Opinião
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O primeiro passo do Flamengo para furar a bolha do eurocentrismo

Antes de sonhar com dimensão mundial, clubes brasileiros precisam consolidar hegemonia regional e jogar como o rubro-negro diante do Liverpool

Rafinha disputa bola com Mané na final do Mundial.
Rafinha disputa bola com Mané na final do Mundial.CORINNA KERN / REUTERS

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Se havia alguma dúvida de que o Flamengo poderia fazer um jogo parelho contra o Liverpool, a pulga atrás da orelha se transformou em considerável otimismo logo após os primeiros 45 minutos de partida. Na etapa inicial, o time carioca foi melhor que os ingleses, que, apesar de desperdiçarem duas oportunidades de abrir o placar, encontraram dificuldades para encaixar a marcação em cima de um adversário disposto a atacar. Embora tenha perdido o título na prorrogação, a equipe de Jorge Jesus saiu do Catar com uma das melhores atuações de representantes brasileiros no Mundial de Clubes. O nível de futebol apresentado apenas comprova a direção acertada para um plano ambicioso do clube mais popular do país: ser notado e comentado muito além da América do Sul.

Sempre existiu certo desdém dos times europeus pelo torneio mundial. Nem a mudança no formato da competição, antes conhecida como Copa Intercontinental, agregando campeões de outros continentes, foram capazes de mobilizar potências do naipe de Barcelona, Real Madrid, Bayern de Munique e Liverpool, que, sobretudo pelo calendário apertado de compromissos na Inglaterra, segue valorizando mais suas disputas locais. Para eles, o ápice de uma temporada é levantar a taça da Champions League, ao contrário dos sul-americanos, que nutrem carinho maior pelo Mundial. É verdade que o técnico Jürgen Klopp usou força máxima, entre os jogadores à disposição, para enfrentar o Flamengo. Mas, preocupado com os três jogos em uma semana pela frente no Campeonato Inglês, sofreu para eliminar o mexicano Monterrey nas semifinais após poupar parte de suas estrelas.

O eurocentrismo do futebol nasceu não só pela concentração das riquezas. Seus grandes clubes se converteram em empreendimentos multinacionais. Fazendo valer sua grandeza, assumiram as rédeas dos campeonatos organizados em ligas, não por federações parasitárias, como acontece no Brasil. O abismo socioeconômico entre países sul-americanos e europeus acentua a diferença de poderio financeiro. Apesar de ter investido mais de 200 milhões de reais em contratações somente este ano, o elenco do Flamengo vale oito vezes menos que o do Liverpool, que gastou 330 milhões de reais em 2017 somente para incorporar o zagueiro Van Dijk. O clube brasileiro encerra 2019 com faturamento recorde, de quase 1 bilhão de reais. Mais rico do mundo, o Barcelona também flerta com a marca de 1 bilhão (porém, de euros, o equivalente a 4,5 bilhões de reais).

De país do futebol a maior exportador de jogadores do mundo, o Brasil não vê um time sagrar-se campeão mundial desde o Corinthians, em 2012. O último finalista havia sido o Grêmio, há dois anos. Perdeu para o Real Madrid pelo mesmo placar do Flamengo diante do Liverpool. Entretanto, com uma ressalva significativa: não chegou perto de incomodar seu rival. Contra os ingleses, o rubro-negro trocou mais passes, teve mais posse de bola e, pelo menos, um tempo de superioridade sobre o adversário. As substituições de Jesus, motivadas por um inevitável cansaço no segundo tempo, não funcionaram e expuseram limitações do elenco para um embate de tamanha exigência. Mas, sem renegar sua vocação ofensiva, encarou de igual para igual um time recheado de craques. A diferença em campo não foi proporcional à enorme distância no investimento em jogadores.

Obviamente, outros times brasileiros já caíram de pé ou, no mínimo, com a mesma dignidade do Flamengo, no Mundial. Casos de Vasco e Palmeiras, em 98 e 99, respectivamente. No entanto, o clube da Gávea encara uma perspectiva de soberania que nenhuma equipe alcançou. Para chegar a esse patamar, foi preciso reorganizar as finanças, controlar —ainda que a duras penas— o endividamento e, enfim, se reforçar com os melhores jogadores disponíveis no mercado dentro da realidade sul-americana. Um processo certamente desconhecido pelo lateral Andrew Robertson, que, antes da final, afirmou —e não deixa de ter razão— que o Flamengo não tem a mesma dimensão mundial do Liverpool. Porém, pelo tamanho de sua torcida, a envergadura financeira e a filosofia moderna que guia seu desempenho em campo, o melhor time da América tem tudo para subir à prateleira dos clubes globais nos próximos anos.

Muitos marqueteiros falam sobre a necessidade de os clubes brasileiros internacionalizaram suas marcas. Mas não há melhor ferramenta de promoção que títulos conquistados e, principalmente, futebol bem jogado. O Santos se tornou mundialmente conhecido porque todo time vislumbrava a chance de enfrentar e vencer Pelé, o atleta do século. Depois, ocorreu algo parecido com o argentino Independiente, o Rei de Copas, que hoje tenta se restabelecer depois de bater à porta da falência. O São Paulo, que, assim como o Flamengo de 81, também já derrotou o Liverpool, faturou o bicampeonato mundial nos anos 90 com exibições de encher os olhos, sob a liderança de Telê Santana. Na década de 2000, foi o Boca Juniors quem chegou mais perto de atingir o grau de potência intercontinental.

O Flamengo, campeão brasileiro e da Libertadores no mesmo ano, deu o primeiro passo. Já garantido no Mundial com formato mais encorpado a partir de 2021, que terá 24 participantes, se depara com uma janela de oportunidade para ampliar de vez seu alcance. Ainda é inimaginável que, tal qual o Santos de Pelé, os rubro-negros mantenham em seu elenco o melhor jogador do mundo, já que craques potenciais embarcam cada vez mais cedo para a Europa. Por outro lado, o fato de nomes como Rafinha, Gerson e Filipe Luís escolherem defender suas cores, indiferentes a ofertas para permanecer no futebol europeu, sinaliza que é possível desenvolver mecanismos de concorrência com o mercado internacional.

Na era em que o dinheiro define quem são as superpotências da bola, o Flamengo dá mostras de que tem cacife para entrar no jogo. O próximo desafio é consolidar uma hegemonia regional de médio prazo. E provar, ano após ano, que é capaz de competir dentro das quatro linhas ostentando a mesma agressividade que exibiu neste dezembro de 2019 contra o Liverpool.