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Os três minutos de Marcela Temer, a tentativa do Planalto de suavizar a imagem

Primeira-dama será "embaixadora" do programa Criança Feliz em uma gestão em busca de marca social

Discurso de presidente em Brasília joga luz em mal-estar sobre papel de mulheres no Governo

Marcela Temer programa Criança Feliz
A primeira-dama Marcela Temer, no Palácio do Planalto. AFP

Quando o nome de Marcela Tedeschi Araújo Temer foi anunciado pelo cerimonial da presidência ao menos 20 telefones celulares e tablets foram levantados pela plateia de 200 espectadores. Queriam filmar o momento em que a primeira-dama, uma advogada de 33 anos que concentra todos os holofotes sempre que aparece, fazia sua estreia política. Marcela gastou três minutos de discurso para lançar o programa social Criança Feliz, que promete acompanhar as crianças de até três anos de idades mais vulneráveis do país, do qual ela será "embaixadora voluntária".

Vista como uma tentativa de refrescar a imagem da gestão de seu marido, um Governo aprovado por apenas 14% da população e em busca de uma marca no social, a participação de Marcela era amplamente esperada e dada como alvo certo de controvérsia, tanto pela volta do "primeiro-damismo" clássico -após uma presidenta mulher- como pela reação ao pouco espaço e prestígio conferido por Temer às mulheres no primeiro escalão _na cerimônia desta quarta, o presidente não escaparia de novas críticas.

Visivelmente nervosa, antes de iniciar sua fala de estreia na vida pública no Palácio do Planalto, a primeira-dama tomou um gole d’água, respirou fundo, fitou a plateia e emendou um bom dia pausadamente. A dicção clara, apesar da leitura excessivamente pausada, aliás, surpreenderam até quem trabalha com ela. Os gestos com as mãos foram delicados e, aparentemente, bem treinados. Em nenhum momento ela deixou de olhar para o público.

Nesta primeira vez em um púlpito, a primeira-dama tratou do tema sobre o qual ela se dedicou quase exclusivamente nos últimos sete anos, o da criança, com a educação do filho, Michelzinho. Desde que se graduou em direito em 2009, a ex-miss da cidade de Paulínia (SP), 43 anos mais nova que Temer, deixou de trabalhar fora de casa. Antes, tinha sido recepcionista em um jornal e modelo.

“Cada vez que beijamos nossos filhos pequenos, que conversamos com eles, cada vez que os carregamos nos braços, que lemos uma história ou cantamos uma canção de ninar, estamos ajudando no seu desenvolvimento. O que nós mães percebemos instintivamente tem sido comprovado pela ciência, nós, pais cuidadores influenciamos de forma decisiva as crianças nos primeiros anos de vida”, discursou Marcela, para reforçar os pilares do Criança Feliz, que oferecerá orientações e acompanhará a rotina de beneficiários do Bolsa Família que tenham filhos de até três anos de idade, etapa considerada fundamental para a formação do caráter e da personalidade.

Ao fim do discurso, muitos aplausos - Marcela foi a única aplaudida de pé entre os quatro oradores - e um beijo na face direita dado pelo marido, que discursou brevemente. “Devo dizer que, a presença da Marcela, como embaixadora, assim rotulada pelo Osmar Terra, visa exatamente a incentivar as senhoras, mulheres do país, autoridades. Certa e seguramente, a Marcela um dia vai convidar as senhoras primeiras-damas e as senhoras prefeitas municipais, para estarem todas aqui em Brasília, para que não fique apenas como um programa da União, mas que seja como um programa da Federação”, disse Temer.

O trecho em que o presidente se dirige apenas a mulheres, inclusive apenas a autoridades mulheres, como prefeitas, para falar do programa destinado à primeira infância causou incômodo. Uma das parlamentares de sua base aliada que assistiu ao evento disse ao EL PAÍS, sob a condição de não ter seu nome publicado, sobre a declaração: “Sei que não é isso o que ele pensa, mas pelo seu discurso, parece que ele só vê a mulher em uma função social. Os homens precisam entender que somos protagonistas”.

Gabinete no Planalto e orçamento

A participação de Marcela no Criança Feliz, como a principal divulgadora das ações e palestrante, será uma espécie de estágio para ela. Caso se saia bem na função de embaixadora possivelmente atuará em outros programas, principalmente da área social. Para executar essa função, a primeira-dama conseguiu algo que nem mesmo os ministros mais próximos do presidente conseguiram, um gabinete próximo do dele, o restrito terceiro andar do Palácio do Planalto. Neste primeiro momento, ao menos quatro funcionários farão parte de sua equipe.

Algumas funções administrativas ainda não estão bem claras. Como ela não será remunerada, Marcela não terá a obrigação de bater ponto na sede da presidência. Mas precisará estar com uma certa frequência no local para poder discutir novas ações com seus funcionários.

O orçamento inicial do programa, sob a batuta do Ministério Social e Agrário, é de 300 milhões de reais para 2017. Essa quantia será ampliada para 800 milhões de reais para o ano seguinte. Em princípio, segundo o ministro do Desenvolvimento Social e Agrário, Osmar Terra, cerca de 600.000 crianças serão beneficiadas a partir do próximo ano. Entre os beneficiários do Bolsa Família há 3,5 milhões de crianças nessa faixa etária. “Vamos aumentar os atendidos gradualmente”, explicou Terra.

Todo o atendimento será feito por meio de profissionais contratados pelas prefeituras que quiserem aderir ao programa. A rede de atendimento será formada por visitadores, supervisores e multiplicadores. Os primeiros serão responsáveis por visitar 30 famílias por semana para repassar as orientações. Os supervisores, irão gerenciar essas equipes. E os multiplicadores serão os responsáveis pelos treinamentos. Os valores repassados pela União aos municípios variam de 1.600 reais a 8.000 reais por profissional contratado.

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