Pandemia de coronavírus

Em 2020, 1,8 milhão de vidas levadas pela covid-19. Em 2021, a esperança da vacina

EUA, Brasil, Índia e México são os países que mais óbitos acumulam. Ano começa com a apreensão com as mutações e ansiedade pela vacinação em massa

Homenagem aos mortos pela covid-19 feita pela ONG Rio de Paz em agosto deste ano, quando o Brasil chegou aos 100.000 óbitos.
Homenagem aos mortos pela covid-19 feita pela ONG Rio de Paz em agosto deste ano, quando o Brasil chegou aos 100.000 óbitos.Antonio Lacerda / EFE

Pelo menos 1,8 milhão de pessoas morreram de covid-19. Esse é o balanço deixado por um ano de pandemia de coronavírus, exatamente 12 meses depois de as autoridades chinesas alertarem pela primeira vez sobre uma pneumonia não identificada na cidade de Wuhan. Estados Unidos (342.450 mortes), Brasil (193.875 mortes até quarta-feira), Índia (148.738) e México (124.897) são os países com o maior número de mortes no mundo. Bélgica (com quase de 19.360 óbitos), Eslovênia (2.630), Bósnia (4.020), Itália (73.000), Peru (37.500) e Espanha (50.400) são os países com mais de dois milhões de pessoas que mais mortes por 100.000 habitantes notificaram em 2020. Das 15 nações com mais mortos em termos relativos, nove ficam na Europa. O ano de 2021 começa com a apreensão pela nova mutação do coronavírus, detectada inicialmente no Reino Unido e 56% mais contagiosa, mas também com a ansiedade e a esperança pela vacinação em massa, iniciada em mais de 30 países.

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Os dados sobre os óbitos são imperfeitos e difíceis de comparar entre países —como quase todas as cifras desta pandemia—, mas permitem vislumbrar o impacto do vírus em cada lugar. Atualmente, a Europa se debate com uma segunda onda de menor intensidade que a primeira, mas muito mais longa. Já se registraram mais mortes por coronavírus desde agosto do que antes: 325.000 a partir do começo do verão europeu, e quase 530.000 em todo o ano. Os Estados Unidos, onde mais de 340.000 pessoas morreram de covid-19 desde março, já está em plena terceira onda. Lá os hospitais se saturaram ainda mais do que nas ondas anteriores, e o índice de mortes por dia há várias semanas se mantém acima dos registros dos três primeiros trimestres.

Já o Brasil, que sofre com a negligência do Governo Jair Bolsonaro no enfrentamento da pandemia, viu a primeira onda se arrastar até meados de setembro, quando ainda se registrava mais de 1.000 mortes por dia —ao mesmo tempo que governos estaduais e prefeituras flexibilizavam as medidas de distanciamento social. Após um breve intervalo, o país iniciou o mês de dezembro já enfrentando uma segunda onda da pandemia. O número de óbitos diários voltou a ter três dígitos e especialistas vem alertando dos riscos de colapso dos sistemas públicos de saúde em janeiro. Enquanto vários países já estão vacinando profissionais da saúde, idosos e grupos prioritários, o Brasil ainda não apresentou uma data para o início de um plano nacional de imunização.

A primeira onda foi um tsunami para quase todos os países. A chegada da covid-19 desconcertou até àqueles que havia anos esperavam a chegada de uma pandemia. “Todo mundo especulava que a grande pandemia seria uma mutação do vírus da gripe, com a de 1918 como referência”, reflete Antoni Trilla, chefe do Serviço de Medicina Preventiva do Hospital Clínic de Barcelona. Outros coronavírus já haviam aparecido, como os da sars e da mers, mas a covid-19 foi mais complexa. “Adquiriu a capacidade de transmissão por via aérea, através dos aerossóis, e há muitíssimos assintomáticos que são potencialmente infecciosos: cria pacientes invisíveis que estão circulando sem sabermos”, aponta Trilla.

O verão do Hemisfério Norte parecia um ponto de inflexão. Em toda a Europa os contágios, hospitalizações e mortes caíram. Mas foi uma ilusão, e antes de setembro já era preciso encarar uma segunda onda, que em muitos países se revelaria mais forte que a primeira.

É preciso levar em conta que a capacidade de diagnóstico não é sempre a mesma, e quanto maior for o colapso do sistema sanitário, mais fácil é que pacientes morram sem fazerem exames. Mesmo assim, países que não tinham sofrido o forte impacto da primeira onda estão agora entre os que notificaram mais óbitos por 100.000 habitantes desde agosto. São os casos da Polônia (68) e Lituânia (45). Deste grupo, a pior situação é da Bulgária (100), Eslovênia (100) e Hungria (100), que parecem estar sofrendo neste inverno o pior surto do continente em todo o ano. Pior que a Espanha e a Itália entre abril e junho, quando ambos rondavam as 60 mortes por 100.000 habitantes. Já o Brasil vem registrando 92 mortes por 100.000 habitantes, segundo os últimos dados do Ministério da Saúde.

