PANDEMIA DE CORONAVÍRUS

Promoção de curas milagrosas politiza a resposta à pandemia na América Latina

Falsas soluções contra o coronavírus se multiplicam, e alguns líderes se aferram a remédios de eficácia não comprovada

Bolsonaro muestra una caja de cloroquina en el Palacio de la Alvorada, el 23 de julio.
Bolsonaro muestra una caja de cloroquina en el Palacio de la Alvorada, el 23 de julio.ADRIANO MACHADO / Reuters
Caracas / São Paulo / Cochabamba / Guayaquil / Cidade do México - 27 ago 2020 - 22:47 UTC

A promoção de curas milagrosas e falsos tratamentos preventivos contra a covid-19 está em alta na América Latina, onde, apesar das medidas tomadas pelos Governos e os confinamentos, nem todos os lugares conseguiram frear a curva do coronavírus. Ante a falta de uma vacina, o fomento de remédios e soluções cuja eficácia não foi cientificamente comprovada ―e, por vezes, com evidências de efeitos negativos― tem sido usado por oportunistas e dirigentes como uma forma de vender esperança em meio à incerteza e ao medo de contrair a doença.

No centro do debate das curas vendidas como milagrosas estão a cloroquina e a hidroxicloroquina, os fármacos genéricos empregados há décadas no tratamento de doenças como artrite reumatoide e malária. A Organização Mundial da Saúde (OMS) desaconselhou seu uso para a luta contra a covid-19, mas as substâncias encontraram firmes aliados em líderes tão polêmicos e distantes no espectro ideológico quanto os presidentes dos Estados Unidos, do Brasil e da Venezuela. A politização dos fármacos, que esgotaram em muitos países e cujo uso indevido tem provocado mortes, coloca a medicação no centro da polarização. A ponto de serem defendidos com fervor no Brasil pelos seguidores fanáticos do presidente Bolsonaro, enquanto quem se atreve a criticá-los é rotulado de “comunista”.

O desespero tem levado a população a recorrer a medicamentos ou preparações cuja eficácia não foi comprovada contra o coronavírus: de ervas, homeopatia e vapores para fortalecer o sistema imune a soluções que podem ser prejudiciais segundo os organismos de saúde, como o antiparasitário ivermectina, o antiviral remdesivir e o dióxido de cloro ―uma substância que motivou um enfrentamento entre o Governo interino e o Parlamento opositor na Bolívia e foi promovida por um grupo de bispos no Equador, provocando a rejeição das sociedades médicas do país.

Bolsonaro, o profeta da hidroxicloroquina

Se existe um profeta da hidroxicloroquina na América Latina, trata-se de Jair Bolsonaro. O presidente brasileiro defendeu durante meses o consumo dessa substância para o tratamento da covid-19, embora sua eficácia não tenha sido comprovada cientificamente. O mandatário não hesitou em tomá-la com transmissão ao vivo nas suas redes sociais em julho passado, quando contraiu o coronavírus. Embora dissesse que não estava fazendo propaganda, a exaltação de seus supostos benefícios é uma constante nos discursos do presidente. “Já que estão falando que estou fazendo propaganda, vou fazer mesmo, mas tem que procurar o médico”, advertiu Bolsonaro aos seguidores, com uma caixa do medicamento nas mãos.

Essa defesa não se limitou ao discurso oficial. Após dois médicos (Luiz Henrique Mandetta e Nelson Teich) terem deixado o cargo de ministro da Saúde por discordar do presidente em relação às recomendações sobre a cloroquina, Bolsonaro finalmente pôde implementar um protocolo nacional para incentivar seu uso nos hospitais públicos. Foi em maio passado, sob a liderança de seu terceiro ministro da Saúde, o militar Eduardo Pazuello. Estudos advertem que o dano da substância pode ser maior que os benefícios em pacientes com a covid-19, mas o protocolo brasileiro abrange inclusive grávidas e crianças.

