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“Todo pardo é mau-caráter”: torcida do Santos cobra expulsão de conselheiro por áudio racista

Afastado de cargo na Prefeitura após episódio de racismo, Adilson Durante Filho já foi dirigente do clube que revelou craques como Neymar

“O pardo não é aquele negão, nem o branquinho. É o moreninho.” Assim, Adilson Durante Filho, 38 anos, secretário-adjunto de Turismo de Santos, no litoral paulista, introduz o áudio enviado a um grupo de amigos no WhatsApp que vazou na noite desta quarta-feira e foi repercutido por um programa na Rádio da Vila. “Esses caras [pardos], tem que desconfiar de todos. Essa cor é a mistura de uma raça que não tem caráter. É verdade, isso é estudo. Tem que tomar cuidado com todo pardo, todo mulato. Os pardos brasileiros são todos mau-caráter. Não tem um que não seja”, discorre o funcionário da Prefeitura, sem demonstrar constrangimento pelo discurso abertamente racista ao longo de 53 segundos de gravação.

Durante Filho afirma que o áudio é antigo, “de alguns anos atrás”, mas não entra em detalhes sobre o contexto da conversa nem esclarece se fazia referência a uma pessoa específica. Em comunicado enviado ao EL PAÍS, ele assume a autoria da gravação e se diz arrependido das falas racistas. “Em um momento de infelicidade e levado pela emoção, em decorrência de um fato que muito me abalou, acabei expressando de forma absolutamente diversa das minhas crenças e modo de agir”, explica o secretário. “Jamais tive a intenção de atingir quem quer que seja, até porque assim me manifestei em um pequeno grupo de supostos amigos de WhatsApp. Consigno que não tenho qualquer preconceito em razão de cor, raça ou credo, pois minha criação não me permitiria ser diferente. Peço, humildemente, desculpas a todos que se sentiram ofendidos e expresso meu mais profundo arrependimento quanto às palavras genericamente proferidas.”

Nesta quinta-feira, a vereadora Telma de Souza (PT), presidente da Comissão de Direitos Humanos da Câmara de Santos, cobrou uma atitude da Prefeitura diante das declarações discriminatórias de seu secretário-adjunto. “Exijo que o Governo Municipal se pronuncie e providências sejam tomadas. Racismo é crime e não condiz com a função pública exercida. Não podemos aceitar que o ódio e o preconceito reverberem em nossa cidade.”

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Adilson Durante Filho é ex-dirigente e conselheiro do Santos. Reprodução

Antes de ganhar um cargo na secretaria de Turismo, em 2013, Adilson Durante Filho foi assessor comissionado do prefeito Paulo Alexandre Barbosa (PSDB) na Assembleia de São Paulo, entre 2007 e 2011, na época em que ele era deputado estadual. O chefe do executivo municipal, que se declara afrodescendente, anunciou em nota o afastamento de Durante Filho “para que possa prestar os devidos esclarecimentos decorrentes da sua manifestação”, ressaltando que a remuneração de 19.000 reais do funcionário estará suspensa enquanto durar a licença. Gilberto Kassab, presidente do PSD, legenda à qual o secretário é filiado desde 2015, promete recomendar a abertura de procedimento disciplinar para sua expulsão do partido.

Durante Filho também é conselheiro do Santos Futebol Clube. Entre 2002 e 2009, integrou a diretoria santista e chegou a gerenciar as categorias de base quando Neymar ainda despontava como uma revelação. Por meio de nota, o Santos repudiou o áudio de seu conselheiro. “O time mágico de Pelé, Pepe, Coutinho, Zito e tantos outros gênios do futebol espalhou aquela maravilhosa imagem de brancos e negros se abraçando para comemorar gols que encantavam o mundo. Até hoje mantemos acesa essa tradição. Assim, é muito triste que tantas décadas depois tenhamos de vir a público reafirmar nosso absoluto repúdio a qualquer forma de discriminação e racismo.”

Enquanto a torcida alvinegra protesta nas redes sociais com a hashtag #ExpulsaORacista, um grupo de conselheiros do clube pretende abrir procedimento interno contra Durante Filho por causa do áudio. As punições previstas no estatuto do Santos vão de advertência ao banimento do quadro de sócios. Marcelo Teixeira, presidente do Conselho Deliberativo e mandatário do clube no período em que Durante Filho trabalhou como diretor, diz aguardar o posicionamento dos conselheiros para avaliar qual medida administrativa será tomada.

A pedido do EL PAÍS, o advogado Silvio Almeida, doutor em Teoria Geral do Direito pela USP e presidente do Instituto Luiz Gama, que promove direitos da população negra e minorias, analisou o áudio e explica que Adilson Durante Filho pode ser alvo de uma ação civil pública, em que pese a gravação ter sido publicada originalmente num grupo de WhatsApp. “O que ele disse é crime de racismo, cruza gravemente uma linha entre civilidade e desumanidade. Nessas circunstâncias, pedir desculpa ‘a todos que se sentiram ofendidos’ soa como cinismo, já que a fala dele ofende toda coletividade negra.”

Para o advogado, a menção de Durante Filho a um suposto estudo científico ao justificar a estigmatização de pessoas pardas revela como o preconceito racial está enraizado na sociedade brasileira. “Esse tipo de discurso, apontando a raça como um elemento de degradação humana, remete ao século XIX. Ainda há muitas expressões semelhantes em nosso cotidiano, mas elas raramente ganham repercussão.”

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