Pandemia de coronavírus

Sem equipamentos de proteção, casas para idosos temem mortes na pandemia: “Usamos toucas de cabelo na boca e nariz”

Asilos no Brasil enfrentam falta de protocolos para lidar com casos suspeitos de coronavírus e, assim como hospitais, têm tido dificuldades de repor máscaras e álcool em gel devido à hiperinflação

Cuidados com idosos e cuidadores na pandemia preocupam autoridades em todo o mundo.
Cuidados com idosos e cuidadores na pandemia preocupam autoridades em todo o mundo.

A procura desenfreada por equipamentos de proteção individual (EPI) em meio à pandemia não preocupa apenas os hospitais brasileiros, mas também as casas de repouso, que abrigam o principal grupo de risco do coronavírus. Em muitos asilos do Brasil, profissionais de saúde e cuidadores trabalham sem materiais básicos de higiene, como máscaras, luvas e álcool em gel, itens hiperinflacionados em um mercado que já não consegue atender à demanda por maior proteção para evitar que o surto se instale nos lugares que abrigam as pessoas mais vulneráveis à doença.

“Não conseguimos encontrar nenhuma máscara para comprar. Estamos improvisando, usando toucas de cabelo como proteção para boca e nariz. Liguei até mesmo nas fábricas desses materiais, e pedem pelo menos 10 dias de prazo”, conta Matthias Weisheit, presidente da Associação de Casas de Repouso do Estado de São Paulo (ACRESP) e administrador de uma instituição privada. Segundo levantamento de fiscalização de entidades de atendimento de pessoas idosas produzido pelo Ministério Público de São Paulo, o Estado conta com mais de 1.500 Instituições de Longa Permanência para Idosos (ILPIs), com capacidade para atender cerca de 40.000 idosos. Por enquanto, não há registro de casos confirmados de coronavírus em asilos da capital. Porém, no interior, as primeiras mortes acenderam o sinal de emergência.

Mais informações

Em 18 de março, um idoso de 81 anos morreu após ter ingressado em uma casa de repouso de Jundiaí. No dia 30, a primeira morte por Covid-19 registrada em Campinas foi a de um homem de 86 anos que vivia em instituição de longa permanência. “Não temos como precisar se a contaminação aconteceu na casa em que ele estava”, diz Andréa Von Zuben, diretora do departamento de vigilância em saúde da cidade. Por recomendação da Sociedade Brasileira de Geriatria e Gerontologia e determinação de prefeituras, a maioria das ILPIs do Estado suspenderam a visitação de parentes. “Tememos que aconteça que nem nos Estados Unidos. Depois que o vírus entra numa casa de repouso, é difícil controlar. Se espalha igual pólvora e tem potencial para causar várias mortes”, afirma o médico geriatra Paulo Tadheu Borges Marques, diretor da Vivenda Santa Fé, que fica na zona Sul de São Paulo.

Ele se refere ao caso do Life Care Center de Kirkland, onde 35 idosos morreram após uma contaminação em massa por coronavírus no asilo. Em países da Europa, como Espanha, Itália e França, que contabilizou 20 mortes somente em um abrigo para idosos na região de Vosges, os asilos se tornaram focos com alto índice de letalidade da doença. “Tivemos que redobrar os cuidados que já tomávamos e adotar outras medidas onerosas para blindar nossa casa do vírus. Mas, sem acesso aos equipamentos de proteção, fica difícil”, diz Paulo Tadheu. O médico conta que máscaras, por exemplo, que antes da crise custavam cerca de dez centavos a unidade, hoje não saem por menos de cinco reais. Isso quando a casa de repouso consegue encontrar um fornecedor com estoque disponível. “Não queremos nada de graça. Mas é preciso que o Governo tome a frente da situação e defina as ILPIs como prioridade no acesso aos equipamentos. Lidamos com grupo de risco. É alarmante que a oferta desses materiais seja submetida à lógica da extorsão e preços abusivos.”