“Há uma combinação de fatores que influenciam nas diferenças entre as duas ondas: as condições climáticas, o relaxamento das medidas e a penetração segundo a exposição inicial”, explica Daniel López-Acuña, ex-diretor de Emergências da Organização Mundial da Saúde (OMS). Onde houve mais mortes desde o verão, é provável que seja “porque haveria mais população suscetível, mais mudanças climatológicas, relaxamento de medidas e excesso de confiança”.

Mas também há países que encadeiam duas ondas duras, como Bélgica, Reino Unido, Espanha, Itália e França. A Alemanha está com cifras mais baixas (menos de 30 mortos por 1000.000 habitantes), mas desde o verão notificou mais que o dobro de mortes do que até então. A complexidade da luta contra o vírus fica demonstrada também pelos dados de óbitos em países como a Coreia do Sul e o Japão, cujas estratégias de exames e rastreamento são um exemplo para todo o mundo: ambos tiveram mais que o dobro de mortes entre agosto e dezembro do que antes disso.

Devem ser mais de dois milhões: o excesso de mortes

Essas quase dois milhões de mortes provocadas pelo vírus, segundo a estatística, incluem apenas os notificados oficialmente com resultados positivos em um exame de PCR. Por isso são dados incompletos e difíceis de comparar por países, já que nem todos seguem a mesma metodologia para seu cômputo. A cifra total de mortes deve ser superior e levará anos para ser determinada com exatidão. O Brasil, por exemplo, é um dos países que menos testes realizou ao longo da pandemia e especialistas alertando que os números reais de contágios e óbitos por covid-19 superam bastante daqueles registrados pelo Ministério da Saúde. De acordo com o IBGE, até novembro 28,6 milhões de brasileiros haviam feito algum exame para detectar se foram infectados —isto é, cerca de 13% da população.

Alguns países contam com uma estimativa melhor graças aos registros civis, cujos dados permitem calcular a diferença de mortalidade com relação a um ano normal. Segundo as últimas cifras disponíveis para 2020, a Espanha é o país com o maior excesso de mortes: desde março, os registros civis observaram 77.000 óbitos a mais que o habitual em anos anteriores. São 165 mortes por 100.000 habitantes, acima da Bulgária (162) e da Bélgica (143). O Instituto Nacional de Estatística espanhol confirmou, depois de analisar os dados da primeira onda, que quase todo o excesso de mortes se deu por covid-19 confirmada ou suspeita.

Os dados de países que publicaram a diferença de mortalidade também dão pistas sobre sexo e idade das vítimas: a pandemia golpeou mais fortemente os idosos e foi mais letal para os homens que para as mulheres. A Espanha se destaca por ter o maior excesso de mortalidade entre as pessoas de 15 a 64 anos e por ser dos poucos onde houve semanas que registraram uma diferença superior a 140% entre os maiores de 85 anos. Ou seja, de cada 5 idosos que antes morriam neste período em anos anteriores, 12 faleceram neste ano. A diferença nessa faixa etária alcançou 80% na Itália, 30% nos EUA e 20% na Alemanha. Os índices se explicam, em grande medida, pela intrusão descontrolada do vírus nos asilos espanhóis no primeiro semestre, como explicava a epidemiologista Marina Pollán, do CSIC (agência espanhola de pesquisa científica), ao EL PAÍS. “Os asilos foram lugares particularmente terríveis na Espanha porque houve grandes focos, muitos mortos e, às vezes, até dificuldades de acesso aos hospitais.”

Terceira onda

A terceira onda, incipiente em vários países europeus e nos Estados Unidos, provavelmente será afetada pela nova variante do vírus, que os primeiros estudos confiáveis indicam ser 56% mais contagiosa que a anterior. “A emergência de novas variantes de vírus é um elemento muito habitual em vírus respiratórios”, diz o grupo de especialistas em covid-19 do Centro Nacional de Epidemiologia (CNE) da Espanha. “De fato, as próprias epidemias sazonais de gripe a cada inverno são o resultado da aparição de novas variantes antigênicas de vírus gripais, para os quais a população não tem uma imunidade total”, acrescentam.

À espera de observar seu efeito sobre os novos contágios, provavelmente somado ao aumento de atividade social em grande parte do mundo por causa das festas de fim de ano, o epidemiologista Adam Kurcharski alertava que é mais preocupante um vírus mais transmissível que um mais letal: “Um aumento em algo que cresce de forma exponencial (como a transmissão deste vírus) pode ter um efeito maior que o mesmo incremento em algo que só afeta o resultado final (a gravidade da doença)”.

Com informação de Jessica Mouzo e Felipe Betim.

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