Fechar a lacuna digital para erradicar a pobreza na América Latina e no Caribe

Garantir melhor acesso à internet para todos equivale a multiplicar as oportunidades de educação e empregos para a população, que terá mais ferramentas para enfrentar os desafios do futuro

Uma menina ajuda um menino a colocar uma máscara doada enquanto os moradores fazem fila para receber sacolas de comida grátis, no Rio de Janeiro.
Uma menina ajuda um menino a colocar uma máscara doada enquanto os moradores fazem fila para receber sacolas de comida grátis, no Rio de Janeiro.Bruna Prado / AP

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A economia digital, a conectividade e as possibilidades oferecidas pelo trabalho remoto surgiram como uma proteção contra os efeitos devastadores da pandemia da covid-19 para diversos setores sociais e econômicos na região da América Latina e do Caribe. No entanto, nem todos tiveram acesso a essa solução.

Menos de 50% da população tem acesso à internet de banda larga na região, e isso leva à exclusão digital e limita as oportunidades para muitos. Falou-se em “pobres digitais” em algum momento. Em tempos de covid-19, isso significa que milhões de pessoas, um número alto demais, não puderam ter acesso a uma série de benefícios, incluindo oportunidades de trabalhos remotos, serviços financeiros, educação online e capacitação vocacional.

A natureza do trabalho está mudando e algumas das tendências permanecerão mesmo após a pandemia. As plataformas digitais, por exemplo, oferecem oportunidades até há pouco tempo inimagináveis para profissionais, prestadores de serviços, trabalhadores autônomos, e pequenos produtores e comerciantes em comunidades rurais. Para além do mercado doméstico, há enormes possibilidades de oferecer os produtos e serviços no mercado internacional.

No entanto, embarcar no trem da economia digital exigirá expandir a conectividade. O recente relatório do Banco Mundial: Efeito Viral: COVID-19 e a Transformação Acelerada do Emprego na América Latina e no Caribe destaca a importância crucial da expansão do acesso à Internet e da inserção da telefonia inteligente no novo ambiente de trabalho. Infelizmente, nossa região está atrasada em relação às outras do mundo. É um fosso digital que aumenta as desigualdades ao invés de promover a igualdade.

Entre os desafios que devem ser imediatamente enfrentados estão fechar essa lacuna, promover o desenvolvimento do capital humano e criar oportunidades no mercado de trabalho do futuro para a enorme massa de trabalhadores informais que foi duramente atingida pela pandemia.

Desde 1993, celebramos o Dia Internacional para a Erradicação da Pobreza em 17 de outubro. É uma boa oportunidade para destacar os desafios desta nova forma de exclusão, que deve ser tratada com urgência para permitir o crescimento inclusivo na região ― crescimento que ofereça oportunidades para todos e a saída da pobreza para os setores mais vulneráveis.

A pandemia teve um impacto imenso na América Latina, com um declínio projetado de 7,9 por cento do PIB regional para 2020. Cerca de 25 milhões de empregos podem simplesmente desaparecer. Em termos de pobreza, perdemos muito do que ganhamos nas últimas duas décadas. Segundo nossas estimativas, incluídas no recém lançado relatório O Custo de se Manter Saudável, mais de 50 milhões de pessoas podem voltar à pobreza este ano. É um cenário verdadeiramente desolador, agravado pela atual capacidade fiscal limitada das economias da região.

Todos conectados

A criação de empregos é a maneira mais eficaz de erradicar a pobreza, e torna essencial o fortalecimento das economias da região na recuperação pós-pandemia. Esse fortalecimento requer promover a produção, o comércio e a prestação de serviços, cujas bases, em muitos casos, já são digitais.

No entanto, para aproveitar as oportunidades de crescimento nos diversos setores da economia, devemos promover a inovação, aumentar a produtividade e ― acima de tudo ― impulsionar a inclusão digital. Vendas por meio de plataformas de e-commerce, serviços online e a sobrevivência de centenas de pequenas e médias empresas durante o período de distanciamento social se tornaram possíveis graças ao acesso à Internet em milhares de domicílios.

Muitas outras pessoas precisam estar conectadas, e nós estamos trabalhando com afinco para que isso aconteça. Em junho passado, o Banco Mundial aprovou um programa de apoio à transformação e à inclusão digital no Caribe no valor de US$ 94 milhões. Além disso, um projeto de aceleração digital de US$ 60 milhões foi recentemente aprovado para o Haiti. No Brasil, temos conversado com o Governo sobre cadastro de trabalhadores informais usando sistemas de identidade digital que permitirão aos trabalhadores receber auxílio financeiro. A etapa de reconstrução em nossos países exigirá mais programas como esses.

Durante a emergência, os governos da região devem usar os recursos limitados de maneira eficiente. A assistência direta aos setores mais vulneráveis ainda será necessária por um tempo, mas é fundamental reduzir a dívida pública para níveis sustentáveis. Essas prioridades competirão com os investimentos para a criação de empregos e o desenvolvimento da infraestrutura para reconstruir as economias, bem como o apoio necessário para melhorar a conectividade da Internet e o acesso à banda larga.

Os benefícios serão imediatos e também de longo prazo. Garantir melhor acesso à internet para todos equivale a multiplicar as oportunidades de educação, capacitação e empregos para a população. Em outras palavras, a população terá mais ferramentas para enfrentar os enormes desafios do futuro.

Carlos Felipe Jaramillo é vice-presidente do Banco Mundial para América Latina e Caribe

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