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O frágil acordo de Alckmin com o Centrão se esfacela pelos cálculos de segundo turno

Ameaças de desembarque de aliados apenas reverberam a divisão nos partidos da coligação tucana.

"Infelizmente, no mundo inteiro, a cobertura de imprensa é a futrica da corte", minimiza ex-governador

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Geraldo Alckmin durante visita a empresa de reciclagem em Brasília no dia 17 de setembro. EFE

“Estou resgatando uma posição que eu já tinha: nosso candidato à Presidência é Jair Bolsonaro”, disse o deputado Luiz Carlos Heinze (PP-RS) no último dia 12 ao abandonar o apoio à chapa de Geraldo Alckmin (PSDB) e da senadora Ana Amélia (PP-RS), sua companheira de partido. Diante de jornalistas, Heinze acrescentou que não está preocupado com as pesquisas de intenção de voto, apesar de o último levantamento do Ibope apontá-lo com apenas 8%, em quinto lugar. “É o que a minha base me cobra”, disse o deputado, um dos membros do chamado “Centrão” que nunca chegaram a aderir integralmente à campanha de Alckmin apesar do acordo que garantiu à campanha tucana 5 minutos e 32 segundos do tempo de rádio e televisão, o maior entre os presidenciáveis.

As especulações de que o grupo de oito partidos que aderiu à coligação tucana vai abandonar o barco atormentam a campanha do ex-governador de São Paulo desde o momento em que o acordo foi firmado. Na verdade, o acerto com o Centrão rendeu a Alckmin muito pouco além do maior tempo de propaganda de tevê — que, após três semanas de horário político obrigatório, já não parece valer tanto quanto se imaginava. Heinze embarcou junto com o PP na chapa de Alckmin quando Ana Amélia assumiu a posição de vice, mas antes, quando ainda preparava sua candidatura ao Governo do Rio Grande do Sul, tinha fechado parceria com Bolsonaro. Desde aquela época, vão se acumulando "deserções", cuja frequência expõe as divisões internas dos partidos e a dificuldade de manter unidade nacional em uma campanha com muitas particularidades regionais.

O senador Ciro Nogueira, presidente do PP e alvo de uma operação de busca e apreensão no Piauí na quinta-feira passada, tenta a reeleição desde o início a campanha propagandeando o apoio do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT). Candidato ao Governo de Pernambuco, o senador Armando Monteiro (PTB) também faz parte da coligação Para Unir o Brasil, mas declara desde sua pré-campanha o voto em Lula, que acabou substituído por Fernando Haddad enquanto candidato da coligação O Povo Feliz de Novo. E se os aliados da campanha tucana debandam para o lado petista no Nordeste, na região Sul o polo de atração é a campanha Brasil Acima de Tudo, Deus Acima de Todos, de Jair Bolsonaro. Na semana que passou, foi a vez de Gelson Merisio, candidato ao Governo de Santa Catarina pelo PSD, de anunciar voto em Bolsonaro.

"Por respeito a você, catarinense, venho aqui abrir o meu voto para presidente da República. Eu, Gelson Merisio, voto Bolsonaro", diz o candidato que ocupa o segundo lugar nas pesquisas em vídeo de campanha. "Neste momento fundamental que atravessa o nosso país, não podemos nos omitir. Cada um de nós terá de se posicionar de uma forma muito clara", acrescenta Merisio, que justifica seu voto como "uma questão de coerência com o que deseja Santa Catarina". De fato, a última pesquisa Ibope feita no Estado indica 40% de intenções de voto para o candidato do PSL, contra apenas 12% do segundo colocado, Haddad. Alckmin aparece com apenas 6%. Apesar de o PSD compor a coligação de Alckmin, em Santa Catarina o PSDB está com Mauro Mariani (MDB), que lidera a corrida com 21%, mas está empatado tecnicamente com Merisio (18%) e Décio Lima (PT, com 17%).

Candidato ao Senado pelo Rio de Janeiro e filho do presidenciável do PSL, Flávio Bolsonaro disse nesta semana em seu perfil no Twitter que "se existisse rejeição a Bolsonaro, não estaria ocorrendo esse gigantesco movimento de candidatos, de diversos partidos, incluindo BOLSONARO no material de campanha". O líder das pesquisas presidenciais tem tomado o cuidado, contudo, de dizer que não conta com o apoio de corruptos. Questionado sobre o apoio do Centrão em entrevista da rádio Jovem Pan, Bolsonaro disse que "tem bons parlamentares em outros partidos" e que "tem gente honesta dentro da Câmara", mas destacou, usando uma fórmula feita,  que vai compor seu governo de forma "técnica" e sem atender a "indicações políticas". Ele afirma contar com 120 parlamentares hoje na Câmara, um número que o deputado Onyx Lorenzoni (DEM-RS), cotado pelo próprio Bolsonaro para ministro da Casa Civil, ostenta há alguns meses.

A razão das explicações de Bolsonaro foi escancarada por Alckmin um dia depois dessa entrevista. “Ontem o Bolsonaro deu uma entrevista. Ele já anunciou um ministro: Onyx Lorenzoni para a Casa Civil. É do Centrão! Então quer dizer: [ele diz] ‘não vou fazer acordo com nenhum partido’, [mas] o primeiro indicado já é do Centrão”, criticou Alckmin. Quando questionado sobre ter cortejado partidos do Centrão para sua coligação, Bolsonaro diz que não se dobrou às cobranças dos líderes de partidos como PR, PTB, PRB e Solidariedade. Ele fechou sua coligação apenas com o PRTB. A tentativa de Alckmin de anular o discurso do adversário não tem sido suficiente para conter os anúncios de apoio tardios, entre seus pretensos apoiadores, para Bolsonaro. E os próprios membros do PSDB não têm ajudado muito.

Como fica o PSDB no segundo turno

À medida que o segundo turno se aproxima, o problema sobre o que fazer depois de 7 de outubro, caso não haja nenhuma reviravolta de monta, passa a ser também do PSDB. Depois de ter apontado tantos problemas tanto em Bolsonaro como no PT, o partido, fora pela primeira vez do disputa final pela presidência em 24 anos, vai ficar neutro? Há várias declarações já que mostram uma inclinação para Bolsonaro, mas é algo que constrangeria especialmente a ala histórica social-democrata liderada por Fernando Henrique Cardoso.

Apesar de alimentar o discurso, na semana passada, de que a campanha tucana ainda tem "espaço para crescer" e reforçar seu apoio, o senador Cássio Cunha Lima (PB), que tenta a reeleição, defendeu que as críticas a Bolsonaro têm de parar, porque o alvo principal é o PT. Já o deputado Bruno Araújo, candidato ao senado em Pernambuco, disse que faltou firmeza a Alckmin e não descartou apoio a Bolsonaro no segundo turno. Em Minas Gerais, o vice na chapa do senador Antonio Anastasia ao governo loca, Marcos Montes (PSD), defendeu "dar as mãos a Bolsonaro". Já o prefeito de Manaus, Arthur Virgílio, se desentendeu com Alckmin antes mesmo do início da campanha e, nesta quinta-feira, declarou apoio a Marina Silva (Rede).

Confrontado com todas as críticas e especulações, Alckmin diz que tudo isso "não tem a menor importância". "Infelizmente, no mundo inteiro, não só no Brasil, a cobertura de imprensa é a futrica da corte. Isso ocupa um espaço enorme, não tem o menor interesse para a população", disse o ex-governador durante agenda de campanha em Belo Horizonte na quinta-feira.

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