Pandemia de coronavírus

EUA pretendem aprovar sua vacina contra a covid-19 antes da conclusão dos ensaios clínicos

Anúncio do chefe da FDA causa alarme na comunidade científica ante a possível pressão do Governo para que a vacina esteja disponível antes das eleições de novembro

Stephen Hahn, da FDA, ao lado do presidente Trump.
Stephen Hahn, da FDA, ao lado do presidente Trump.Alex Brandon / AP

O diretor da FDA, a agência de medicamentos dos EUA, disse estar disposto a aprovar o uso de uma vacina produzida no país contra a covid-19 antes que o processo normal de ensaios clínicos seja concluído. As declarações de Stephen Hahn, em entrevista publicada neste domingo no Financial Times, causaram alarme em parte da comunidade científica, preocupada com o que veem como mais um indício de que a FDA está cedendo à pressão política do Governo e de um presidente ansioso para anunciar uma vacina antes das eleições de 3 de novembro.

Na entrevista, Hahn fala sobre uma eventual “autorização do uso emergencial da vacina, o que não é o mesmo que uma aprovação completa”. Tal autorização permitiria a administração da vacina a determinados grupos da população, antes do final da fase 3 dos ensaios clínicos, que é a etapa mais ampla e rigorosa do processo de teste de uma vacina, na qual ela é testada em milhares de pessoas, com grupo de controle. Além da desenvolvida pela empresa norte-americana Moderna, há dezenas de outras vacinas experimentais que já estão na fase 3. Tanto a Rússia como a China anunciaram recentemente, causando controvérsia na comunidade científica, a aprovação de vacinas sem terem concluído essa fase.

“O padrão legal, médico e científico [para a autorização de uso emergencial] é que o benefício supere o risco em uma emergência de saúde pública”, explicou Hahn ao Financial Times. “Esta vai ser uma decisão científica, médica e de dados. Não vai ser uma decisão política.”

Vários especialistas, porém, expressaram publicamente seu temor de que motivações políticas estejam por trás da vontade de abreviar o processo. “Não podemos tolerar nem aceitar de forma alguma uma autorização de emergência de uma vacina contra a covid-19 sem dados confiáveis sobre segurança e eficácia dos ensaios clínicos de fase 3”, disse no Twitter a virologista da Universidade Columbia (Nova York) Angela Rasmussen. “Apenas dois países aprovaram uma vacina antes de haver evidências claras de sua segurança e eficácia: Rússia e China. Agora, Stephen Hahn deixou claro que deseja que os EUA sejam os terceiros. O homem sem nenhuma credibilidade dizendo que não tem relação com a reeleição de Trump”, escreveu o prestigioso cardiologista Eric Topol na mesma rede social.

Trump tentou insistentemente minimizar a gravidade da pandemia, cujo impacto na economia lhe arrebatou o que considerava seu principal argumento para a reeleição; tentou marginalizar as vozes científicas e ignorou suas diretrizes, alimentou teorias não científicas e com frequência fez afirmações contundentes contrárias ao consenso médico. Na semana passada, durante a Convenção Nacional Republicana em que aceitou oficialmente a indicação como candidato à reeleição, ele praticamente falou da pandemia como coisa do passado. No entanto, os Estados Unidos, com quase seis milhões de casos e mais de 180.000 mortes, se tornaram epicentro e ainda estão longe de ficarem livres do vírus.

O anúncio solene de que existe uma vacina norte-americana em circulação proporcionaria ao presidente uma valiosa mudança de narrativa antes das eleições de 3 de novembro. Algo que Trump quase não oculta. A Casa Branca alocou recursos significativos para a Operação Velocidade Máxima, para financiar e ajudar a acelerar vacinas experimentais. Trump também ecoou uma teoria da conspiração que denuncia algo como um “Estado profundo”, um suposto Governo permanente na sombra, formado por burocratas liberais, que se teria infiltrado no FDA para impedir o desenvolvimento da vacina e, assim, prejudicar as chances de reeleição do presidente. “O Estado Profundo, ou quem quer que seja, na FDA está tornando muito difícil para as empresas farmacêuticas recrutar pessoas para testar as vacinas. Obviamente, esperam adiar a resposta para depois de 3 de novembro”, tuitou o presidente no sábado.

Em meio a essa pressão, Hahn foi criticado por enganar o público sobre a eficácia terapêutica do plasma sanguíneo de sobreviventes da covid-19. No dia 23, na Casa Branca, Trump anunciou “um avanço verdadeiramente histórico na luta contra o vírus da China”, que é como ele se refere ao coronavírus. Tratava-se da autorização de transfusões de plasma sanguíneo de sobreviventes como tratamento de emergência contra a covid-19. Ao lado do presidente, o dr. Hahn apresentou alguns dados sobre a suposta eficácia do tratamento, toscamente manipulados e, diante das críticas, se viu obrigado a recuar. “As críticas são completamente justificadas”, tuitou no dia seguinte.

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