele estava numa instabilidade. Tivemos que internar meu pai. A única coisa que eu podia fazer era arrumar os documentos, porque eu não poderia ficar com ele.

Naquele momento eu também fiz o exame de covid, que ficaria pronto três dias depois. Minha mãe também fez e deu positivo, com 78 anos. E o meu deu negativo.

A familia do advogado Aristóteles Atheniense, de 84 anos, vítima Covid-19, no início de julho. Elizabeth Atheniense (esposa), Denise, Alexandre e Luciana (filhos) olham as medalhas que Aristóteles recebeu em sua carreira jurídica.
A familia do advogado Aristóteles Atheniense, de 84 anos, vítima Covid-19, no início de julho. Elizabeth Atheniense (esposa), Denise, Alexandre e Luciana (filhos) olham as medalhas que Aristóteles recebeu em sua carreira jurídica.Foto: Flavio Tavares/El País (Foto: Flavio Tavares/El País)

Meu pai ficou cinco dias no quarto e, no dia que ele foi encaminhada para o CTI, minha mãe foi internada. Loucura. Aconteceu comigo o que tinha acontecido, estava acontecendo e irá acontecer com milhares de brasileiros. Aí eu deparei que meu teto era de vidro. Que susto. Que medo. E por que não? Nós não somos diferentes. Independentemente da classe social, todos os brasileiros estão começando a ter noção que amigos e familiares estão sendo vítimas da covid-19. Até quando?

E não podemos nos calar. Isso não é um problema familiar em que nós não vamos falar. Optamos por falar, sim: meu pai foi vítima da covid-19, como milhares de pessoas estão sendo.

Uma tristeza. Uma amargura. Um susto. Até quando? É como se não fosse nada acontecendo? Está acontecendo.

Eu não sabia o que era luto. O luto é não querer produzir. Não porque nós estamos na quarentena.

O luto é não querer raciocinar. O luto é chorar. É perder um ente querido.

Ontem [3 de agosto] fez um mês da morte de meu pai. E o que me confortou foi ter lido de uma pessoa que eu prezo muito que o amor semeia o amor, e foi o isso o que o meu pai me deixou.

E agora pergunto, indago: a covid vai semear até quando essa tristeza no coração dos brasileiros? Não estamos aguentando. Está aqui no meu coração, do meu lado.

É muito triste. Muito muito triste”.

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