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Uma eleição que demoliu todos os padrões de campanha no Brasil

Tempo de propaganda na TV, quantidade de recursos e peso de medalhões foram postos em questão.

Ferramentas de comunicação e turbulência política influenciaram diretamente nos resultados

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Apoiadores de Jair Bolsonaro celebram resultado na avenida Paulista e protestam contra a urna eletrônica. AP

Éneas Carneiro se estabeleceu no folclore político nacional por conta dos breves 15 segundos que tinha para passar sua mensagem no horário eleitoral gratuito. Quase 30 anos depois daquela eleição de 1989 em que o Brasil conheceu o candidato do Prona, um presidenciável com metade de seu tempo de propaganda na tevê passou ao segundo turno com 46,03% dos votos. Os oito segundos do deputado Jair Bolsonaro (PSL-RJ) eram 39 vezes mais breves do que os 5 minutos e 33 segundos de Geraldo Alckmin (PSBD), que terminou o primeiro turno na humilde quarta colocação, com apenas 4,76% dos votos, apesar de reunir a maior coligação da corrida presidencial, com nove partidos, e de ter acesso a 185,8 milhões de reais de fundo eleitoral —o PSL, de Bolsonaro, recebeu 9 milhões de reais. Esse e outros resultados do primeiro turno desta eleição não respeitaram os padrões estabelecidos durante as últimas décadas. E talvez esses padrões nunca voltem a existir, avisa o cientista político Carlos Melo.

“A evolução tecnológica criou o que [Sérgio] Abranches chamou de Era do Imprevisto. Tudo flui, nada permanece. Mudanças muito rápidas, em curtíssimo espaço de tempo e com muita profundidade. Não sei o que dizer mais, se vai ficar algo desta eleição para a de 2022... O futuro é muito incerto", diz o professor do Insper, mencionando o destaque alcançado por ferramentas de comunicação como o WhatsApp na campanha. Segundo ele, o fenômeno é global. "A gente nunca imaginou que caminhoneiros fossem capazes de fazer uma greve como a que fizeram. Imagino que, se permanecer essa tecnologia, ela deva ser mais bem compreendida e incorporada na próxima eleição. Espera-se que não exista mais essa volatilidade em 2022, mas quem pode afirmar isso?", questiona Melo.

Outro paradigma revertido nestas eleições foi a importância de medalhões históricos no Congresso. A Câmara Federal passou neste ano pela maior renovação desde 1994, com 52% de mudanças, acima dos 40% projetados pelo Departamento Intersindical de Assessoria Parlamentar (Diap). A renovação no Senado, de 87%, foi ainda mais expressiva. A eleição deixou de fora medalhões como o atual presidente do Senado, Eunício Oliveira (MDB-CE), além de Cassio Cunha Lima (PSDB-PB), vice-presidente da Casa, e Cristovam Buarque (PPS-DF) —dos nomes históricos do Congresso, Renan Calheiros (MDB-AL) foi um dos únicos a se reeleger. Alguns deles deixarão o Congresso Nacional por conta das turbulências que tomaram conta da política brasileira nos últimos anos, capitaneadas pela Operação Lava Jato e pelo impeachment da presidenta Dilma Rousseff, que está entre os derrotados na eleição deste ano.

Para o cientista político Jairo Pimentel Jr., um dos grandes determinantes para o desfecho da eleição foi a falta de referência para o eleitor. “Importaram menos as questões relativas à avaliação de governo. Era consensual que o [presidente Michel] Temer tinha um Governo ruim, seja para a direita ou para a esquerda. Quando os eleitores perdem a referência, tudo pode acontecer”, diz o pesquisador do Centro de Política e Economia do Setor Público (Cepesp/FGV). Foi nessas condições que o partido Novo, que disputou sua primeira eleição, conseguiu eleger oito deputados federais e colocou seu candidato ao Governo de Minas Gerais, Romeu Zema, no segundo turno. Outro resultado surpreendente: a Rede, cuja candidata à presidência, Marina Silva, teve menos votos que Cabo Daciolo (Patriota), terá uma bancada com cinco senadores, mas apenas um deputado federal.

Assim, enquanto o PSDB teve sua bancada reduzida de 49 para 29 deputados, com a perda do maior número de parlamentares na Câmara, e ainda luta para eleger pelo menos um governador, o PSL surfou na onda Bolsonaro para saltar de um deputado eleito em 2014 para 52 neste ano, o maior crescimento. Segundo Pimentel Jr., as campanhas dos partidos, cuja probabilidade de influenciar no resultado da eleição costuma ser calculada em torno de 10%, fizeram menos diferença neste ano, e isso inclui a tevê — é a primeira vez desde a redemocratização que um candidato com um dos menores tempos de propaganda passa para o segundo turno. "O Brasil e o mundo são outros nos últimos quatro anos", resume Carlos Melo.

