Pandemia de coronavírus

Jovem e na UTI: “Fui irresponsável. Andava sem máscara por aí”

A espanhola Vanessa Martínez tem 28 anos e passou 69 dias internada por complicações da covid-19

Vanessa Martínez, de 28 anos, no hospital Gregorio Marañón, de Madri.
Vanessa Martínez, de 28 anos, no hospital Gregorio Marañón, de Madri.Olmo Calvo

Em 26 de agosto, Vanessa Martínez fará 29 anos num leito do Hospital Gregorio Marañón de Madri (Espanha). Suas mãos estão rígidas, e as cicatrizes da traqueostomia ainda são recentes. Vanessa já não enxerga bem, precisa aprender a caminhar de novo, e há uma semana retiraram a sonda que colocaram em sua bexiga no dia 21 de abril, quando deu entrada na UTI com covid-19. Passou 69 dias lá. Está no quarto desde 29 de junho e sabe que ainda faltam meses para poder deixar de ver essas quatro paredes. “Elas me salvaram, e agora me asfixiam. É um dia após outro, e outro, e outro...”, diz. “Fui uma irresponsável”, afirma também.

Vanessa Martínez nunca pensou que seria infectada pelo novo coronavírus. Nem sequer quando ligaram para ela do lar de idosos Orpea de Algete, um município ao noroeste de Madri, onde começou a trabalhar como funcionária da limpeza e se tornou auxiliar de enfermagem. “Me disseram que precisavam [de alguém para a função], que era fácil mesmo sem ter experiência. Aceitei apesar do risco, porque precisava trabalhar, por minha filha”, afirma. Allison, com síndrome de Down, tem oito anos e mora com sua família em Honduras, de onde Venessa saiu em 2015 para trabalhar na Espanha. “O tratamento pelas complicações médicas que ela tem é muito caro, e eu não tinha outra saída”, explica.

A necessidade e a descrença em relação ao vírus foram dois fatores-chave. “Eu não tomava cuidado. Andava sem máscara. Era jovem. Por que ia me contagiar? E aqui estou.” Ali está ela depois de um périplo que começou em 5 de abril, do qual se lembra sem muita clareza. “Naquele dia cheguei de táxi ao [hospital] Gómez Ulla. Tinha febre e um cansaço infinito. Me levaram de ambulância para o hospital de campanha de Ifema. E não lembro de mais nada.” Leyre Pérez, a médica de doenças infecciosas que a acompanha, ajuda a recordar as datas. “Ela deu entrada no Marañón em 17 de abril, foi trazida do Ifema porque apresentava complicações. Entrou na UTI quatro dias depois, e a transferirmos para quarto em 29 de junho”.

É uma das internações mais longas e mais graves já registradas no hospital, por onde passaram 6.511 casos de covid-19, dos quais 2.861 em estado grave e 248 críticos. Todos esses doentes precisam de uma longa reabilitação. Pérez explica que manter um paciente nessas condições durante tanto tempo “exige uma forte sedação para relaxar toda a musculatura, com a consequente perda de massa muscular e muitas sequelas residuais”. Sobretudo dos pulmões, mas também dos sistemas digestivo e cardiovascular, além dos déficits nutricionais (que podem afetar o olho e outros órgãos) e da redução da mobilidade. Quando Vanessa passou para o quarto, não era capaz nem de sustentar a própria cabeça, que agora mantém apoiada sobre algumas almofadas. Diz sentir “muita saudade” de um banho. “Faz três meses que me lavam com esponjas. Até há pouco tempo eu nem podia ir ao banheiro sozinha. Tenho usado fraldas... Fraldas.” Apesar disso, a jovem sorri: acaba de aparecer na porta do quarto Anabel García, uma das enfermeiras que a assistem todos os dias. “Meu trabalho é cuidar dela, seja como for.” A especialista diz que “não é fácil”. “Os pacientes passam por etapas muito complicadas, de angústia, porque é um processo muito lento, mas também gratificante quando você vê que avançam. E ela está avançando.”

Seu progresso agora depende, em grande medida, de um quarto no primeiro andar do hospital, o da reabilitação, para onde vai em cadeira de rodas empurrada por um funcionário. Essa é outra das etapas do programa de recuperação após a UTI para pacientes com covid, implementado pelo centro com profissionais de oito especialidades, entre elas psiquiatria, medicina interna e pneumologia. Além de Vanessa, outros 30 pacientes são monitorados.

Olga Arroyo, chefa do serviço de Reabilitação, que engloba fisioterapia, terapia ocupacional e fonoaudiologia, explica: “Vanessa tem complicações neurológicas e neuropáticas, além de alterações no sistema nervoso central, falta de equilíbrio, de reflexos... É preciso reeducar tudo isso, levando em conta o problema respiratório. “Os tempos da recuperação para esses doentes se prolongam. A reabilitação durará pelo menos oito meses, e alguns pacientes ficam com sequelas e não se recuperam totalmente”, esclarece Arroyo.

O médico da Reabilitação, Rubén Juárez, afirma que o importante são as ações “mais vitais”. Sentar, levantar, escovar os dentes, tomar banho, comer... “Eles têm que aprender a fazer tudo isso de novo”, diz o Juárez, enquanto olha para Vanessa, que tenta mexer os pés, rígidos, apoiando as axilas num andador. Uma auxiliar e a fisioterapeuta, Cristina Muñoz, seguram a jovem. A especialista explica que os avanços são lentos, mas existem. “Se ela tivesse força nos dois braços, já poderia se pentear sozinha, mas por enquanto o braço só chega até a nuca. Ela fortaleceu os glúteos e pode ficar em pé, embora não tenha força na pelve e nas pernas”.

O tempo máximo que Vanessa aguenta nesse esforço são 30 segundos. “Vou pouco a pouco, embora já tenha vontade de sair correndo. Mas não, terei de voltar ao quarto”, diz ela, enquanto a sentam novamente na cadeira de rodas. Colocam seus pés e suas mãos —e sobre seu antebraço esquerdo aparece então uma tatuagem: “A vida segue”. Vanessa concorda: “E agradeço por isso.”

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