60% dos eleitores brasileiros votariam em um candidato gay à presidência, mostra pesquisa

Levantamento do instituto Atlas divulgado com exclusividade pelo EL PAÍS mostra ainda que, para 24% dos entrevistados, votar em um candidato homossexual é algo impensável e que mulheres são mais progressistas neste sentido do que os homens

Manifestantes participam da Parada do Orgulho Lgbtqia+ em São Paulo, em 18 de julho de 2019.
Manifestantes participam da Parada do Orgulho Lgbtqia+ em São Paulo, em 18 de julho de 2019.Nelson Antoine (AP)
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No Brasil, um dos países onde mais se matam pessoas LGBTQIA+ no mundo ―com uma estimativa de uma vítima da homofobia a cada 23 horas―, 60% dos eleitores afirmam que votariam em um candidato assumidamente gay para a presidência da República. É o que diz o resultado da pesquisa Impacto da orientação sexual dos candidatos sobre a intenção de voto ― Posicionamento político do eleitorado LGBT, realizada pelo Instituto Atlas e divulgada com exclusividade pelo EL PAÍS nesta quarta-feira.

O dado surpreende também tendo em vista que o Planalto atualmente é ocupado por Jair Bolsonaro, um mandatário que se notabilizou por uma série de comentários homofóbicos ao longo da carreira política. Para 24% dos entrevistados, no entanto, votar em um candidato homossexual ainda é algo impensável, e 17% disseram não saber se votariam ou não. Foram ouvidas 2.884 pessoas entre os dias 26 e 29 de julho. O estudo tem margem de erro de 2 pontos percentuais, para mais ou para menos.

Atualmente no Brasil poucos chefes dos Executivos municipais ou estaduais se declaram como sendo LGBTQIA+. Recentemente, o governador do Rio Grande do Sul, Eduardo Leite (PSDB), se assumiu gay. O tucano recebeu apoio no meio político, mas foi criticado por ter apoiado Bolsonaro no segundo turno das eleições em 2018. Na ocasião do posicionamento de Leite sobre sua homossexualidade, o ex-deputado Jean Wyllys lembrou que a governadora do Rio Grande do Norte, Fátima Bezerra (PT), também é homossexual e mencionou a luta da petista contra a homofobia. Ela, por sua vez, manifestou apoio ao gesto do tucano: “Na minha vida pública ou privada nunca existiram armários. Sempre demarquei minhas posições através da minha atuação política, sem jamais me omitir na luta contra o machismo, o racismo, a LGBTfobia e qualquer outro tipo de opressão”, escreveu em suas redes sociais.

No restante da América do Sul existem ao menos dois chefes do Executivo homossexuais: Claudia López Hernández, prefeita de Bogotá, na Colômbia, e Gustavo Melella, governador da província de Tierra del Fuego, na Argentina. Na Europa a presença de pessoas abertamente LGBTQIA+ nos Governos é mais comum: Bélgica, Irlanda, Finlândia, Luxemburgo e Sérvia já tiveram primeiros-ministros gays e lésbicas. Por outro lado, o continente europeu vê com preocupação o avanço de propostas de lei homofóbicas na Hungria do ultradireitista Viktor Órban, sobre as quais vários líderes da UE já se posicionaram contra.

Com relação ao apoio a políticos LGBTQIA+, a pesquisa do Instituto Atlas aponta que as mulheres se mostram mais progressistas: na segmentação por gênero, 69% delas afirmaram que votariam em um candidato homossexual, ante 50% entre os homens. Apenas 19% das entrevistadas afirmaram que não escolheriam um candidato abertamente gay, que teria também a rejeição de 29% dos homens ouvidos pelo levantamento.

