Palmeiras coroa uma temporada de sonhos com o bi da Libertadores e heróis inimagináveis

Apesar de altos investimentos no elenco nos últimos anos, foi Breno Lopes, que há menos de três meses disputava a segunda divisão, o autor do gol do título, marcado nos acréscimos

Los futbolistas del Palmeiras celebran el título de la Libertadores.
Los futbolistas del Palmeiras celebran el título de la Libertadores.SILVIA IZQUIERDO (AFP)

Até o começo de novembro, o mineiro Breno Lopes nem sonhava em disputar uma final no Maracanã. Ainda vestia a camisa do Juventude, artilheiro do time na segunda divisão do Campeonato Brasileiro. Até a última terça-feira, ele não havia marcado sequer um gol pelo Palmeiras, que o comprou por 7,5 milhões de reais. Depois de desencantar contra o Vasco, tampouco poderia cogitar que seria o grande protagonista do bicampeonato palmeirense na Copa Libertadores da América. “Não imaginava que isso aconteceria isso na minha vida. Eu estava na Série B e agora sou o herói do título”, reconheceu o atacante de 24 anos, com um misto de encanto e espanto, após a vitória de 1 a 0 sobre o Santos.

Mas antes da consagração inesperada, o Maracanã, que recebeu quase 3.000 torcedores e convidados —aglomerados em um setor da arquibancada, em que pese o agravamento da pandemia de coronavírus no país—, viu um jogo morno. Fazia 35 °C no Rio de Janeiro, e as duas equipes, sentindo o calor, se acomodaram em um duelo truncado no primeiro tempo. Pouca coisa mudou na etapa final e, quando a partida já se encaminhava para a prorrogação, a temperatura esquentou à beira do campo.

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Elogiado pela façanha de levar o Santos à final da Libertadores, o técnico Cuca, já nos acréscimos, resolveu pegar a bola que saiu pela lateral. Acabou se enroscando com o lateral Marcos Rocha e, por interferir no jogo, levou cartão vermelho do árbitro argentino Patricio Loustau. Enquanto o treinador deixava o gramado pulando no meio da torcida santista, os ânimos ainda estavam acirrados entre os jogadores, que trocavam xingamentos e empurrões durante a confusão.

De certa forma, o alvoroço quebrou o clima de conformismo com o empate. Logo que a partida recomeçou, Rony, contratação mais cara do time nesta temporada, recebeu pela direita e cruzou com precisão no segundo pau. Breno Lopes, que havia entrado aos 39 minutos, cabeceou firme no canto, aos 53, sem chances para o goleiro John. Não bastasse o gol heroico de um reserva na única finalização certa do Palmeiras, o roteiro da conquista ainda reservou a assistência para um jogador que, diante da escassez de gols e boas atuações, chegou a ser desacreditado por parte da torcida. “Falei pra minha família: ‘Eu vou calar a boca de todo mundo’. Aqueles que torceram contra, eu só lamento. Espero a cada dia mais fazer história com essa camisa”, desabafou Rony, que terminou a competição com oito assistências e como artilheiro do time.

A afirmação dos dois heróis improváveis do Palmeiras coincidiu com a chegada de Abel Ferreira, que foi apresentado no clube apenas 12 dias antes da incorporação de Breno Lopes. O técnico português assumiu o time classificado para as oitavas da Libertadores, substituindo Vanderlei Luxemburgo. Com Abel, o alviverde, de grandes investimentos em medalhões como Luiz Adriano, Gustavo Gómez, Matías Viña, Felipe Melo e o próprio Rony, enfim, passou confiança aos torcedores. Superou Delfín e Libertad até encontrar o River Plate na semifinal. Mesmo jogando fora de casa, o Palmeiras impôs um lendário 3 a 0 na Argentina. A derrota por 2 a 0 na volta não foi capaz de apagar o simbolismo do enorme triunfo sobre a equipe de Marcelo Gallardo.

Antes da final contra o Santos, a convicção de Abel previu o cenário do jogo de poucas oportunidades no Maracanã: “As finais foram feitas para se ganhar”. E assim, com uma estratégia pragmática, defesa segura e persistência, ganhou o primeiro título de sua carreira com o Palmeiras. Logo uma Libertadores... Aos prantos, o técnico se permitiu despejar a emoção que tanto controlou nos últimos dias. Nos próximos, seu time ainda pode conquistar o tão sonhado Mundial (com chancela da FIFA), a Copa do Brasil (contra o Grêmio) e, inclusive, o Brasileirão, em que ainda tem chances de título. A estrela de protagonistas inimagináveis é o prenúncio perfeito para o desfecho de uma temporada de sonhos.

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