Eleições Brasil 2020

Tradição dos dirigentes que utilizam o futebol como escada para a política segue viva em 2020

Cartolas dos clubes mais populares do Brasil se apoiam na visibilidade de seus cargos em busca de votos do eleitor torcedor nos principais colégios eleitorais do país

Marcos Braz, sexto vereador mais votado do Rio, em comemoração de título do Flamengo ao lado de Diego.
Marcos Braz, sexto vereador mais votado do Rio, em comemoração de título do Flamengo ao lado de Diego.Alexandre Vidal / Divulgação

Como vice-presidente de futebol do Flamengo, a equipe de maior torcida do Brasil, Marcos Braz concebeu a expressão “gelo no sangue” ao pregar calma aos rubro-negros durante as negociações de reforços para o clube. Colocando em prática o ditado, o dirigente manteve o sangue frio ao confirmar sua candidatura a vereador do Rio de Janeiro pelo PL aos 45 do segundo tempo, por assim dizer: a um mês da eleição. O momento de instabilidade do clube atrasou a liberação para que Braz mergulhasse de cabeça na campanha e entrasse definitivamente para o time dos cartolas que viram políticos.

Desde o início do ano, pelos títulos empilhados com o Flamengo na temporada passada, seu nome constava entre os mais cotados para concorrer a um cargo público neste pleito. Eleito como o sexto vereador mais votado do Rio, com 40.938 votos, Braz está em sua segunda passagem pela cúpula do clube. Foi secretário de Esporte e Lazer na gestão de Eduardo Paes e, em 2012, já havia se candidatado a vereador pelo PSB, mas não se elegeu. Amigo do senador Romário (Podemos-RJ), ele tem registros em suas redes sociais de encontros com o presidente Jair Bolsonaro e o vice Hamilton Mourão (PRTB-RJ), que é torcedor do Flamengo.

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Apesar da recomendação da diretoria para evitar associar a imagem do clube à campanha, Marcos Braz adotou as cores rubro-negras na identidade visual dos materiais publicitários e, em alusão ao currículo como dirigente, difundiu o jingle “Esse é vencedor”. Ele faz questão de garantir à torcida que, mesmo conquistando uma cadeira na Câmara Municipal, pretende permanecer no cargo esportivo. “Não sairei das minhas funções no Flamengo. Isso é conversa fiada”, diz. Para evitar a exposição do clube a conflitos de interesses, o grupo de torcedores e conselheiros Flamengo da Gente propôs uma emenda de reformulação do estatuto a fim de obrigar diretores que se candidatem a cargos eletivos a tirar licença de suas funções internas a partir das próximas eleições.

Em 2018, a mesma ala manifestou contrariedade em relação à candidatura do então presidente Eduardo Bandeira de Mello a deputado federal pela Rede. Após perder a eleição, o ex-dirigente concorreu novamente, dessa vez candidato a prefeito. Ele é apontado pelo Ministério Público como um dos responsáveis pelo incêndio que matou 10 jogadores da base do Flamengo no ano passado, mas ainda não foi processado. Diretor executivo na gestão Bandeira de Mello, Fred Luz, filiado ao Novo, virou seu adversário na disputa pela Prefeitura. Em que pesem as referências à trajetória no clube rubro-negro, os dois candidatos somaram juntos apenas 4% dos votos.

O Rio de Janeiro tem histórico de alçar cartolas à política. Na década de 1980, Márcio Braga elegeu-se deputado federal depois de conquistar o tricampeonato carioca e o Campeonato Brasileiro como presidente do Flamengo. No clube rival, Eurico Miranda também obteve dois mandatos no Congresso pela projeção que alcançou como dirigente e por adotar somente uma promessa de campanha: “Quero ajudar o Vasco da Gama”. Em 2010, o ex-jogador Roberto Dinamite foi eleito para o último de seus cinco mandatos como deputado estadual quando era presidente do clube. Nesta eleição, ele concorreu a vereador pelo PSDC apelando à utilização recorrente da imagem vascaína em seus eventos eleitorais. Com o total de 1.995 votos, não se elegeu.

Já em São Paulo, que há seis anos guindou o presidente corintiano Andrés Sanchez (PT) a deputado federal, a grande aposta pelo voto do eleitor torcedor girou em torno do nome de André Luiz de Oliveira (PSB), ex-vice presidente e atual diretor administrativo do Corinthians. O candidato a vereador, que se apresenta como André Negão, recorre do indeferimento de seu registro pela Justiça eleitoral por falta das certidões de ações criminais. Em 2016, ele foi preso por porte ilegal de arma e citado pela Operação Lava Jato como suspeito de receber propina da Odebrecht na obra da Arena Corinthians, mas não chegou a ser indiciado no processo. Ainda que revertesse a anulação, seus pouco mais de 5.000 votos não seriam suficientes para elegê-lo.

O principal doador da campanha é o economista Sergio Janikian, ex-diretor de futebol alvinegro, que contribuiu com 25.000 reais. Oliveira gravou vídeos com sócios e funcionários apoiadores da candidatura em sua sala no Corinthians, além de usar as dependências do clube, a exemplo do estádio da Fazendinha, como cenário de suas propagandas. Ele dizia contar com o aval de Andrés Sanchez, de quem foi assessor de gabinete durante a passagem por Brasília. Ao ser novamente eleito para o comando da diretoria, no começo de 2018, o atual presidente corintiano descumpriu a promessa de se afastar do cargo de deputado para se dedicar exclusivamente ao clube. Exerceu seu mandato até o fim do ano e não concorreu à reeleição.

Em Belo Horizonte, o ex-presidente do Atlético-MG se reelegeu prefeito da cidade. Alexandre Kalil (PSD) assumiu seu primeiro cargo público após vencer no segundo turno da última eleição o ex-goleiro João Leite (PSDB). Embora tenha feito campanha sob o lema “não sou político”, ele se juntou, há 10 anos, ao eterno rival Zezé Perrella (MDB), ex-presidente do Cruzeiro que também foi deputado e senador, para fazer campanha em favor do então candidato a governador Antonio Anastasia (PSDB). Na tentativa de derrubar seu amplo favoritismo no pleito mais recente, adversários lembraram que Kalil afirmou, na época de dirigente, que jamais pediria votos a cruzeirenses. Hoje, ele afirma ser o “prefeito de todos os belo-horizontinos”.

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