Pandemia de coronavírus

Lotado, hospital da periferia de São Paulo retrata o improviso na luta contra a covid-19: “Ore pelo meu pai”

No Tide Setúbal, um dos quatro da zona leste da capital paulista com alta taxa de ocupação de leitos, profissionais cobram material de proteção. Estado contabiliza 211 mortes na quinta, metade das 407 registradas no país

Trabalhadores do Hospital Tide Setúbal, na zona leste de São Paulo, protestam no sábado 18 de abril contra a falta de equipamento de proteção.
Trabalhadores do Hospital Tide Setúbal, na zona leste de São Paulo, protestam no sábado 18 de abril contra a falta de equipamento de proteção.RAHEL PATRASSO / Reuters

“A nossa rotina, como técnico de enfermagem ou enfermeiro, é assustadora. Está muito difícil de trabalhar, a pressão é grande, porque é tudo desconhecido, tudo é novo”, conta uma técnica de enfermagem (que prefere não ser identificada) do Hospital Municipal Tide Setúbal. Trata-se de um dos quatro hospitais da Prefeitura de São Paulo que operam com alta taxa de ocupação de leitos da UTI por causa da pandemia de coronavírus —na média, 74% dos leitos de tratamento intensivo na capital está ocupado, segundo as autoridades estaduais informaram nesta quinta-feira, mas tudo é bastante dinâmico a preocupante. A unidade da zona leste bateu 100% de ocupação de UTIs na semana passada. O Tide Setúbal está situado na zona leste da capital, periferia da cidade, uma das principais frentes de avanço da covid-19. “Todos os dias temos casos de morte. Na primeira semana, depois de se transformar em referência, um rapaz chegou acompanhado da esposa com falta de ar e cansado. Ele não tinha mais de 40 anos. Depois de três horas ele veio a óbito”, conta a profissional.

Depois de ficar três dias internada na primeira quinzena de abril com suspeita de coronavírus, a técnica de enfermagem entrou em isolamento social e termina de se recuperar da doença —o resultado do teste deve sair nos próximos dias. Além da lotação, os profissionais vêm reclamando da falta de equipamento de proteção individual (EPI) para lidar com os pacientes internados e contagiados. “A gente entra no plantão às 7 horas e, quando saímos para tomar café ou almoçar, tiramos nossa capa de proteção impermeável e deixamos pendurada. Passamos um papel toalha para retirar o suor e depois utilizamos outra vez até às 19h”, explica a técnica de enfermagem. “A capa é descartável, se você teve contato com o paciente, tem que jogar fora. Mas como não tem suficiente, tem que ficar trocando vírus de um paciente para outro. Também utilizamos uma máscara N95 [ as mais seguras e recomendadas] por baixo de uma máscara cirúrgica por 12 horas. A única coisa que descartamos são as luvas”, acrescenta.

A Prefeitura de São Paulo tem uma rede de 19 hospitais municipais. Nove deles se tornaram referência para atendimento de pacientes com sintomas de coronavírus, entre eles o Tide Setúbal, que fica em São Miguel Paulista. Conforme mostrou o EL PAÍS, até a sexta-feira passada, a maior parte das mortes na maior cidade da América Latina haviam acontecido nas franjas da cidade. Não há um mapa atualizado dos óbitos por região, mas as novas cifras gerais são pouco animadoras. Apenas nesta quinta-feira 211 novos falecimentos por covid-19 entraram nos registros oficiais do Estado de São Paulo —metade do total confirmado no país, que foi 407, um recorde desde o início da crise sanitária, que já matou ao menos 3.313 pessoas. As autoridades paulistas dizem que o recorde de confirmações está ligado às análises represadas no feriado enquanto o novo ministro da Saúde, Nelson Teich, disse que “não sabe” se trata de um pico de mortes ou não. Horas depois, o próprio Ministério da Saúde informou nesta mesma quinta que o único que se pode dizer é que ainda há defasagem nos testes para comprovar a covid-19 como causa da morte: 1.269 óbitos ainda aguardam investigação laboratorial e dois terços das mortes adicionadas agora aconteceram há mais de três dias. “Com a chegada de mais testes aos Estados e melhoria de fluxo dos laboratórios, essa espera pelo resultado tem sido reduzida”, diz a pasta.

