Pandemia de coronavírus

Pânico pelo coronavírus afunda Bolsas pelo mundo em queda livre

Discurso da presidenta do BCE acelera as perdas em todos as Bolsas europeias. O Fed injeta liquidez para deter a queda, mas Wall Street cai mais de 8%

Um operador trabalha na segunda-feira na Bolsa de Wall Street, em Nova York (Estados Unidos).
Um operador trabalha na segunda-feira na Bolsa de Wall Street, em Nova York (Estados Unidos).EFE

Há três semanas era uma mera gripe, há duas, o cisne negro de 2020, e agora é um terremoto global de magnitude imprevisível. A crise do coronavírus caminha para se transformar em um feroz terremoto às frágeis sustentações da economia global: a ameaça de uma recessão é cada vez mais plausível e os mercados (Bolsas, bônus, petróleo) prolongam um recuo que não era visto desde os piores dias da Grande Recessão: o Ibex 35 espanhol sofreu na quinta-feira a maior queda de sua história (14,06%), da mesma forma que as outras Bolsas europeias e Wall Street, que se viu obrigada a suspender de novo temporariamente sua cotização para evitar as vendas de pânico. Somente o anúncio de novas medidas de liquidez do Federal Reserve (Fed, o banco central dos EUA) que, como o BCE, dá amostras de esgotamento em sua munição, deteve um pouco a sangria. Apesar disso, caiu a duas horas do fechamento 8,5%, a maior desde 1987. O movimento do Fed foi contundente: 1,5 trilhão de dólares (7 trilhões de reais). Mas os mercados já estão terrivelmente amedrontados.

Nesse contexto, a quinta-feira era o dia do anúncio do pacote de medidas do Banco Central Europeu (BCE). A resposta ao embate do coronavírus é a compra de mais dívida e uma injeção de liquidez, mas não só as circunstâncias mudaram, como a situação piorou. “Da mesma forma que aconteceu com o Fed semana passada, a decisão do BCE não agradou aos mercados, que esperavam muito mais”, diz Rosa Duce, economista chefa do Deutsche Bank Espanha. Uma clara amostra de que as palavras de Lagarde caíram como um balde de água fria. Ou gelada. A única saída possível passa, como frisaram meia dúzia de economistas consultados, em ampliar o menu e aplicar com diligência um potente plano de choque fiscal. Se isso não ocorrer, o risco é cair em uma depressão econômica de grande magnitude, um cenário que já não é, de maneira nenhuma, descartável.

Nas Bolsas mundiais, a quinta-feira passará à coleção dos dias catastróficos da história. Com uma diferença em relação às quedas das últimas semanas: dessa vez foi chover no molhado, com cotizações já bem menores. Wall Street vem do bear market (como no jargão norte-americano se referem a uma queda de 20% a partir do máximo) mais rápido de sua história: só havia se passado um mês do último pico. O Ibex, por sua vez, já perdeu um terço de seu valor desde o início da expansão do coronavírus pela Europa. “Os pedidos à utilização de política fiscal são contínuos e ainda que existam muitas promessas, a quantificação delas e sua posterior aprovação são um processo lento, por isso a desconfiança dos investidores e o medo de que cheguem tarde demais”, afirma Duce.

Se em 2008 a primeira resposta à crise financeira veio pelo caminho monetário, o sinal que os mercados mandaram a Frankfurt na quinta-feira é de total esgotamento dessa via. Não é a primeira vez que isso acontece: na terça passada, e após um brevíssimo alvoroço inicial, a Bolsa de Nova York pagou com a mesma moeda a surpreendente e contundente diminuição da taxa de juros do Fed. Entre os analistas e investidores uma tese ganha intensidade: a única alternativa possível para sair do buraco é a política fiscal. “Nesse ponto são necessárias repostas europeias e, principalmente, globais. O Fed e o BCE fizeram tudo o que poderiam fazer. O alarmante é que as autoridades econômicas europeias estão tão atrasadas quanto as de saúde quando tudo explodiu na China”, diz por telefone José Juan Ruiz, ex-economista chefe do banco Interamericano de Desenvolvimento (BID). O choque é de tal dimensão, acrescenta, que se não houver reação pode ocorrer um “colapso econômico generalizado”.