Já quando se analisa o recorte por religião, os evangélicos —que integram uma das principais bases de apoio de Bolsonaro e respondem por cerca de 30% dos mais de 210 milhões de brasileiros— se mostram mais conservadores neste sentido: 42% deles afirmam que não votariam em um candidato gay, ante 17% de negativas entre os católicos, 14% de outras religiões e 7% de agnósticos e ateus. Já os que responderam que ajudariam a eleger um homossexual, 76% são de outras religiões, 74% agnósticos ou ateus, 66% católicos e 38% evangélicos.

Mas apesar de tenderem ao conservadorismo, os evangélicos se encontram divididos atualmente. “Este público ainda é um reduto do bolsonarismo [70% dessa fatia da população votou em 2018 em Bolsonaro], aliás um dos mais consistentes. Mas não pode ser considerado um público completamente fechado a outras ideias e opiniões políticas, tampouco agem e votam em bloco. É importante notar, inclusive, que o Lula vem recuperando espaço com bastante fôlego neste segmento”, afirma o cientista político Andrei Roman, CEO do Atlas.

Os mais escolarizados também se mostram mais propensos a escolher um candidato gay para a presidência da República: 73% das pessoas com ensino superior ouvidas no levantamento se disseram dispostas a eleger uma pessoa homossexual, ante 60% com ensino médio e 51% com o ensino fundamental. Esta tendência se inverte entre os que afirmam que não votariam em gays, com os entrevistados que cursaram até o ensino fundamental formando maioria (com 27%), ante 25% de rejeição entre quem tem o ensino médio, e 16% dos ouvidos com ensino superior.

Isso indica a importância da educação “no sentido de quebrar barreiras e resistências dentro da sociedade, principalmente com relação à aceitação da diversidade”, diz Roman. “À medida em que as pessoas têm mais informações a respeito do tema e fazem parte de um meio onde se discute esses assuntos de forma mais aprofundada, essa resistência [a um candidato gay] tende a diminuir”, afirma.

A pesquisa Atlas também perguntou se o fato de um candidato à presidência assumir ser gay teria algum impacto para os eleitores. Dentre os entrevistados, 67% disseram que tal fato não teria impacto algum em sua escolha, enquanto que para 24% isso diminuiria a chance de votar neste político. Apenas 9% afirmaram que isto aumentaria a chance de escolherem este candidato.

O levantamento mostra ainda que o presidente Bolsonaro tem recorde de desaprovação entre os entrevistados que se declaram homossexuais: 94% deles não acham que o mandatário faz um bom Governo, ante 61% de rejeição entre os heterossexuais. Dentre os que aprovam a gestão, 37% são héteros e 6% são homossexuais. Os entrevistados LGBTQIA+ também apoiam com mais peso o impeachment do presidente: 91% são a favor do afastamento de Bolsonaro, ante 54% entre os entrevistados que se declaram heterossexuais. Apenas 7% dos homossexuais ouvidos são contra o impeachment (número que salta para 42% entre os entrevistados héteros).

Seguindo esta tendência antibolsonarista entre os entrevistados homossexuais, o ex-presidente Lula (PT) é o candidato favorito de 63% desta parcela da população no primeiro turno das eleições de 2022. O petista tem ainda a preferência de 38% dos heterossexuais ouvidos no levantamento. O atual presidente fica na segunda colocação, com o voto de 37% dos heterossexuais e de 6% dos homossexuais. Ciro Gomes (PSB) tem a preferência de 7% dos homossexuais e de 6% dos heterossexuais, e João Doria (PSDB) de 6% e 3% destas populações, respectivamente. O governador do Rio Grande do Sul, Eduardo Leite (PSDB) é o favorito de 4% dos homossexuais ouvidos no levantamento do instituto Atlas, e 3% dos heterossexuais. Para Andrei Roman, CEO do Atlas, o pouco engajamento da população LGBTQIA+ com uma eventual campanha de Eduardo Leite ao Planalto pode ter relação com o fato de que o tucano nunca apoiou abertamente as causas da diversidade: “Isso indica que a população gay tem um pé atrás com relação a ele, porque ele não fez da defesa de direitos deste segmento da sociedade uma parte central de sua trajetória política”, avalia.

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