Governo Bolsonaro

Dependente do Centrão, Bolsonaro vê aumentar a pressão para demitir Ernesto Araújo

Governo corteja Arthur Lira para amenizar críticas do presidente da Câmara. Na quarta-feira, o deputado disse que, diante da pandemia, podiam ser aplicados “remédios políticos amargos”

Ernesto Araújo no dia 2 de março, em Brasília.
Ernesto Araújo no dia 2 de março, em Brasília.ADRIANO MACHADO / Reuters

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O presidente Jair Bolsonaro está cada vez mais dependente do Centrão, o fisiológico grupo de seus aliados de centro-direita que passou a agir nos bastidores para tentar mudar os rumos do Governo no combate à pandemia de covid-19 e ampliar sua participação em cargos. Depois de o presidente da Câmara e líder do Centrão, Arthur Lira (PP-AL), ter dado um ultimato ao presidente com a ameaça de aplicar “remédios políticos amargos”, uma referência indireta que não descarta a análise de um pedido de impeachment, iniciou-se uma romaria para tentar agradá-lo. Foi uma espécie de cortejo.

Um dos que foi pedir guarida a Lira foi o chanceler Ernesto Araújo, que vem sendo alvo de aliados e de opositores. Araújo se reuniu com o presidente da Câmara na residência do deputado para tentar obter apoio para a sua manutenção no posto máximo do Itamaraty. Não obteve nenhuma sinalização positiva. No dia anterior, Araújo ouviu ao menos seis senadores pedirem sua demissão durante uma audiência em que ele tentava explicar a atrapalhada ação do Brasil na aquisição de vacinas e insumos para o imunizante contra o coronavírus.

A pressão dos senadores acabou sendo sintetizada pelo presidente da Casa, Rodrigo Pacheco (DEM-MG). “Considero que nós tivemos muitos erros no enfrentamento dessa pandemia. Um deles foi o não estabelecimento de uma relação diplomática, de produtividade, com diversos países, que poderiam ser colaboradores nesse momento agudo de crise que nós temos no Brasil. Então, ainda está em tempo de mudar para poder salvar vidas”, disse.

Lira ainda foi chamado para uma reunião de última hora com Bolsonaro no Palácio do Planalto na qual o que mais contaram foram os gestos feitos pelo mandatário do que pelo teor das conversas. Após o encontro, o presidente acompanhou Lira até o seu carro, passando por jornalistas apenas para dizer que entre eles não havia rusgas. “Eu conversei com o Lira, não tem problema nenhum entre nós, zero problema. Conversamos sobre muitas coisas. O que nós queremos juntos é buscar maneira de contratarmos mais vacinas”, amenizou Bolsonaro.

Um assessor neonazista

Na prática, contudo, o dia foi marcado por tentativas de minar o chamado núcleo ideológico da presidência, como se convencionou batizar os ministros mais conectados com as bandeiras de extrema direita e com a base radicalizada do bolsonarismo. Além de Araújo outro alvo de congressistas é Filipe Martins, o assessor internacional da Presidência da República que foi flagrado fazendo gesto neonazista durante uma audiência no Senado Federal na quarta-feira. O sinal era o similar ao OK feito com uma das mãos, ato que ficou marcado pelos que se autodenominam supremacistas brancos. Pelas redes sociais, Martins negou o ato e alegou que estava ajustando a lapela de seu paletó.

Uma investigação foi aberta pela Polícia Legislativa. “Vendo as imagens, nós identificamos um gesto completamente inapropriado para o ambiente do Senado Federal. Nós queremos repudiar todo e qualquer ato que envolva racismo ou discriminação de qualquer natureza”, disse o senador Pacheco. Martins e Araújo estão nos cargos com o apoio do escritor Olavo de Carvalho, o guru do bolsonarismo.

Essas pressões do Congresso, acabaram se confirmando no discurso de despedida que o general Eduardo Pazuello fez na quarta-feira para um grupo restrito de assessores do Ministério da Saúde. Ele saiu atirando. Em um vídeo obtido pela revista Veja, Pazuello desabafa com esses auxiliares ao lado do novo ministro, Marcelo Queiroga. Na ocasião, ele diz que foi boicotado por médicos da pasta e que havia políticos que lhe pediam “dinheiro politicamente”, que ele apelidou de “pixulé”.

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Na sua fala, o militar afirmou que se recusou a atender pedidos de pessoas cujos nomes constavam numa lista enviada ao ministério por “uma liderança política”. “Ali começou a crise com a liderança política que nós temos hoje”, declarou. “Aí chegou no final do ano, uma carreata de gente pedindo dinheiro politicamente […]. Foi outra porrada, porque todos queriam o pixulé”.

O movimento contra Bolsonaro no Parlamento também tem sido marcado por cobranças diretas a outros ministros. Nesta semana, além de Araújo foram prestar contas no Legislativo a ministra da Agricultura, Tereza Cristina, e o ministro da Economia, Paulo Guedes.

Nas próximas semanas, haverá um périplo pela Câmara, quando serão interpelados pelos deputados em comissões temáticas os ministros Marcelo Queiroga (Saúde), Walter Braga Netto (Casa Civil), Rogério Marinho (Desenvolvimento Regional), João Roma (Cidadania), Fernando Azevedo (Defesa) e Guedes, novamente, além do general Edson Leal Pujol, que é o comandante do Exército. Na pauta estarão temas como o combate à covid-19, o pagamento de auxílio emergencial, o suposto lobby que um dos filhos do presidente, Jair Renan Bolsonaro, tem feito em Brasília, e sobre a tentativa das Forças Armadas interferirem em julgamento no Supremo Tribunal Federal em 2018.

Ainda que esteja diante de ataques, na prática a base bolsonarista ainda não o abandonou. Nesta quinta, a Câmara aprovou o texto-base do orçamento geral da União de 2021. A votação acabou com 346 votos contra 110. As receitas foram estimadas em 4,324 trilhões de reais.

O presidente, no entanto, já deu mostras que, apesar da pressão, não irá ceder em seu discurso contra medidas de isolamento social na contenção da pandemia. A questão é até quando durará a a paciência de Lira e da base. A apoiadores e em transmissão nesta quinta-feira, ele distorceu uma declaração da chanceler alemã Angela Merkel, que voltou atrás em sua decisão de fazer um rígido confinamento na Semana Santa no país. Bolsonaro disse que Merkel desistiu por reconhecer os prejuízos econômicos da medida, mas a alemã afirmou que foi obrigada a recuar apenas porque o plano de endurecer as regras não foi feito com antecedência necessária.

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