Pandemia de coronavírus

Como a Alemanha passou de exemplo na pandemia a um dos países mais golpeados pela covid-19 na Europa

Mistura de medidas muito brandas, demora em reagir e falsa sensação de segurança abalou o modelo de prevenção implantado por Governos locais, mesmo sob apelo de Merkel

A praça Paris, em Berlim, com o Portão de Brandemburgo ao fundo, quase vazia nesta quarta-feira, quando entraram em vigor as novas restrições na Alemanha.
A praça Paris, em Berlim, com o Portão de Brandemburgo ao fundo, quase vazia nesta quarta-feira, quando entraram em vigor as novas restrições na Alemanha.HANNIBAL HANSCHKE / REUTERS

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Quase 1.000 mortos em 24 horas. Em questão de poucos dias, a Alemanha deixou de ser o aluno exemplar para se tornar um dos países mais golpeados pela covid-19 na Europa. Essa cifra de mortos é a espuma que emerge apenas ao final de uma pandemia de digestão lenta, em que o drama é gestado semanas antes em lojas, asilos e lares. A Alemanha enfrenta um pesadelo antes de um Natal que poucos esperavam. A partir desta quarta-feira, dia 16, o país se fechou a sete chaves. Lojas, escolas, bares, restaurantes, atrações culturais —tudo parado. Os efeitos desse fechamento levarão algumas semanas para aparecer. Enquanto isso, uma pergunta surge com força: o que deu errado?

Após se sair relativamente bem na primeira onda e de conter a segunda até poucas semanas atrás, o vírus volta agora a crescer de forma exponencial na Alemanha: 27.728 contágios em um dia, 952 mortos. São cifras inéditas num país que, na primeira onda, alcançou um pico de 6.000 contágios diários. Desde o início da epidemia, a Alemanha soma 23.427 mortos entre seus 83 milhões de habitantes, o que continua sendo um balanço melhor que alguns dos países dos arredores, mas a virulência dos contágios nos últimos dias causou preocupação e forçou à paralisação das atividades. Com 341 casos por 100.000 habitantes em 14 dias, a incidência no país é maior que na França (236) e Espanha (218, segundo o Centro Europeu para o Controle de Enfermidades), similar à do Reino Unido (348), mas inferior à da Itália (428).

Não existem causas conclusivas que expliquem esta nova propagação, como reconhece o Instituto Robert Koch (RKI). Obedece mais a uma soma de fatores, alguns deles até certo ponto intangíveis. Por um lado, existe o consenso de que há mais de um mês, quando começou o crescimento exponencial, já era necessário paralisar a vida pública, como só se fez agora. Mas, naquele momento, alguns Estados alemães relutaram e impediram o consenso federal. A coreografia se repetia. A chanceler Angela Merkel pedia medidas mais firmes, e alguns Länder se opunham. No sistema alemão, cabe aos Estados determinar e aplicar as medidas, que foram diferentes e em pouco contribuíram para esclarecer os cidadãos.

Mas, independentemente de medidas concretas, o fato é que durante um tempo se estimulou uma falsa sensação de segurança, especialmente em algumas regiões do país. Isso foi bastante notável na antiga Alemanha Oriental, onde a primeira onda passou praticamente ao largo, mas agora está sendo fortemente afetada. A Saxônia tem uma incidência de 400 casos por 100.000 habitantes num período de sete dias. Logo atrás vem a Turíngia, também no leste, com 255. Se durante o fechamento inicial, no primeiro semestre, os contatos se reduziram em 60%, desta vez caíram apenas 40%.

Freada e escalada

“A situação está realmente perigosa agora. Não diria que está fora de controle, mas é tensa”, descreve Clemens Wendtner, diretor médico do hospital Schwabing, de Munique, que no fim de janeiro tratou os primeiros pacientes com covid-19 na Alemanha. “Agiram tarde, passamos semanas avisando”, argumenta Wendtner, relatando que, na capital bávara, 96% dos leitos de UTI estão ocupados, sendo 25% deles por pacientes com covid-19. Nas últimas semanas, pacientes foram transferidos para outros hospitais da região, eventualmente em helicópteros. “O problema é que as medidas adotadas em outubro foram muito suaves. No final do verão [europeu, em setembro], houve políticos que acreditaram inclusive que a segunda onda não iria atingir a Alemanha, mas em setembro já sabíamos que haveria um crescimento exponencial”, explica esse imunologista e infectologista.

