Pandemia de coronavírus

Falta de máscaras e respiradores traz tensão aos hospitais espanhóis

Em “estado de alarme”, Governo da Espanha busca fontes alternativas de suprimento, num momento de desabastecimento mundial de material sanitário devido ao coronavírus

Funcionária na entrada do centro de Saúde Estrecho de Corea, em Madri.
Funcionária na entrada do centro de Saúde Estrecho de Corea, em Madri.VICTOR SAINZ

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“Nos hospitais com um volume grande de pacientes, estamos perto do desabastecimento.” Quem diz isso, pedindo anonimato, é o chefe de serviço num grande hospital de Madri, a região mais atingida da Espanha pelo coronavírus (Covid-19). O Governo espanhol decretou “estado de alarme” nesta-sexta-feira por 15 dias para conter a propagação da pandemia.

Centros de saúde já começam a racionar os equipamentos de proteção individual (EPI), dada a previsão de que máscaras, luvas e batas podem se esgotar em questão de dias no país. “Os respiradores são um problema também”, relata essa fonte. Os chefes de UTIs estão se preparando para ver suas instalações sobrecarregadas, com a necessidade de ocupar outras áreas hospitalares onde houver leitos, mas não há respiradores para tratar os pacientes afetados por coronavírus, que não conseguem respirar por conta própria quando seu quadro se agrava. “É um problema de Madri, da Espanha e do resto do mundo: há falta de estoque”, acrescenta.

Num momento em que a Organização Mundial de Saúde (OMS) anunciou que a Europa se tornou o epicentro da pandemia de Covid-19, com mais casos e mortes registrados do que o resto do mundo combinado, não é uma questão de dinheiro nem de falta de vontade de resolver o problema de abastecimento. É que não há de quem comprar. Já não são os hospitais nem os governos regionais tentando se abastecer. A gestão está diretamente a cargo do Ministério da Saúde, através da Ingesa, órgão público que administra o atendimento sanitário nos encraves de Ceuta e Melilla e que se encarrega também de adquirir medicamentos e produtos sanitários de forma centralizada. Dada a pressão das comunidades autônomas – o Governo regional de Madri escreveu uma carta ao ministro Salvador Illa alertando para uma situação “muito grave” de falta de material – o Ministério da Saúde iniciou nesta quarta-feira a distribuição de 410.000 máscaras, 310.000 delas para a Comunidade de Madri, a região mais afetada da Espanha, e anunciou que há outras 500.000 a caminho. Fontes do Ministério da Saúde dizem que “não haverá desabastecimento porque todas as compras necessárias serão feitas”.

Uma das maiores distribuidoras de material afirma estar há dias em contato com o ministério para buscar soluções. “Pediram-nos para deixar a indústria de lado, e assim fizemos”, informa uma fonte da empresa. Ela se refere aos equipamentos protetores usados em indústrias químicas ou automobilísticas, por exemplo. O Ministério da Saúde solicitou que todo o estoque seja destinado a hospitais e postos de saúde. Para isso, os especialistas que estão coordenando a crise analisam como transformar esses EPIs em produtos sanitários aprovados nos controles e aptos para uso profissional em hospitais. Cogitou-se também, indicam as fontes consultadas, redistribuir EPIs das áreas mais poupadas para as mais afetadas.

Fernando Simón, diretor do Centro de Coordenação de Alertas e Emergências Sanitárias, alertou na quarta-feira que “o risco de desabastecimento poderia ser iminente nos próximos dois ou três dias”. Acrescentou que os envios às regiões “vão solucionar o problema durante um período, alguns dias, uma semana ou 15 dias”, mas que é preciso continuar procurando material. “Em nível global, a produção está limitada, e todos os países estão se aprovisionando”, disse.