Seja como for, a pressão no Tide Setúbal, que direcionou seus quase 200 leitos exclusivamente para tratar os infectados com o novo coronavírus, não deve arrefecer, já que o Estado de São Paulo projeta oficialmente contabilizar até o triplo de mortes até 3 de maio. No hospital, os profissionais temem adoecer por causa do contato com os pacientes. Duas mortes de profissionais já foram registradas na unidade: a do auxiliar de enfermagem Eduardo Gomes da Silva e a do médico ortopedista Jaime Takeo Matsumoto, além de vários afastamentos. Dados oficiais indicavam que mais de 3.000 profissionais médicos da capital paulista foram afastados por suspeita de covid-19 até o dia 13 de abril, sendo que 718 já tiveram diagnóstico confirmado. De acordo com o Sindicato dos Servidores Municipais de São Paulo (Sindesep), a taxa de trabalhadores da saúde pública municipal infectados para cada 10.000 é 18 vezes maior que o índice da população da cidade.

“Eu estou só um pouquinho rouca, mas estou respirando bem. Meu pai acabou de ligar para mim e falou que a saturação dele não está tendo uma boa resposta com o cateter nasal, então parece que vai ser entubado”, relata, por meio de outro áudio, uma médica do Tide Setúbal. Ela foi infectada pela covid-19 e está se recuperando, mas seu pai, que também é médico do hospital, está há 14 dias entubado na UTI, segundo apurou o EL PAÍS. "Como filha estou aflita, como médica sei que é uma realidade extrema. Ore pelo meu pai, reza por ele, todo esse carinho por ele coloque em suas meditações. E ele logo logo vai estar com a gente, para brigar com a gente, fazer aqueles plantões que ele sabe fazer muito bem”, lamenta.

Centro de referência com pouca estrutura

Além do Tide Setúbal, os hospitais Cidade Tiradentes, Ermelino Matarazzo e Dr. Ignácio Proença de Gouvêa também chegaram a ter 100% das UTIs ocupadas na quinta-feira passada. Todos eles estão na zona leste, um dos lugares de maior “pressão” para atendimentos, segundo admitiu o secretário municipal da Saúde, Edson Aparecido, na semana passada. Ele ponderou, porém, que o quadro muda diariamente. “Quando conseguimos tirar da internação, enviamos para algum hospital de campanha. Mas, de qualquer maneira, já é um quadro preocupante, sobretudo nas periferias da cidade. Ainda mais na zona leste, onde estamos tendo uma pressão muito grande”.

Um funcionário da área administrativa que também prefere não se identificar explica que o Tide Setúbal “é um hospital pequeno que virou referência de um dia para a noite, sem estrutura nenhuma para atender os pacientes da própria região, muito menos para atender os que tem covid-19”. Ele explica que a unidade “não tem estrutura de isolamento adequadas para os pacientes como um centro de infectologia, a exemplo do Emilio Ribas”. Também não conta com detalhes como "planta do prédio com a demarcação de todas áreas de risco, indicando onde se pode circular e onde se deve circular com EPI”. O EL PAÍS tentou, sem sucesso, entrar em contato com Carlos Alberto Velucci, diretor de Departamento Técnico do hospital Tide Setúbal.

Desde a segunda quinzena de março, os profissionais de saúde também vêm se queixando de falta de aventais, capotes, toucas, óculos de proteção, face shield, sapatilhas, além de insumos como álcool gel. Asseguram que, ao invés de EPIs, recebem capas de chuvas. Nas manhãs de sexta e sábado, protestaram diante do edifício do prédio com faixas de “não aceitamos capas de chuva”, “chega de enrolação, queremos proteção” e “queremos viver, queremos EPIs”.

O profissional administrativo também reclama que o Tide Setúbal só vive hoje a partir de doações de entidades privadas. “E a doação que vem nem sempre é o correto. Tudo é doação, luva é doação, capa de chuva é doação. Então o funcionário agora vai só trabalhar com doação?”, questiona. “Se chegar, deve ser uma complementação. Mas é o inverso, é o poder público que está complementando”.

As condições de trabalho vêm sendo acompanhadas de perto e denunciadas pelo Sindesp. O sindicato afirma que a pandemia acelerou a terceirização de centros médicos, e que empresas gestoras vêm enviando profissionais sem treinamento para ocupar determinados cargos. “Uma chefia que deixa alguém exposto ao risco, que obriga um profissional trabalhar sem segurança é responsável pelo que pode acontecer (...). Isso é a forma de tratar a periferia?”, declarou Sergio Antiqueira, presidente da entidade. "Tem gente muito nova, gente sem experiência, e isso acaba sobrecarregando ainda mais. Às vezes um médico sem experiência não sabe o que fazer ou que medicação dar em determinadas situações. Acaba sendo muito prejudicial pro paciente mesmo”, relata, por sua vez, a técnica de enfermagem para este jornal.

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