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Brasil levará anos para reverter a desmoralização da diplomacia

Saída de Ernesto Araújo retirou dos holofotes um integrante do grupo bolsonarista mais dedicado à agenda anti-institucional dos aliados fiéis do presidente

O ex-chanceler Ernesto Araújo e o ministro Ricardo Salles (Meio Ambiente) em evento no Planalto em julho de 2020.
O ex-chanceler Ernesto Araújo e o ministro Ricardo Salles (Meio Ambiente) em evento no Planalto em julho de 2020.ADRIANO MACHADO / Reuters

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Na lista de demissões anunciada de surpresa nesta segunda-feira, com o troca-troca no ministério do Governo Jair Bolsonaro, um nome brilha por sua ausência: o do ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles. Trocar a incompetência de Ernesto Araújo pela discrição do assessor especial da Presidência, ex-chefe do Cerimonial, embaixador Carlos Alberto Franco França, não resolve um dos principais problemas apontados por empresários e parlamentares nas relações externas do Brasil: o grande descrédito do país no campo ambiental, alimentado por Salles, que ameaça investimentos e o comércio do país.

Com habilidade política que falta ao ex-colega demitido da Esplanada, Salles concentrou em suas mãos a agenda ambiental internacional, o tema de maior visibilidade e importância para a diplomacia neste ano. Desse tema dependem o acordo de comércio firmado com a União Europeia e o estabelecimento de relações com o Governo de Joe Biden, nos Estados Unidos, até recentemente alvo de hostilidade nos Palácios do Planalto e do Itamaraty. Salles tem conversado com pesos-pesados do agronegócio e lhes garantido que abriu uma porta de acesso promissora com o enviado especial para questões climáticas dos EUA, John Kerry, um dos mais prestigiados integrantes do novo Governo norte-americano.

Em reunião, há cerca de 15 dias, com representantes do setor rural, Salles garantiu que, em fevereiro, no encontro virtual mantido por ele e Araújo com o enviado norte-americano, conseguiu a simpatia de Kerry para acordos em torno de medidas ambientais, incluindo o financiamento de ações na Amazônia. Essas ações, insiste, devem levar em consideração a manutenção de atividades econômicas pela população local. Em tom otimista, expôs sua intenção de obter dos EUA concessões em torno das medidas previstas no Acordo de Paris para permitir a negociação de créditos de carbono, que financiariam iniciativas de manutenção das florestas.

Os empresários saíram divididos dessa reunião, que teve a presença da ministra da Agricultura, Tereza Cristina. Há os que classificam de “engodo” as expectativas otimistas de Salles. Há quem compartilhe com ele a expectativa de que o pragmatismo do Governo Biden permitirá que os eventos internacionais relacionados à discussão do aquecimento global neste ano sejam oportunidade para o Brasil divulgar dados capazes de vencer a crescente convicção na comunidade internacional de que o país se tornou um vilão do meio ambiente.

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Um desses eventos será o primeiro desafio para o novo ministro de Relações Exteriores e se realizará em menos de um mês: a Cúpula dos Líderes sobre o Clima, marcada por Biden para 22 e 23 de abril, de forma virtual. Bolsonaro foi convidado, e negociadores experientes acreditam que o Governo Biden, mais que obter concessões expressivas do Governo brasileiro, tenta fazer com que o Brasil não crie obstáculos a um acordo por medidas concretas de redução do aquecimento global, na reunião sobre meio ambiente das Nações Unidas marcada para o fim do ano em Glasgow, na Escócia, a COP26.

Salles pretende levar seu conjunto de dados que enfatizam números positivos e escondem os negativos, como a afirmação, repetida sempre por ele, de que o Brasil é responsável por apenas 3% da emissão de gases de efeito estufa. Ele não menciona, porém, que, com o crescimento persistente do desmatamento nos últimos anos, que chegou a um recorde no Governo Bolsonaro, o Brasil se situa, hoje, entre os 10 maiores emissores desses gases responsáveis pelo aquecimento global, principalmente por causa do desmatamento.

Os governistas argumentam que, apesar do crescimento de 43% do desmatamento em fevereiro, em relação a janeiro deste ano, essa perda da floresta é 34% menor do que a registrada em fevereiro do ano passado. O indicador de desmatamento de 2021, porém, que é apurado entre agosto de 2020 e julho e 2021, é desanimador e já mostra que, na série histórica iniciada em 2015, a área de devastação da floresta só não é maior que a taxa registrada nos 12 meses encerrados em julho do ano passado.