Bruxelas teve que dar um toque de atenção a sócios europeus como a Alemanha e a França, que há alguns dias anunciaram a proibição da exportação de material sanitário. Ali produz, por exemplo, a Dräger, um dos três principais fabricantes dos respiradores usados nos hospitais espanhóis, junto com a Philips e a Hamilton, empresas que não quiseram se pronunciar sobre a situação – uma delas sugeriu à reportagem que procurasse a entidade empresarial do setor de tecnologia sanitária, a Fenin, que se recusou atender o EL PAÍS. Um porta-voz da Dräger afirmou que “a Espanha está vivendo uma situação de emergência médica e a demanda por este tipo de equipamento por parte dos hospitais aumentou, como é lógico”. Ele acrescentou que a empresa “está fazendo um esforço extra, tanto material como humano, para pôr sua tecnologia à disposição dos pacientes no menor tempo possível”. A Dräger ampliou as linhas de produção para dar resposta à demanda, acrescenta.

Como alertaram as próprias comunidades afetadas, as zonas de maior demanda são atualmente a Comunidade de Madri (no centro do país), o País Basco e La Rioja (ambas no norte da Espanha), segundo o porta-voz da empresa, porque são as zonas onde mais casos do coronavírus estão sendo diagnosticados. “A situação está sendo analisada diariamente para poder prover nosso país de equipamentos no menor tempo possível”, afirmou Simón.

As autoridades alemãs disseram há uma semana que as exceções à ordem de não exportar só seriam possíveis sob condições rigorosas e no contexto de “esforços internacionais de socorro coordenado”. Mas na terça-feira o ministro alemão da Saúde, Jens Spahn, fez um relativo recuo e indicou que as restrições à exportação “não significam que as vendas ao exterior não sejam possíveis”. Spahn explicou que se trata de evitar que o material sanitário acabe destinado simplesmente a quem pagar mais. “Claro que queremos ajudar nossos vizinhos europeus e nossos sócios com suprimentos. Estamos preparados para implementar um procedimento no fim de semana que nos permitirá tomar decisões para que os caminhões cheguem ao seu destino”, informou o titular da pasta em uma entrevista coletiva ao lado da chanceler (primeira-ministra) Angela Merkel.

Entre uma declaração e outra havia a irritação de Bruxelas e os atritos diplomáticos com a vizinha Suíça, um país que depende em boa medida dos suprimentos alemães, conforme publicou o jornal Neuen Zürcher Zeitung. A cúpula do Conselho Europeu na terça-feira encarregou à Comissão Europeia (Poder Executivo da UE) que vele especialmente pelo respeito às normas de mercado interno. Uma forma de dar um toque à Alemanha e à França pelas restrições impostas à venda de máscaras e respiradores.

A Itália, o país europeu em situação mais grave (mais de 15.000 positivos e 1.016 mortos), pediu a ativação do mecanismo de proteção civil da União Europeia para conseguir suprimentos de EPIs. Seu Governo não esconde as críticas a Bruxelas. “Infelizmente, nenhum país europeu respondeu ao apelo da Comissão”, queixa-se o representante italiano na UE, Maurizio Massari, numa carta publicada no site Politico. “Só a China respondeu bilateralmente. Certamente não é um bom sinal de solidariedade europeia”, acrescenta. “Hoje é a Itália, amanhã pode ser qualquer outro que necessite de ajuda.”

A China se ofereceu a vender à Itália 1.000 respiradores, dois milhões de máscaras, 20.000 trajes de proteção e 50.000 espátulas usadas na coleta dos exames do coronavírus. Também a Espanha poderia pedir ajuda à China, a julgar pelo que disse Simón: “Sabemos que todo o aumento de produção dos equipamentos de proteção feito na China já não é necessário por lá e estará disponível provavelmente nos próximos dias para o resto do mundo”. O porta-voz acrescentou que, com “a demanda exagerada por parte de todos os países”, a Espanha terá que “administrar com cuidado a parte que nos cabe”.

Com informação de Bernardo de Miguel (Bruxelas) e Ana Carbajosa (Berlim)

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