"Em 2014, quem se elegeu foi a Dilma, e o segundo colocado foi o Aécio [Neves]. A Dilma não se elegeu senadora neste ano e o Aécio teve de ser candidato a deputado federal para não perder o foto privilegiado. Aconteceu de tudo: impeachment, Lava Jato, muita denúncia, muito desalento, estourou a violência urbana. O Estado mais simbólico do país, o Rio de Janeiro, está sob intervenção do Governo federal por conta da violência", resume o cientista político, que segue: "O maior líder popular da história do Brasil está preso. O presidente da República exerce mandato porque conseguiu um abrigo da Câmara dos Deputados e porque o TSE [Tribunal Superior Eleitoral] o protegeu". Para Melo, comparar a eleição atual com a anterior não faz sentido, porque todas as condições são diferentes.

Gastos de campanha

Apesar de todas as mudanças e surpresas, o poder financeiro seguiu, em alguns casos, predominando nesta eleição, que não contou com doações de empresas, mas com um fundo eleitoral público. A deputada mais votada no Distrito Federal, por exemplo, foi Flávia Arruda (PR), mulher do ex-governador José Roberto Arruda e dona do maior orçamento na disputa regional, com 2,4 milhões de reais repassados pelo partido —ela declarou gastos de 1,38 milhões de reais. Já Marcel Van Hattem (Novo), cujo partido tem como política não usar o fundo partidário, se elegeu para a Câmara Federal com o maior número de votos no Rio Grande do Sul gastando 423.020 reais — ele declarou 719.742, 75 reais em doações recebidas. O segundo colocado no Estado, Onyx Lorenzoni (DEM), teve 166.337 votos a menos que o novato Hattem, mas gastou mais do que o dobro: 956.679,17 de reais.

Por outro lado, a candidata a deputada estadual mais votada da história em São Paulo, Janaína Paschoal (PSL), só precisou gastar 27.949 reais para receber 2 milhões de votos. E os 2 milhões de reais gastos pelo senador Romero Jucá (MDB) não foram suficientes para mantê-lo no cargo pelo sétimo mandato consecutivo. Faltaram 426 votos para ele superar Mecias de Jesus (PRB), o segundo colocado na corrida pelo Senado em Roraima. Líder no Senado dos governos Fernando Henrique Cardoso, Luiz Inácio Lula da Silva, Dilma Rousseff e Michel Temer, Jucá pode ser considerada uma das vítimas da Lava Jato e da impopularidade recorde do atual presidente nesta campanha.

O senador ficou marcado, no início do Governo Temer, em maio de 2016, por comentar em gravação vazada que era preciso "estancar a sangria" provocada pela operação. A Lava Jato também acertou em cheio candidaturas como a o ex-governador Beto Richa (PSDB), que chegou a ser preso durante a campanha e não conseguiu se eleger ao Senado. Outro ex-governador, Anthony Garotinho (PR), ficou de fora da eleição no Rio de Janeiro por conta de uma condenação por improbidade administrativa, em um dos vários casos em que juízes e procuradores influíram diretamente na eleição.

A operação policial que dita os rumos da política nacional desde 2014 desarrumou a dinâmica partidária estabelecida desde a redemocratização, enfraquecendo os polos PT e PSDB. "Os eleitores sempre buscam simplificar a realidade para tomar uma decisão, porque a realidade é muito complexa. O que fica no meio termo acaba perdendo força para os polos binários enquanto referência. Se o Bolsonaro ou o PSL vão conseguir consolidar isso, é um dúvida. Leva tempo. O fato é que o PSDB perdeu essa força de polarização com o PT, diz Jairo Pimentel Jr.

O cientista político lembra que a próxima eleição já não terá coligações para cargos proporcionais e que a cláusula de barreira será mais rígida, o que deve contribuir para a simplificação do sistema político. "O ideal é que a dinâmica partidária seja mais estável, para que o eleitor tenha referências de longo prazo, de como os partidos pensam e atuam, tanto no Governo quanto na oposição", diz, acrescentando que a tendência é que surja um novo arranjo do sistema partidário. "A simplificação da política importante para que o eleitor se sinta seguro com o sistema. Ele não tem tempo para ficar estudando ou pensando sobre a política, quer uma referência mais elementar, basilar, para tomar a melhor decisão possível".

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