Washington e Bruxelas terão que colocar muita lenha na fogueira nas próximas semanas se quiserem reverter uma tendência geral que começa a lembrar muito os episódios mais obscuros da história econômica contemporânea. É tempo de agir diretamente, ir no âmago da questão, diz o departamento de estudos do BlackRock ―o maior fundo de investimentos do planeta― em sua última análise: “A única maneira de encarar essa situação é acrescentar novas linhas de defesa e fazer da política fiscal uma parte explícita da resposta”. Se os mercados servem de termômetro, só há uma conclusão: a situação é crítica e não há tempo a perder para usar todo o arsenal. E deve ser suficiente.

As medidas de contenção aplicadas até agora se revelaram insuficientes para deter uma onda que levou todos as grandes Bolsas europeias a sofrer quedas sem comparação recente, superando até mesmo o baque do plebiscito do Brexit. “As ações foram vendidas nos mercados europeus a níveis que sugerem uma recessão”, afirma um relatório recente do Barclays. Essa palavra, recessão, se transformou em uma muleta muito comum nas avaliações dos analistas. Enquanto isso, o solo dos mercados continua distante: “Os mercados se manterão agitados durante as próximas semanas e os valores europeus ainda podem cair mais 10%”, acrescentam os técnicos do banco britânico. Isso é, como frisa o economista José Carlos Díez parafraseando o professor de Yale Gary Gorton, “uma autêntica corrida, em vez de depósitos, de mercados”.

O petróleo sofre o golpe das proibições de voos

As Bolsas e o petróleo estão há dias se retroalimentando, em um círculo vicioso sem final aparente. Na quinta-feira a história não foi diferente: após vários dias em que a oferta ―vasta em uma guerra de preços lançada pelo segundo maior produtor mundial, a Arábia Saudita, após sua ruptura com o terceiro, a Rússia― prevalecia como fator de preocupação, agora a demanda assumiu o destaque. A proibição de Washington de voos com origem na Europa para tentar deter a expansão do vírus significa um severo revés sobre as perspectivas de consumo global.

Sem suporte algum ―demanda em queda livre, oferta não controlada pela OPEP e Moscou, que já foi o cartel dominante, ultrapassado na quinta-feira pelas extrações norte-americanas―, tudo fica ao acaso do mercado, como diz Norbert Rücker, do banco suíço Julius Baer. E isso só pode significar uma coisa: uma diminuição ainda maior dos preços. “Estarão por volta de 30 dólares (140 reais) antes de entrar em uma fase de lenta recuperação no meio do ano. Os temores ainda ressoarão por um tempo”, afirma. Em somente uma semana o petróleo perdeu quase um quarto de seu valor. Na quinta o barril brent, o de referência na Europa, valia 33 dólares (155 reais, 8% a menos do que no dia anterior), bem próximo aos 30 dólares mencionados por Rücker.

A resposta dos países produtores é pisar no acelerador da oferta em uma estratégia contrária ao que dita a intuição para fazer frente a uma demanda baixa: no passado, quando a economia entrava em crise e levava a demanda consigo, os produtores tendiam a restringir a torneira da oferta para tentar nivelar o mercado e oferecer um apoio aos preços. Hoje, a estratégia a seguir está sendo exatamente a contrária: Riad está oferecendo seu petróleo na Europa ―um mercado tradicionalmente abastecido pelo óleo russo― e até nos EUA ―já inundado pelo fracking―: de acordo com os dados da Bloomberg, petrolíferas europeias como a Repsol, Cepsa, Total e Royal Dutch Shell estão recebendo petróleo saudita há dias a preços de queda.

A instabilidade econômica e o temor dos mercados também se fazem sentir nos bônus dos Estados a 10 anos. O prêmio de risco espanhol (diferencial com o bônus alemão, considerado o mais seguro) subiu com força até os 122 pontos básicos, 26 pontos a mais do que na quarta-feira. Isso se explica pela piora do bônus espanhol (subida até 0,5%) e pela resistência do bund alemão em -0,74%. O bônus alemão a 10 anos é, junto com a moeda norte-americana e o iene, o único refúgio possível na tempestade.

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