Pandemia de coronavírus

Cientistas do Equador confirmam o primeiro caso de reinfecção pelo coronavírus na América do Sul

Instituto de Microbiologia da Universidade San Francisco, no Equador, identificou o genoma de duas cepas do SARS-CoV-2 em um mesmo paciente como aconteceu no caso de Hong Kong

Várias pessoas com máscaras caminham por uma rua de Quito, em 25 de agosto.
Várias pessoas com máscaras caminham por uma rua de Quito, em 25 de agosto.Jose Jacome / EFE

Um equatoriano de 46 anos diagnosticado com covid-19 em maio e que deu por superada a doença em junho voltou a apresentar sintomas mais graves em agosto. O Instituto de Microbiologia da Universidade San Francisco de Quito, no Equador, afirma que se trata do primeiro caso de um reinfectado por SARS-CoV-2 no Equador e na América do Sul. “Foi sequenciado o genoma completo de duas cepas diferentes no mesmo paciente demonstrando que a reinfecção é possível e que em alguns casos a primeira infecção pode não produzir uma resposta imune eficiente para evitar uma segunda infecção”, especificaram os cientistas da Universidade ao comunicar o resultado de seu estudo.

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O caso foi descoberto em um profissional que não tinha nenhuma doença preexistente e que começou a ter sintomas leves em maio, sem conseguir identificar a fonte inicial do contágio. Realizou um primeiro teste PCR que deu resultado positivo, conta o pesquisador da San Francisco de Quito, Paul Cárdenas. Ficou três dias com sintomas leves como dor de cabeça, congestão nasal e cansaço. Após melhorar, fez um segundo teste PCR que deu negativo em junho. Um mês depois, acrescenta o membro da equipe que identificou as duas cepas, o paciente esteve em contato com outra pessoa infectada e voltou a manifestar sintomas. Foram mais graves e duraram uma semana: dor corporal, febre de 38,5 graus, forte dor nas costas, tosse e dificuldade para respirar. Não chegou a precisar ser hospitalizado. O PCR deu positivo pela segunda vez.

“Agora está bem e com um novo resultado negativo. Como o paciente foi à nossa Universidade nas duas vezes para realizar o teste diagnóstico, tínhamos as amostras e pudemos sequenciar o genoma: encontramos 19 diferenças”, afirma Cárdenas. Em uma linguagem mais simples, esclarece, foi detectado que o homem de 46 anos esteve infectado por duas variantes do mesmo vírus, como se fossem duas “linhagens”. Isso descarta que se tratasse do vírus inicial que teria permanecido durante longo tempo em seu organismo. “Sequenciar o genoma é como fazer uma impressão digital que, nesse caso, nos permitiu comprovar que eram duas cepas, duas origens do mesmo vírus, porque ele vai mutando”. É um caso semelhante, diz, aos identificados em Hong Kong, Bélgica, Holanda e nos Estados Unidos.

No Equador, diz Cárdenas, há outros dois casos com suspeita clínica por reinfecção que cumprem os mesmos requisitos. Ou seja, mais dois casos em que há pacientes com um possível segundo contágio e nos quais foram guardadas as amostras do primeiro teste para poder comprovar o genoma. “O problema que temos aqui é que existem pacientes que vão a laboratório privados para realizar os testes e estes descartam as amostras imediatamente; se forem reinfectados não poderemos fazer a análise das cepas”, argumenta.

Além de Cárdenas, na equipe de pesquisa há mais oito membros: Sully Márquez, Belén Prado-Vivar, Juan José Guadalupe, Bernardo Gutiérrez, Verónica Barragán, Patricio Rojas-Silva, Gabriel Trueba, Michelle Grunauer, da Universidade San Francisco de Quito – o único local com capacidade para sequenciar genomas no país – em colaboração com o departamento de Zoologia da Universidade Oxford. Nos últimos seis meses afirmam ter identificado 52 variantes do vírus que estão circulando no Equador.

O estudo sobre a primeira reinfecção do país e da América do Sul já foi enviado para ser publicado em uma revista científica, tal como foi feito nos casos de Hong Kong e dos outros dois reinfectados. O Governo do Equador também foi informado dentro do prazo de 48 horas estabelecido, diz o pesquisador, em resposta aos questionamentos feitos pelo ministro da Saúde equatoriano após a notícia da reinfecção. Juan Carlos Zevallos criticou à imprensa local que a Universidade não teria seguido os protocolos de comunicação da descoberta.

Mas Cárdenas esclarece: “Demos o passo básico, que é enviar o estudo à publicação. Já podemos dizer que temos o primeiro caso de reinfecção no país e o que falta fazer é, digamos, um trâmite burocrático”, diz o cientista que quis afastar as preocupações sobre a eficácia das vacinas e o impacto das reinfecções. “Alguns pacientes podem voltar a se contagiar se a resposta imune não foi suficiente da primeira vez, mas isso não significa que as vacinas não irão funcionar e que os números de mortos que, lamentavelmente, tivemos no começo em Guayaquil irão se repetir”. A lição que os casos de reinfecção deixam, afirma, é que ninguém deve relaxar as precauções, nem mesmo os que já se infectaram uma vez.

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