Além da dificuldade para acessar EPIs, as casas de repouso também lidam com a falta de protocolos sobre como agir caso algum residente apresente sintomas ou seja diagnosticado com coronavírus. “Se a instituição tem um idoso infectado, o que faz com ele? Para onde leva? Quem e como faz o transporte? Quais cuidados deve tomar com outros moradores?”, questiona Yeda Duarte, professora de enfermagem da Faculdade de Saúde Pública da USP. “Não adianta montar hospital de campanha sem, antes, planejar o fluxo dos pacientes.” Para a pesquisadora em gerontologia, uma das maneiras de minimizar o “risco de gerontocídio” durante a pandemia, já que as casas de repouso acolhem, via de regra, idosos com mais de 70 anos e histórico de doenças prévias, é lançar mão da testagem de funcionários e residentes dos abrigos, sem contar a garantia dos equipamentos de proteção. “Como as visitas estão proibidas, os funcionários são a principal fonte de contaminação direta, sobretudo se não utilizarem EPIs. A maioria das instituições não tem profissionais de saúde nem infraestrutura hospitalar. Por isso é fundamental a reserva de leitos em hospitais para esse grupo de idosos, que deveria constar em um protocolo de ações.”

Nadir Menezes, fundadora do Fórum Permanente de Instituições para Idosos, explica que, pelo fato de estarem vinculadas às secretarias de assistência social, as casas de repouso têm poucos recursos de saúde para controlar uma epidemia caso o vírus se espalhe por suas dependências. “Algumas trabalham com enfermeiros, poucas com médicos exclusivos, mas não há garantia para a presença desses profissionais na legislação. As instituições não estão preparadas para encarar a pandemia, muito menos diante de um quadro de escassez de equipamentos de proteção essenciais.” Para entidades filantrópicas, a situação tem ganhado contornos ainda mais dramáticos. Muitas delas, como a Casa dos Velhinhos de Ondina Lobo, que atende 62 idosos em vulnerabilidade social na capital paulista, registraram em março perdas de até 40% na arrecadação com doações de empresas e pessoas físicas.

No último dia 26, o Ministério da Mulher, da Família e dos Direitos Humanos, em conjunto com a Secretaria Nacional de Promoção e Defesa dos Direitos da Pessoa Idosa (SNDPI), lançou um cadastramento de ILPIs com o objetivo de destinar recursos do Governo Federal para o enfrentamento à pandemia de coronavírus. Após ser cobrado pela Comissão de Defesa dos Direitos da Pessoa Idosa (Cidoso) da Câmara dos Deputados, o secretário Antonio Costa afirmou que está tomando providências para a execução das verbas, sem, no entanto, estabelecer um prazo para a ajuda chegar às casas de repouso com maior necessidade. A Cidoso reivindica ainda a liberação imediata de 300.000 reais da emenda parlamentar aprovada no ano passado para programas voltados aos idosos em instituições de longa permanência.

Na semana passada, o Ministério da Saúde distribuiu uma remessa com 40 milhões de itens em equipamentos de proteção para reforçar os estoques de Estados e municípios. A Cidoso pede que as ILPIs sejam urgentemente incluídas no programa de atendimento da pasta. “As Instituições de Longa Permanência espalhadas pelo Brasil merecem, nesse momento, atenção especial do Governo Federal e do Ministério da Saúde, pois esses locais concentram pessoas idosas nas suas dependências, representando um perigo concreto e iminente de contágio e agravamento das condições de saúde dos seus asilados”, argumenta o ofício assinado na última sexta-feira pelos deputados Lídice da Mata (PSB-BA) e Denis Bezerra (PSB-CE), presidente e vice-presidente da comissão, respectivamente. Ao todo, o país tem quase 80.000 idosos abrigados em 3.600 asilos. Em Antônio Carlos, interior de Santa Catarina, uma casa de repouso confirmou esta semana duas mortes e outros seis infectados por coronavírus, o primeiro caso de contaminação coletiva em instituição para idosos desde o início da pandemia.

Mais informações