EUA tentam fazer de Alex Saab o ‘garganta profunda’ do chavismo

O empresário é a pedra angular para desvendar uma rede de corrupção que começou com Hugo Chávez e cresceu com as sanções impostas contra a Venezuela

Alex Saab comparece perante o juiz norte-americano John J. O'Sullivan por link de vídeo durante a leitura das acusações contra ele em um tribunal federal em Miami, Flórida.
Alex Saab comparece perante o juiz norte-americano John J. O'Sullivan por link de vídeo durante a leitura das acusações contra ele em um tribunal federal em Miami, Flórida.DANIEL PONTET (Reuters)

Nesta segunda-feira teve início no sul da Flórida o périplo judicial de Alex Saab, o grande operador de negócios do chavismo nos últimos anos e suposto testa de ferro do presidente da Venezuela, Nicolás Maduro. O chavismo prende a respiração diante de um de seus episódios mais difíceis. O Governo tentou por todos os meios impedir que o empresário colombiano, que conhece de perto a rede financeira do Executivo, pusesse os pés nos Estados Unidos. Não teve sucesso. Saab voou de Cabo Verde para Miami no sábado, após 16 meses de detenção no país africano. A extradição dá início agora a um processo judicial com um final incerto. A colaboração ou não do empresário será fundamental para ver se a investigação chega ao próprio Palácio de Miraflores.

No início da tarde desta segunda-feira, centenas de pessoas puderam acompanhar por meio de uma transmissão por Zoom uma imagem que a oposição venezuelana esperava havia anos. Saab apareceu algemado e vestindo um macacão laranja para responder por suas ações perante a justiça dos EUA, relata Antonia Laborde. Em uma breve audiência oral, o juiz federal leu para ele seus direitos e as oito acusações a que responde, enquanto Saab, visivelmente nervoso, as ouvia sozinho em uma sala da prisão. O advogado do réu pediu ao juiz que adiasse a audiência para preparar a defesa. O juiz marcou a próxima audiência para 1º de novembro, mas negou liberdade sob fiança.

Saab, além de bilionário, tornou-se o maior operador de um Executivo asfixiado por sanções internacionais. Agora pode se converter no maior garganta profunda do chavismo. Até onde vão as conexões da investigação é algo imprevisível. As autoridades dos EUA suspeitam que ele tenha a informação sobre o lugar em que Maduro e seu entorno escondem sua fortuna. Mas suas conexões vão além da Venezuela. Países como Irã, Turquia, China e Chipre tecem a teia do dinheiro que a corrupção venezuelana encobriu com programas sociais criados pelo chavismo.

O temor do Governo da Venezuela é notório nos dias de hoje. Sob o argumento de que Saab está sequestrado, tentam apresentá-lo como um diplomata do país, título que Maduro lhe concedeu depois de ter sido detido em Cabo Verde. O Governo respondeu à extradição levantando-se da mesa de diálogo que mantinha com a oposição no México. Uma medida de pressão de breve duração nos Estados Unidos, mas que mostra o nervosismo que reina em Caracas.

O empresário colombiano Alex Saab, em fotografia distribuída nesta segunda-feira pelo Departamento de Justiça dos Estados Unidos.
O empresário colombiano Alex Saab, em fotografia distribuída nesta segunda-feira pelo Departamento de Justiça dos Estados Unidos. DEPARTAMENTO DE JUSTICIA DE ESTADOS UNIDOS (Europa Press)

Estas são as linhas de investigação conhecidas envolvendo Saab:

Lavagem de 350 milhões de dólares

Uma das pontas da trama de negócios que Saab teceu, na mira da justiça dos Estados Unidos, é a lavagem de 350 milhões de dólares (1,93 bilhão de reais) em decorrência das transações feitas em 2011 por meio do sistema Sucre para compra de materiais no Equador para a construção de casas na Venezuela. Essa operação, com contratos fictícios e empresas de fachada, em que nenhuma casa foi construída, foi a primeira pista que a Justiça norte-americana começou a seguir. No dia em que Alex Saab fez uma transferência desse negócio para contas em bancos dos Estados Unidos, surgiu o primeiro alerta que o levou a ser preso hoje na Flórida.

Deste primeiro contrato internacional de Saab, o Ministério Público equatoriano estimou o valor das exportações fictícias e supervalorizadas em 156 milhões de dólares (860 milhões de reais), embora relatórios daquele país indiquem que a ponte de corrupção que Saab e seu sócio Alvaro Pulido construíram entre a Venezuela e o Equador chegue a quase 2 bilhões de dólares (11,02 bilhões de reais). Durante o Governo de Rafael Correa, o procurador-geral arquivou os autos e retirou as denúncias. A essa altura, porém, a Justiça dos EUA já o tinha em vista.