Os médicos são os que decidem se prescrevem ou não o remédio, e o paciente deve assinar um documento declarando reconhecer os possíveis riscos de tomá-lo. Segundo o protocolo vigente no Brasil, que vai na linha do discurso presidencial, se o paciente toma cloroquina numa etapa inicial da doença terá menos chances de piorar e precisar de um leito na UTI. Embora essa tese não seja respaldada por evidências científicas, em diversas cidades tem sido usado um coquetel de diversos fármacos, incluindo a cloroquina, para pacientes sintomáticos e assintomáticos.

Coquetel de medicamentos genéricos na Venezuela

Nos antípodas ideológicos do presidente brasileiro, a hidroxicloroquina e a cloroquina encontraram outro apóstolo em Nicolás Maduro. Num país onde falta até a água, tão necessária para manter a higiene que ajuda a prevenir o vírus, a população experimenta múltiplas fórmulas para evitar o contágio: de preparações de capim-cidreira e gengibre a homeopatia e gotas do antisséptico dióxido de cloro.

O protocolo terapêutico para a covid-19 na Venezuela, que tem seu sistema de saúde colapsado e enfrenta escassez de medicamentos, já incluiu tratamentos e curas milagrosas de todo tipo anunciados pelos porta-vozes governamentais. A baixa capacidade de diagnósticos gera atrasos de avaliação na situação epidemiológica, e o mesmo parece acontecer com os tratamentos. Além disso, embora não haja evidências suficientes, o plasma sanguíneo de pacientes recuperados também foi incorporado às diretrizes terapêuticas muito antes de ser aprovado pela FDA (agência reguladora dos EUA) sem a chancela dos Institutos Nacionais de Saúde devido à falta de solidez das evidências. Insistentemente, membros do Governo venezuelano pedem que os cidadãos doem plasma.

Há duas semanas, a Venezuela também incluiu nas diretrizes o antiparasitário ivermectina, que foi alvo de polêmica e sérios questionamentos científicos, mobilizados, em parte, pelo médico venezuelano Carlos Chaccour, pesquisador do Instituto de Saúde Global de Barcelona, especialista em malária e vírus emergentes. Sua adoção por vários países foi feita com base num pre print (versão de um estudo sem revisão por pares) publicado pela revista científica The Lancet, que empregou uma base de dados duvidosa, tal como aconteceu antes com os estudos iniciais sobre a hidroxicloroquina. Além desse medicamento, a Venezuela autorizou o já escasso antiviral remdesivir, desenvolvido para o ebola, que começa a ser pedido com urgência nas redes sociais e cuja dose pode custar mais de 300 dólares (1.650 reais) no mercado negro, quase 300 vezes um salário mínimo.

Os pacientes diagnosticados recebem um kit de tratamento contendo ivermectina, o medicamento experimental interferon alfa, hidroxicloroquina, cloroquina, aspirinas, esteroides e vitamina C, conforme a gravidade dos sintomas. Inclusive os assintomáticos os recebem. “A terapêutica é um pacto de confiança. É um erro distribuir kits genéricos quando receitar é um ato individual. O que fizeram Maduro e presidentes é uma intrusão. Não pode ser que os políticos estejam prescrevendo”, critica o médico internista José Felix Oletta, da Aliança Venezuelana pela Saúde, que também denuncia a violação dos direitos dos pacientes ao se administrarem todos esses fármacos ―que são de uso compassivo, sem informar sobre suas limitações e possíveis efeitos.

O Governo venezuelano também tem fé na farmácia cubana, com dois produtos ainda em ensaio: o interferon alfa e as gotas homeopáticas prevengho-vir, administrados aos profissionais da saúde, pessoas em situação de rua e idosos. O uso é preventivo porque supostamente eleva as defesas do organismo. Maduro também inscreveu a Venezuela nos testes em humanos da vacina desenvolvida pela Rússia, de cujas fases prévias não há maiores dados. O país contribuirá com 500 voluntários.

