Cuca e a mancha do estupro no currículo do técnico brasileiro mais falado do momento

Em evidência ao conduzir o Santos à final da Libertadores, treinador já foi condenado por participar de ato sexual com uma garota de 13 anos, fato que voltou à tona quando o clube contratou Robinho

Quando defendia o Grêmio, na década de 1980, técnico foi condenado por estupro.
Quando defendia o Grêmio, na década de 1980, técnico foi condenado por estupro.Ivan Storti (Divulgação)

Devoto de Nossa Senhora, cuja imagem fez questão de exibir na camisa que vestiu à beira do campo na final da Libertadores, o técnico do Santos, Alexi Stival, o Cuca, se apegava à fé e à superstição para conquistar mais um título continental. Ainda que tenha ficado marcado pela expulsão na derrota para o Palmeiras, seu status de protagonista na campanha do vice-campeonato santista permanece inabalado. Entretanto, por trás do homem religioso e do profissional bem-sucedido, persiste uma mácula que parecia enterrada, mas voltou a incomodá-lo nos últimos meses: a condenação por envolvimento no estupro coletivo de uma garota de 13 anos.

Em julho de 1987, o Grêmio desembarcou em Berna, na Suíça, para a primeira parada de uma excursão pela Europa. Nessa época, Cuca era jogador, recém-contratado pelo clube. Após a vitória sobre o Benfica, ele, o goleiro Eduardo, o zagueiro Henrique e o atacante Fernando foram detidos no hotel Metrópole sob a acusação de estuprar, dentro do quarto 204, uma menina que havia entrado na concentração gremista em busca de camisas e souvenirs da equipe. Segundo o registro policial, o grupo teria expulsado dois amigos que acompanhavam a vítima antes de cometer a violência sexual.

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Enquanto os quatro acusados permaneceram presos por quase um mês em terras suíças, o Grêmio seguiu normalmente com seu tour, que terminou com cinco vitórias e quatro empates. “Os jogadores não conseguiram se desligar do trauma de seus companheiros e, mesmo assim, voltamos invictos”, comemorou o então técnico tricolor, Luiz Felipe Scolari. O caso, que ficou conhecido como o “escândalo de Berna”, gerou revolta em Porto Alegre. Não pela grave acusação que pesava contra os atletas do clube gaúcho, mas pelo fato de boa parte da opinião pública ter culpado a vítima pelo ocorrido e entendido que os jogadores eram injustiçados.

Um deslize de ordem sexual em que, visivelmente, colaborou para a consumação a conduta, no mínimo, quase conivente da chamada vítima, não deve servir de amparo a uma decisão drástica”, escreveu o colunista Paulo Santana, no jornal Zero Hora, em protesto que exigia a soltura do quarteto. Familiares dos jogadores, incluindo namoradas e esposas, também insinuavam que a garota seria a responsável pelo próprio estupro. Diante da comoção de torcedores indignados com a rigidez das autoridades suíças, que mantinham os detidos incomunicáveis, cartolas e advogados do Grêmio conseguiram articular uma intervenção da diplomacia brasileira. No fim de agosto daquele ano, o Itamaraty chegou a um acordo para que os atletas pudessem retornar ao Brasil e responder ao processo em liberdade.

“Resta dar as boas vindas aos nossos doces devassos”, escreveu o cronista Wianey Carlet, no jornal Correio do Povo, para celebrar o retorno dos jogadores. No aeroporto de Porto Alegre, uma multidão, engrossada até mesmo por torcedores do rival Inter, recebeu os quatro acusados de estupro como heróis, qualificando o episódio no quarto 204 como uma “travessura”. Ao reencontrar a mulher Rejane, em Curitiba, Cuca pediu desculpas aos pais dela pelo escândalo e, aos dirigentes do Grêmio, repetia a justificativa: “Fiquei com a impressão de que ela [vítima] tinha 18 anos”. A suposta aparência de “moça feita”, segundo familiares dos acusados, foi o argumento utilizado pela defesa para sustentar que a garota teria consentido os atos e desqualificar a denúncia de estupro. “Eles [pais de Rejane] acharam que recebemos uma punição severa demais pela falta que cometemos”, disse Cuca, logo que retornou aos treinos no Grêmio.

Apesar de não ter sido reconhecido pela garota na delegacia, Cuca acabou condenado a 15 meses de prisão por violência sexual contra pessoa vulnerável (com menos de 16 anos), assim como os companheiros Eduardo e Henrique. A sentença do tribunal de Berna, emitida em 15 de agosto de 1989, ainda estabeleceu pena de três meses para Fernando, por ter sido cúmplice do crime. A “falta” cometida na excursão, porém, jamais prejudicou a carreira dos envolvidos. Como o Brasil não extradita seus cidadãos nem mantinha acordo de cooperação com as autoridades suíças, a possibilidade de execução das penas expirou em 2004. Depois do escândalo, Cuca assinou contrato em definitivo com o Grêmio. Passou por outros grandes clubes e pela seleção até se tornar o treinador brasileiro mais badalado do momento.

Henrique, Fernando, Eduardo e Cuca: os quatro sentenciados no escândalo de Berna.
Henrique, Fernando, Eduardo e Cuca: os quatro sentenciados no escândalo de Berna.Acervo Placar

O caso voltou à tona em outubro do ano passado, quando o Santos anunciou a contratação do atacante Robinho, condenado por estupro coletivo na Itália. “Robinho é uma pessoa maravilhosa, exemplo de jogador. Espero que nos ajude muito, dentro e fora de campo”, afirmou Cuca, na ocasião, ao avalizar o novo reforço. Contudo, após a ameaça de debandada dos patrocinadores, o clube suspendeu o contrato de Robinho. Grupos de torcedoras resgataram a mancha semelhante no currículo do treinador para questionar a contradição na postura do Santos, que, ao mesmo tempo em que fazia campanhas de combate à violência contra a mulher, não via problema em empregar condenados por estupro.

Procuradas pela reportagem, as assessorias tanto do clube quanto do treinador informam que Cuca prefere não se manifestar sobre o assunto. Em novembro, ele ficou nove dias internado por causa de complicações da covid-19 e perdeu o sogro para a doença. É considerado o principal responsável pela recuperação do Santos, que eliminou LDU, Grêmio e Boca Juniors na caminhada da Libertadores. No embarque da delegação para o Rio de Janeiro, seu nome foi um dos mais ovacionados por torcedores santistas, que, diante da euforia pelo time, seguem indiferentes ao estigma do estupro no passado do ídolo.

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