Mesmo assim, a vida pública seguia aberta, com certas restrições, como o respeito à distância de segurança, o uso de máscara em lugares fechados e cuidados com a ventilação. Só no final de outubro os governadores dos 16 Länder e o Governo federal conseguiram entrar num acordo sobre medidas mais drásticas. Decidiram que durante um mês os bares e restaurantes fechariam, os contatos seriam limitados a duas unidades familiares, mas que os colégios e comércios permaneceriam abertos. Os políticos disseram então que com um mês de restrições leves em novembro haveria possibilidades de abrir ainda mais a mão no Natal. “Foi provavelmente o maior erro de cálculo político do ano”, escreveu a revista Der Spiegel no fim de semana.

Inicialmente foi possível frear o crescimento, e os casos se estabilizaram. Mas, à medida que foi se aproximando o período natalino e aumentando a atividade comercial, a escalada começou de novo. No domingo passado, os governadores mantiveram uma reunião de emergência com Merkel e concordaram com um fechamento quase total —mas não um confinamento domiciliar, pois há liberdade de sair à rua—, confirmando aos alemães os seus piores temores: que este será um Natal difícil de esquecer.

Nada das tradicionais e habitualmente concorridíssimas feirinhas natalinas. Fecham inclusive os quiosques que vendem vinho quente nas ruas, transformados em ponto de reunião neste inverno de bares fechados. Os hotéis pararam de receber turistas, e foi proibida inclusive a famosa queima de fogos do Réveillon. Recomenda-se não viajar ao exterior exceto em casos necessários, e quem retorna ao país deve fazer quarentena de 10 dias.

Idosos

Na tarde de terça-feira, as crianças se despediam nas escolas, iniciando um período de férias excepcionalmente longo. Em Berlim, por exemplo, elas foram antecipadas em três dias e prorrogadas até 10 de janeiro, em lugar do retorno do dia 4. Profissionais essenciais, no então, poderão levar seus filhos à escola, onde haverá um serviço de acolhida. O Governo se comprometeu a ampliar os dias livres remunerados para os pais que precisarem cuidar de seus filhos em casa nestes dias.

Na quarta-feira, nas ruas de Berlim, só se ouvia o ruído das construções. Os operários com colete fluorescente pareciam ter tomado a cidade, porque não se via muito mais gente no começo da manhã, quando os funcionários habitualmente chegam aos escritórios e as crianças se dirigem aos colégios com suas mochilonas. O Governo recomendou o home office sempre que possível. O bonde viaja meio vazio no horário de pico. Em frente às padarias, algumas filas. Só os comércios essenciais —como farmácias, supermercados e postos de gasolina— permanecem abertos. Também as livrarias. Agora se pode ver bastante gente na rua de máscara, embora só seja obrigatória nas vias mais concorridas.

Os filhos ligam para seus pais no outro lado do país para avisar que neste ano não irão visitá-los, só mais adiante, depois das festas. Os pais tampouco poderão se reunir neste ano com seus amigos, também idosos, por medo do maldito vírus. É a solidão própria da pandemia que assola especialmente os idosos.

Os asilos alemães são justamente um dos grandes focos de contágio, conforme repete diariamente em seu relatório o RKI. Os domicílios privados são outro dos principais locais, mas “para uma grande proporção de casos, o lugar da transmissão é incerto”, diz o organismo, que fala de “uma transmissão crescentemente difusa”.

A escassez de trabalhadores qualificados na Alemanha afeta sobretudo os hospitais, onde faltam enfermeiros —100.000, segundo a associação de profissionais de enfermaria DBFK, sendo 4.000 em UTIs—, mas sobretudo cuidadores em asilos. “Nos hospitais, é possível controlar cada paciente que entra, mas nos asilos não. Ali eles têm mais problemas para encontrar pessoal para fazer testes maciços”, diz Wendtner.

“Há um problema evidente nos asilos. Não houve uma estratégia adequada de contenção”, afirma Jonas Schmidt-Chanasit, do Instituto Bernhard-Nocht, de Hamburgo. “Nos últimos meses não se prestou suficiente atenção às pessoas de maior risco”, acredita Schmidt-Chanasit, que considera que, além disso, a Alemanha falhou “na implicação comunitária”. “Merkel explica os problemas, mas não é suficiente, é preciso conseguir envolver as comunidades, e tem gente que ainda não cumpre as regras”, acrescenta. Esse especialista acredita que proliferaram as medidas, mas frequentemente eram complexas e pouco claras. “É melhor que haja poucas, mas que as pessoas as sigam.”

Cada fechamento veio acompanhado de uma chuva de milhões de euros para as empresas e autônomos afetados pela covid-19 na maior economia europeia, mas os políticos já advertiram que não será eterna. Ter economizado como formigas durante anos é agora uma bênção, mas a emanação da descomunal folga orçamentária de anos passados chegará ao fim, e os alemães sabem bem que não há déficit zero capaz de resistir a meses de fechamento. Que o pesadelo, apesar da animadora notícia da iminente chegada da vacina, não acabará depois do duro inverno.

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