Embaixadores europeus estiveram no início de março com a ministra Tereza Cristina e alertaram para os riscos de reputação do Brasil com a insistência em minimizar os efeitos da redução da fiscalização ambiental e o aumento no desmatamento. A saída de Ernesto Araújo, que caiu após criar barreiras ao diálogo com parceiros importantes como a China e países europeus, retirou dos holofotes um integrante do grupo bolsonarista mais dedicado à agenda anti-institucional dos aliados fiéis do presidente. Mas, na avaliação de diplomatas experientes, o Brasil levará anos para reverter a desmoralização da diplomacia, pelos discursos e ações de Araújo contra organismos como as Nações Unidas e a Organização Mundial de Saúde (OMS).

Os senadores que pressionaram Bolsonaro pela queda de Araújo, capitaneados pela presidente da Comissão de Relações Exteriores do Senado, Kátia Abreu (PP-TO), também reivindicaram a saída de Salles. Antes visto com defensor dos ruralistas, ele hoje é visto como um dos responsáveis pela má imagem do Brasil no exterior, que leva a riscos de boicote de produtos e exclusão do Brasil da carteira de fundos de investimento cada vez mais orientados aos princípios ESG, da sigla em inglês para meio ambiente, sustentabilidade e governança.

No mesmo dia em que Salles escapou da minirreforma ministerial, um porta-voz do Departamento de Estado dos EUA, falando na condição de anonimato, informou que Biden exigirá do Brasil resultados concretos na redução do desflorestamento, antes de garantir ao país recursos do pacote de 20 bilhões de dólares planejado por Biden para conter o desmatamento na Amazônia.

O protagonismo de Salles, que Bolsonaro se recusa a demitir, deixa dúvida sobre o papel destinado ao novo chanceler, embaixador Carlos Alberto França, que traz uma marca comum a outros recém-nomeados nesta lista de segunda-feira: a proximidade com a família Bolsonaro. No caso dele, é uma proximidade fortuita, construída com sua nomeação para a chefia do cerimonial da presidência no início do Governo, que que o tornou companhia constante do presidente em eventos e viagens palacianas.

França estava com Bolsonaro em sua primeira viagem presidencial, ao Fórum Econômico Mundial de Davos e, promovido a chefe da assessoria especial do presidente, continuou como figura constante em compromissos do chefe de Estado, como na reunião de cúpula do Mercosul, feita por via remota na sexta-feira.

Desde sua atuação como chefe do cerimonial, tornou-se uma espécie de conselheiro do presidente para temas internacionais e costumava estar presente —às vezes como único acompanhante de Bolsonaro— em reuniões do presidente com seus ministros para tratar de assuntos que envolvessem política externa. Não raramente, ficava calado, tomando notas. Discreto, o posto mais alto que já ocupou na diplomacia foi o de segundo no comando da embaixada do Brasil na Bolívia. De temperamento cordial, caiu na simpatia também do filho 03, Eduardo Bolsonaro, e do assessor internacional do presidente, Filipe Martins, ambos os principais influenciadores das ações do presidente no campo das relações internacionais.

Em um dia confuso, marcado pela demissão do ministro da Defesa, sinais de insatisfação dos militares e recomposição do ministério para preencher vagas com pessoas mais próximas à família Bolsonaro, o saldo na diplomacia foi a inédita nomeação desse diplomata de carreira sem destaques para o posto mais alto do ministério das Relações Exteriores; e a manutenção, não só de Salles, como do assessor internacional Filipe Martins, que afrontou os senadores fazendo gestos considerados de conotação obscena e supremacista, pelas costas do presidente do Senado, Rodrigo Pacheco.

Bolsonaro, na diplomacia, afastou seu elemento mais histriônico, mas deu mostras de que confia no famoso conselho inscrito na obra de Giusepe Tomaso di Lampedusa de que “tudo deve mudar para que continue como está”. Estamos, no caso, com conselheiros palacianos que veem a política externa apenas como forma de manter acesa a militância bolsonarista para garantir uma base eleitoral em 2022; e um ministro do Meio Ambiente ainda mais poderoso que considera inimigas as organizações ambientais da sociedade civil e está disposto a enfrentar com sofismas e tabelas incompletas os apelos cada vez mais irritados de financiadores, investidores e consumidores por maior proteção à vegetação nativa no Brasil.

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