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“Aqui é Angela Merkel, o que você tem para me dizer?”

Chanceler mantém uma série de conversas com cidadãos por meio do Zoom para ouvir em primeira mão os efeitos que a pandemia causa na população

A chanceler alemã, Angela Merkel, durante um dos diálogos com a população, em meados de novembro.
A chanceler alemã, Angela Merkel, durante um dos diálogos com a população, em meados de novembro.POOL (Reuters)
Ana Carbajosa
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“O que você quer me dizer?”. A chanceler (primeira-ministra) alemã, Angela Merkel, pergunta e uma policial da Baixa Saxônia lhe explica como é seu trabalho neste momento, marcado por uma pandemia que, na Alemanha, leva às ruas milhares de céticos em relação à covid-19 para protestar. A chanceler se coloca ao alcance da população por meio do Zoom, e o bate-papo faz parte de uma série de diálogos que a chefa de Governo mantém semanalmente com os cidadãos, agora através da tela.

Primeiro foram estagiários, depois cuidadores e dependentes e, mais tarde, policiais. Depois será a vez dos estudantes. Trata-se de demonstrar empatia, mas também de sentir o pulso da população em um momento crítico para o estado de ânimo coletivo. Porque um assessor lhe contar o quanto esta situação é difícil para os policiais não é a mesma coisa que ouvir em primeira mão que eles levam cusparadas, ou ver ao vivo as olheiras de uma enfermeira sobrecarregada. O cara a cara, mesmo através da tela, funciona.

As reuniões são intituladas Conversa com a Chanceler e o formato é bem merkeliano. Uma hora e meia de conversa pura e simples. Nada de musiquinhas nem de vídeos apelativos no meio. Nenhum gráfico explicativo. Tudo muito sóbrio. Só pessoas que sofrem com algo e têm preocupações para compartilhar com a chefa de Governo. Elas lhe contam tudo em detalhes. Algumas se atrapalham um pouco, mas não tem problema. Aqui não há pressa nem cortes de edição que afetem a naturalidade da conversa.

Esse tipo de diálogo com a população não é novo para Merkel, que todos os anos mantém um ou dois em algum ponto do país. A diferença é que agora as conversas são mais numerosas ―e digitais. Mas o principal é que, neste momento, esse contato é especialmente valioso para os dois lados. Além da crise sanitária, a pandemia está abrindo fissuras consideráveis em uma sociedade que, nos próximos meses, terá de enfrentar o impacto econômico e social de manter a atividade em ritmo lento durante quase um ano. Merkel afirmou que a covid-19 é um desafio para a democracia. A proliferação de notícias falsas em torno da pandemia e os protestos minoritários, mas persistentes, demonstram a importância da pedagogia política e de contar com o apoio da população na luta contra o vírus.

No bate-papo com os policiais, Merkel, que cresceu na antiga República Democrática Alemã, começa dizendo que para ela é fundamental que haja liberdade de expressão e que sejam permitidas as manifestações de céticos em relação à pandemia. Assinala, no entanto, que sabe o quanto é difícil o trabalho dos agentes em tempos de pandemia. “Você teve casos positivos de covid-19 entre seus colegas?”, pergunta a um deles. Outra lhe explica como foi difícil fazer um grupo de 700 pessoas respeitar uma quarentena imposta em um conjunto de edifícios, que acabou em um princípio de rebelião.

A chancelaria designou os quatro grupos de cidadãos que fariam parte das conversas, e depois as associações profissionais e as Câmaras de Comércio escolheram as 15 pessoas participantes de cada encontro. A representatividade dos escolhidos é, evidentemente, limitada.

O primeiro encontro foi o dos estagiários, porque Merkel explicou que a pandemia os surpreendeu em plena incorporação ao mercado de trabalho, uma fase decisiva de suas vidas. Havia uma cabeleireira, um fabricante de instrumentos musicais e um trabalhador da indústria automotiva, entre outros. “Você acha que pode aguentar um pouco mais de teletrabalho?”, perguntou a chanceler. Merkel lhes contou que, quando ficou em casa ―ela se isolou durante a primeira onda, depois que uma pessoa próxima foi infectada―, distraía-se escrevendo e sempre encontrava coisas para fazer. “Tento ver um filme para me distrair ou sair para tomar um pouco o ar”, disse. Mas ela está ali principalmente para escutar. “Você acha que nós, políticos, exageramos em nossa reação ao coronavírus? Como você vê isso?”, pergunta-lhes.

Em outra conversa, quando a chanceler perguntou a Friede Wallentin, uma nonagenária, qual era seu desejo, a mulher lhe respondeu que gostaria de ter uma conexão rápida à Internet para poder ver sua família. Talvez Wallentin soubesse que estava tocando num assunto muito sensível em um país que não se cansa de promover a digitalização, mas que acumula enormes atrasos na conectividade. Pequenas reclamações à parte, nesses encontros o tom é, até certo ponto, excessivamente cordial, como já destacou a imprensa alemã.

Os críticos da líder alemã consideram que sua empatia é, muitas vezes, calculista e pré-fabricada. Mas a verdade é que, quando ela se interessa em ouvir ativamente e saber em detalhes os problemas da pessoa que está diante dela, a empatia frequentemente funciona. “Ela sabe se fazer pequena e ganhar a confiança do interlocutor. As pessoas se sentem compreendidas por ela”, assinala uma fonte que compartilhou uma mesa de negociações com a chanceler.

A popularidade de Merkel disparou nesta pandemia para níveis recordes em seus já 15 anos de mandato. As pesquisas indicam que os alemães consideram que ela tem administrado bem a crise e confiam na chanceler-cientista. A Alemanha se saiu relativamente bem na primeira onda, mas esta segunda está afetando duramente o país e, nos últimos dias, foram atingidos picos de quase 500 mortes em 24 horas: 483 na sexta-feira, 18.517 desde o início da epidemia. As restrições, menores do que em países vizinhos, conseguiram frear o crescimento exponencial de infecções, mas os números subiram: 23.318 casos registrados na sexta-feira, em um país com 82 milhões de habitantes. A incidência nacional nos últimos sete dias é de 138,7 casos por 100.000 habitantes.

Matriarcado

Essas reuniões virtuais permitem assistir ao registro mais humano de uma chanceler pouco dada a mostrar suas emoções e a sair do roteiro. Pode ser devido à pandemia ou porque no ano que vem ela deixará o poder depois de três mandatos à frente da Alemanha, mas a verdade é que, nos últimos tempos, Merkel avançou em expressividade e soltura. “Mudou de tom. Deixou de lado o estilo de comunicação tecnocrata e deliberadamente ambíguo, porque sabe que a Alemanha e Europa estão no meio de uma grande transformação. […] Está muito preocupada com a pandemia e percebeu que tem de liderar à margem das competências dos länder [Estados]. Tornou-se mais direta e mais próxima”, afirma Constanze Stelzenmüller, analista da Brookings Institution.

Em uma das conversas, Wallentin explicou a Merkel que seu lar de idosos era uma espécie de matriarcado com uma diretora e uma número dois. “Não é ruim que as mulheres tenham algo a dizer”, respondeu a chanceler, antes de se despedir: “Cumprimente todas as mulheres do matriarcado”.

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