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Fora, Ernesto

O chanceler brasileiro foi extremamente eficiente em cumprir o mandato que recebeu. Foram dois anos de destruição deliberada da política externa e de uma visão de mundo

Ernesto Araújo em audiência sobre a busca por vacinas contra a covid-19 no Senado, em 24 de março. A reunião foi realizada na sala de controle da Secretaria de Tecnologia da Informação (Prodasen), de forma virtual.
Ernesto Araújo em audiência sobre a busca por vacinas contra a covid-19 no Senado, em 24 de março. A reunião foi realizada na sala de controle da Secretaria de Tecnologia da Informação (Prodasen), de forma virtual.Waldemir Barreto / Agência Senado

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Humilhado, Ernesto Araújo gaguejava ainda mais do que de costume. Em uma audiência de mais de quatro horas nesta quarta-feira no Senado, o chefe da diplomacia brasileira mostrou de uma maneira inequívoca e em cada resposta que não tem condições de liderar o braço internacional de um país de dimensões globais.

Nunca teve, e o mundo sempre soube disso. Agora, numa audiência transmitida ao vivo, o brilho na testa do chanceler enquanto ele falava era apenas um sintoma de um constrangimento histórico.

A reunião testemunhou um desfile de senadores esculachando o diplomata, numa fritura pouco vista com um representante do Itamaraty. “O senhor não tem condições de ser ministro nem do reino de Tonga”, afirmou o senador Randolfe Rodrigues (Rede-AP). “Pede para sair”, pediu a senadora Mara Gabrilli (PSDB-SP).

“Pelos brasileiros, renuncie ao ministério”, insistiu o senador Tasso Jereissati (PSDB-CE). “O senhor está no lugar errado. Vá para um ministério ideológico”, completou a senadora Simone Tebet (MDB-MS).

Acusado de “agredir a todos e de forma gratuita”, o ministro ouviu recomendações sobre como ser um diplomata. Outros optaram por qualificar Araújo de “office boy de luxo”. Inconformado, o senador Humberto Costa (PT-PE) perdeu a paciência e avisou que deixaria a reunião. “Não é possível continuara a ouvir esse cidadão”, disse. “O senhor atrapalha mais que ajuda”, completou o senador Jean-Paul Prates (PT-RN).

Do outro lado, a opção por Araújo foi por frases desconcertadas, vazias e, quando muito, completas. Divagou e não explicou, num reflexo do que foram seus dois anos no cargo e numa administração que transformou a posição do Brasil do mundo.

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A audiência no Senado não trouxe novidades sobre a chegada de vacinas, nem sobre como o Governo pensa em salvar vidas. Não houve um sinal de arrependimento e nem o reconhecimento de erros, como fez Angela Merkel horas antes por uma decisão equivocada.

A audiência ainda foi marcada por um gesto do assessor especial da presidência, Filipe Martins, interpretada como um sinal dos supremacistas brancos. O Senado afirmou que uma investigação seria feita. Mas, nas redes sociais, o assessor chamou quem o criticou de “palhaços”, “mentes doentias” e qualificou a oposição de “decadente”. Isso tudo enquanto o destino da nação ―de joelhos neste momento― era alvo de um debate.

Uma vez mais, o que ocorreu no Senado revelou que o interesse nacional jamais esteve sobre a mesa do chanceler. Mas engana-se quem opte por tratar tais figuras como “alucinados” ou “despreparados”.

Araújo foi extremamente eficiente em cumprir o mandato que recebeu. Foram dois anos de destruição deliberada da política externa e de uma visão de mundo. Tudo isso em gestos cuidadosamente estabelecidos e coordenados com aliados na ultradireita pelo planeta, num plano ambicioso.

Sua permanência como chanceler, portanto, não é apenas um vexame nacional, um atalho fácil para as críticas da oposição.

Hoje, ele é uma ameaça à democracia, à saúde de um povo e ao interesse nacional.

Jamil Chade é correspondente na Europa desde 2000, mestre em relações internacionais pelo Instituto de Altos Estudos Internacionais de Genebra e autor do romance O Caminho de Abraão (Planeta) e outros cinco livros.

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