Pandemia de coronavírus

Brasil realiza estudo com anticorpos de pessoas já curadas do coronavírus para salvar novos doentes

Pesquisa com plasma de convalescentes recruta voluntários e Governo fala em “respostas preliminares” até o final do mês. Em outra frente, Fiocruz estuda antirretrovirais para a cura da Covid-19

Imagem de arquivo de amostras de plasma sanguíneo em um laboratório.
Imagem de arquivo de amostras de plasma sanguíneo em um laboratório.Reuters

A cloroquina e a hidroxicloroquina ganharam os noticiários das últimas semanas, dada a politização do tema entre defensores e temerosos sobre a possível ação desses medicamentos para combater o coronavírus. Mas enquanto pesquisadores de todo o mundo, incluindo os brasileiros, não chegam a uma conclusão definitiva sobre seus efeitos benéficos e adversos, cientistas correm para encontrar e testar outros tratamentos. Uma das linhas de pesquisa é realizada com anticorpos presentes no plasma de pacientes já tiveram o coronavírus na forma branda, se curaram e produziram anticorpos para a Covid-19. Na terça-feira, o Ministério da Saúde anunciou pela primeira vez um número de curados, 14 mil ou 55% dos caso diagnosticados ate então, mas não detalhou critérios para ser considerado livre da infecção. Alcançar a imunidade ainda é um dos enigmas da doença.

Cientistas querem descobrir se o plasma desses pacientes considerados curados pode curar doentes que ainda estão na fase aguda da enfermidade. Para isso, médicos de um consórcio formado pelo Hospital Sírio Libanês, Hospital Israelita Albert Einstein e o Hospital das Clínicas realizam o estudo, que já está em fase de recrutamento de doadores voluntários.

Silvano Wendel, diretor médico do Banco de Sangue do Hospital Sírio Libanês, explica que os voluntários precisam ter tido a forma branda da doença e estar recuperados há ao menos 14 dias. Além disso o doador necessita responder às mesmas condições estabelecidas para uma doação comum de sangue: ser maior de 18 anos, pesar mais de 55 quilos, não ter nenhuma doença como AIDS, hepatite, sífilis, chagas e malária, e, especificamente para este estudo, é preciso ser do sexo masculino. “Simplesmente pelo fato de que mulheres que já tiveram alguma gestação podem produzir anticorpos contra leucócitos”, diz Wendel. “E se esses anticorpos forem infundidos [aplicados] em pacientes com coronavírus, alguns podem desenvolver uma reação pulmonar muito grave. Essa é a única razão pela qual estamos aceitando somente homens."

De acordo com Wendel, essa terapia, endossada pela Associação Brasileira de Hematologia, Hemoterapia e Terapia Celular (ABHH), não é nova. “Essa técnica começou a ser usada contra a gripe espanhola, de maneira rudimentar ainda”, afirma. “Depois, foi novamente utilizada na epidemia do SARS, do ebola, da gripe aviária, e com a gripe suína”. Ele ressalta, no entanto, que, caso o estudo tenha resultados positivos, trata-se de uma terapia paliativa. “Infelizmente não conseguimos fazer isso em tão larga escala”, diz. “É um paliativo enquanto a solução definitiva, que é a vacina, não chega”.

Além do consórcio em São Paulo, há outras instituições em busca de resultados com esse mesmo estudo, que já foi autorizado pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (ANVISA) e pelo Ministério da Saúde. Denizar Vianna, secretário de Ciência, Tecnologia e Insumos Estratégicos do ministério da Saúde, afirmou na segunda-feira que foi iniciada nesta semana uma força-tarefa com instituições filantrópicas e públicas de todo o país que estão desenvolvendo estudos sobre o tratamento com o plasma. “Em 30 dias devemos ter respostas preliminares”, afirmou. “O procedimento pode ter benefícios mas nós temos que olhar para os potenciais danos também”, ressaltou.

Outra frente de estudos, liderada pela Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), é a que investiga o uso de medicamentos antirretrovirais no tratamento de pacientes com a Covid-19. A pesquisa já constatou que o medicamento Atazanavir, utilizado contra o HIV, foi capaz de inibir a replicação do coronavírus, além de reduzir o processo inflamatório em ensaios in vitro. Caso esse efeito seja confirmado através de ensaios clínicos, evitaria o agravamento da doença.

Milene Miranda, virologista do Laboratório de Vírus Respiratórios e do Sarampo da Fiocruz, explica que esse medicamento apresentou uma reposta muito positiva no estudo. “Nosso foco foi buscar se outros inibidores da protease do HIV poderiam inibir a propagação do coronavírus. Observamos que o Atazanavir interage mais fortemente com a protease do coronavírus do que o Lopinavir, também testado como inibidor do coronavírus", diz. A pesquisa, no entanto, ainda está em fase inicial. “São todos dados in vitro, ou seja, ainda são necessários testes clínicos para confirmar sua eficácia em pacientes”.

Ela ressalta, no entanto, a necessidade de investimentos para levar os estudos adiante. “Esse trabalho foi realizado por meio de uma colaboração entre diferentes laboratórios e só foi possível ser feito com investimento em educação e pesquisa”.

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