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Marcela Temer e a volta do ‘primeiro-damismo’ no Brasil

No país polarizado, a "embaixadora" Marcela Temer levanta muitas críticas nas redes

Marcela Temer primeira dama do Brasil
Temer e a mulher, Marcela. REUTERS

Foram seis anos de uma mulher (a primeira) à frente do Executivo brasileiro, em que o cargo de primeira dama permaneceu vazio. Antes dela, duas primeiras-damas atípicas, que, à sua maneira, não se encaixavam no modelo engessado de mulher do presidente dedicada a causas sociais. Agora essa figura - que provoca, no mínimo, ruído com as discussões do papel feminino na sociedade e com a chamada primavera feminista - volta à baila com a estreia de Marcela Temer na vida pública. A jovem esposa do presidente Michel Temer lançou nesta quarta-feira o Criança Feliz, programa de apoio voltado à primeira infância do qual será embaixadora voluntária.

Com um rápido discurso em prol do bem-estar das crianças (escrito de próprio punho e lido com a voz pausada, mas firme), ela adotou um tom "emotivo" e "maternal", segundo anotado na imprensa. Casada há 13 anos com Temer, formada em direito e mãe de um menino de sete anos que leva o mesmo nome do pai, Marcela, de 33 anos, é conhecida pela conduta discreta, dedicada à família e não dada ao assédio da mídia, e também pela beleza. Agitou as redes sociais ao lado do marido na posse de Dilma, ainda em 2011, em que muito se falou sobre sua aparência. Tem sido alvo de especulações sobre sua personalidade desde que uma revista a descreveu como “bela, recatada e do lar”, já com Temer instalado na presidência neste ano.

Nesta quarta, quando Marcela Temer se tornou um dos temas mais comentados do Twitter, houve nova controvérsia. Não só por Marcela, mas especialmente pelo que Temer, que estreou com um gabinete sem mulheres à frente de nenhuma pasta, disse (o mal-estar foi registrado até mesmo aliadas do Governo, leia aqui). O presidente provocou reclamações quando abusou do termo “senhoras" para se referir às mulheres, e apenas a elas, como interlocutoras da esposa por causa do Criança Feliz. “Devo dizer que, a presença da Marcela, como embaixadora, assim rotulada pela Osmar Terra, visa exatamente a incentivar as senhoras, mulheres do país, autoridades. Certa e seguramente, a Marcela um dia vai convidar as senhoras primeiras-damas e as senhoras prefeitas municipais, para estarem todas aqui em Brasília, para que não fique apenas como um programa da União, mas que seja como um programa da Federação”.

As reações não demoraram. "É mais do que hora de os homens se inserirem nessa história", escreveu a obstetra e pesquisadora Melania Maria Ramos de Amorim, que questionou também o cuidado com os filhos como "instintivo", tal qual descrito por Marcela. Dany, uma ativista do parto humanizado, também reclamou: "A primeira infância é responsabilidade de toda a sociedade, e não só da mãe". "Cara prefeita, você não passa de uma primeira-dama no lugar errado!", escreveu um outro usuário do Twitter.

No Brasil clivado e polarizado das redes, no entanto, tampouco faltaram elogios "à volta da primeira-dama". Marcela Temer recebeu o apoio da senadora Marta Suplicy (PMDB), referência do movimento feminista, e aliada do Planalto. "Marcela Temer é uma pessoa que vai se dedicar e trará uma visibilidade muito boa para o Criança Feliz", escreveu a senadora. "A partir de agora, o Brasil poderá contar com uma primeira-dama...", comemorou um site de direita.

Histórico

Não há na legislação brasileira uma previsão legal para o papel de primeira-dama, sendo, fundamentalmente, protocolar e ligado aos rituais diplomáticos, ainda excessivamente amarrados ao modelo homem-mulher, com homens na posição de ocupante de função pública, e não outros arranjos.  A primeira-dama não é considerada integrante da administração federal e nem recebe salário. No Brasil, sempre houve uma crítica de profissionais da área social que criticavam a atuação de primeira-damas na setor, conferindo um caráter mais de benesse ou caridade do que gestão profissional de serviços que o Estado é obrigado a oferecer. No caso de Marcela Temer, ela não estará à frente como gestora, mas como promotora e visibilizadora.

“No Brasil, o papel da primeira dama sempre foi muito tradicional, à diferença das políticas estruturadas que Ruth Cardoso instituiu durante a presidência de FHC. Depois disso, essa figura sumiu, tanto durante os anos de Lula, com Marisa Letícia, como no Governo Dilma”, afirma a socióloga Fátima Pacheco Jordão, do Instituto Patrícia Galvão.

Reconhecida intelectual de posições políticas feministas, localizadas por analistas mais à esquerda do que as de FHC, Ruth Cardoso costumava dizer que não era “nem primeira, nem dama” e preferia ser chamada de doutora. “Isso é uma caricatura do original americano, esse cargo não existe”, declarou. Ruth ocupou um cargo relacionado à área social. Fundou o Programa Comunidade Solidária e presidiu seu conselho de 1995 a 2002, durante o mandato de seu marido: “Combater a pobreza não é transformar pessoas e comunidades em beneficiários passivos de programas sociais. Toda pessoa tem habilidades e dons. Toda comunidade tem recursos e ativos. Combater a pobreza é fortalecer capacidades e potencializar recursos”, afirmou à época.

De outra maneira, tampouco se configurou o papel clássico de primeira-dama no caso de Marisa Letícia, a esposa de Lula, que permaneceu longe dos palanques, ainda que tenha acompanhado o ex-presidente em eventos oficiais de 2003 a 2010. Marisa o conheceu no Sindicato dos Metalúrgicos de São Paulo, que frequentava como funcionária da prefeitura de São Bernardo do Campo – sua cidade natal. E desde então – passando pela confecção da primeira bandeira empunhada na fundação do PT em 1980 – sempre apoiou a atuação marido nos bastidores e foi bastante criticada por assumir o papel aberto e voluntário da dona de casa.

Segundo Marisa, ter sido primeira dama foi “uma experiência inexplicável”. “Tive a oportunidade de conhecer o mundo todo. O Brasil eu já conhecia, quando fiz a Caravana da Cidadania e nas campanhas de Lula. Mas eu não conhecia o mundo e tive essa grande oportunidade, mesmo com as agendas oficiais. O importante disso tudo foi ver a transformação no País durante esses oito anos e a valorização do nosso povo. Ninguém vai esquecer desse homem [Lula]. O Brasil mudou e para melhor”, defendeu, em uma das raras entrevistas concedidas à imprensa, para o jornal ABCD Maior. Mas também acrescentou, ressaltando seu papel de “militante, não liderança”: “Sempre soube que o Palácio não era a minha residência. A minha casa é em São Bernardo”.

Marcela, que até pouco tempo vivia em São Paulo, finalmente se juntou a Michel Temer em Brasília e ao lado dele terá um gabinete no Palácio do Planalto para trabalhar na divulgação do Criança Feliz. O programa, vale dizer, resgata na memória brasileira a Legião Brasileira de Assistência LBA – fundada em 1942 por Darcy Vargas, esposa de Getúlio Vargas, e entregue desde então às primeiras damas, que assumiam seu lugar na defesa de uma política criticada por ser assistencialista. A LBA foi extinta por Ruth Cardoso após escândalos envolvendo Rosane Collor.

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