Dióxido de cloro concentra o debate na Bolívia

A disputa política mantida pelo Governo transitório de Jeanine Áñez e a Assembleia Legislativa Plurinacional, controlada em ambas as câmaras pelo Movimento ao Socialismo (MAS) ―partido do ex-presidente Evo Morales―, pode levar à aprovação de uma medida polêmica na Bolívia. A presidenta do Senado, Eva Copa, deu um ultimato à mandatária para que promulgue a lei que autoriza, de forma excepcional, a elaboração, a comercialização, o fornecimento e o uso de dióxido de cloro para prevenir e tratar a covid-19, após ter sido aprovada de forma unânime pela bancada opositora. Caso contrário, disse que promulgará a lei. “É por necessidade do povo boliviano”, justificou.

A Bolívia poderia, portanto, tornar-se o primeiro país do mundo a permitir o consumo humano dessa substância química como “tratamento preventivo” contra o coronavírus. A OMS desaconselha a prescrição do composto, usado principalmente como bloqueador e para descontaminar superfícies industriais. Ante o desespero das pessoas, o dióxido de cloro é vendido na Bolívia sem receita médica como uma “cura milagrosa” contra a covid-19, apesar de não existir nenhuma evidência científica.

O Ministério da Saúde ameaçou processar qualquer pessoa que promova o dióxido de cloro como tratamento para o coronavírus. Apesar disso, pelo menos 450 médicos formaram um comitê que recomenda seu consumo. Paralelamente, assembleias legislativas de quatro departamentos aprovaram leis para produção e distribuição gratuita e supervisionada da substância. Outros municípios realizam testes com voluntários que apresentam sintomas para verificar sua efetividade.

Com mais de 110.000 casos positivos e uma cifra de mortos que beira os 5.000, o país andino enfrenta a pandemia com um sistema de saúde quase colapsado, sem acesso a medicamentos e em meio a uma das piores crises políticas da sua história, que se estende desde novembro passado à espera das eleições presidenciais, adiadas pela pandemia e previstas para 18 de outubro.

Vitamina C e injeções de água marinha no Equador

As soluções caseiras e os tratamentos milagrosos convivem durante a pandemia no Equador com a “tentativa e erro” dos protocolos hospitalares. Nos primeiros meses, a rede de saúde pública apostava na hidroxicloroquina e na azitromicina para tratar os pacientes com coronavírus que recebiam atenção médica, já que, ante o colapso dos centros de saúde, os doentes menos graves eram enviados diretamente para casa. Ainda hoje existem médicos que receitam antibióticos, paracetamol, aspirina, megadoses de vitamina C e até mesmo injeções de ivermectina, de uso veterinário.

Esteban Ortiz, médico pesquisador de saúde pública da Universidade das Américas, questiona que os hospitais e as autoridades adotem tratamentos experimentais como o remdesivir, com 1.900 doses doadas pelos EUA, sem um estudo de acompanhamento. “O Estado não tinha tempo nem para os diagnósticos, e o trabalho foi muito desorganizado”, afirma. Agora ele diz que os hospitais aplicam tratamentos específicos para cada paciente em função dos sintomas. Os corticoides, segundo as diretrizes da OMS, são a principal fórmula de luta contra os sintomas da covid-19.

Essas orientações médicas em constante mudança convivem no país com vapores de eucalipto, receitas com alho que esgotaram nas lojas, mercados e supermercados durante semanas, injeções de água marinha e dois dos tratamentos sem respaldo científico que proliferaram também em outros países: o plasma de pacientes já curados e o dióxido de cloro. “Têm sido receitadas ampolas de Tocilizumab, e até hoje vemos pessoas pedindo doações de plasma embora não haja estudos suficientes para garantir sua eficácia”, diz o pesquisador.

O dióxido de cloro foi amplamente recomendado no Equador no início de julho, quando circulou uma carta assinada por 10 bispos da Igreja Católica dirigida ao presidente Lenín Moreno para promovê-lo como tratamento alternativo. Como reação, as sociedades médicas do país se uniram para rechaçar seu uso e confirmar sua toxicidade para o ser humano. A Agência Nacional de Regulação, Controle e Vigilância (Arcsa) do Equador finalmente desaconselhou sua aplicação por não ter registro sanitário e proibiu seu consumo e comercialização como método terapêutico contra o coronavírus.

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