As caixas CLAP de comida

Ciente do erro de ter repassado dinheiro pelo sistema financeiro dos Estados Unidos, Saab decidiu então criar um complexo esquema de empresas de todo o mundo para drenar dinheiro da corrupção com contratos para suprir as principais necessidades dos venezuelanos: alimentos, remédios e habitação.

Para o ex-procurador venezuelano Zair Mundaray, agora exilado na Colômbia, Saab “abriu novos espaços de lavagem para o Governo de Nicolás Maduro”. Chipre, China e Hong Kong, onde a empresa foi criada para fornecer as caixas CLAP, o programa de alimentos subsidiado que também deixou rastros de corrupção, foram as novas jurisdições em que Saab começou a abrir empresas e contas fora do escrutínio da Fincen, o órgão regulador do setor financeiro dos EUA. “São espaços que têm sido muito úteis para ele. A receita que a Venezuela tem hoje é produto de uma economia sombria, que também precisa de seus mercados obscuros”, diz Mundaray.

Altos funcionários, gerentes de bancos e de contas, ministros e órgãos de controle dos países por onde passou o dinheiro do empresário colombiano podem sair chamuscados pelas informações que Saab poderá fornecer se decidir cooperar. “Todo este esquema não pode existir sem a cumplicidade de todo o sistema, por isso, as informações de primeira mão que ele puder dar serão valiosas”, diz o ex-procurador, que destaca que o caso Saab revela como “o sistema financeiro internacional falhou com a Venezuela”.

A relação com a Rússia e o Irã

Quando Saab foi detido em Cabo Verde, em junho de 2020, Caracas revelou o papel que Saab havia desempenhado durante vários anos na Venezuela, onde sempre operou na sombra. Eles o chamaram de enviado especial, um representante especial da Venezuela na Rússia e no Irã, e então o nomearam diplomata. Por intermédio do chanceler Jorge Arreaza, apenas duas semanas depois de ter sido preso na nação insular africana, Maduro reiterou em carta o caráter secreto e confidencial das informações com que tratava e advertiu-o de que qualquer delação poria em risco a segurança da Venezuela.

Nesse fim de semana, a mulher de Saab, Camila Fabri, falou em uma cerimônia em Caracas sobre a situação do marido, cercada por funcionários do Governo que fizeram uma defesa feroz do empresário colombiano. Fabri relatou as supostas dificuldades para vê-lo durante a prisão domiciliar e leu uma carta da Saab insistindo em que “nada o dobraria”.

A rede que evadiu as sanções dos EUA

A maior parte das informações com que ele lida tem a ver com seu papel como enviado estrangeiro de um Governo sob sanções internacionais. Os Estados Unidos têm um interesse particular em desvendar as estratégias de evasão das sanções que formam um triângulo com a Rússia, o Irã e a Turquia para trocar petróleo, gasolina e ouro por alimentos e dinheiro. O Governo chavista refugiou-se no ouro com a queda das receitas petrolíferas em razão da queda brutal da produção após a crise da petroleira estatal PDVSA. O papel de Ancara e do presidente turco Recep Tayyip Erdogan nessas operações pode ser exposto se Saab decidir falar.

A Turquia e o ouro

Uma análise da Fundação para a Defesa das Democracias (FDD), com sede em Washington, assinalava em setembro que uma empresa de Istambul criada logo após o encontro de Maduro com Erdogan, em Ancara, em outubro de 2017, ajudou o regime venezuelano a movimentar 900 milhões de dólares (4,95 bilhões de reais) em ouro para a Turquia. A Venezuela reconheceu publicamente que está refinando na Turquia o ouro que é vorazmente explorado sem nenhum tipo de controle e prestação de contas no Arco Mineiro do Orinoco, extensa região do país —que cobre 12% do território nacional—entregue a empresas, pessoas físicas e grupos irregulares para a extração de minérios, com questionáveis sistemas de exploração do trabalho.

Em troca desse intercâmbio, as caixas CLAP e os supermercados venezuelanos se encheram de produtos turcos e uma quantia incalculável de euros em dinheiro foi injetada na economia nos últimos anos.

“O intercâmbio de ouro por comida se assemelha ao esquema anterior de gás por ouro de Erdogan, que permitiu a Teerã contornar as sanções dos EUA no auge dos esforços de Washington para frustrar as ambições nucleares da República Islâmica”, alerta a FDD. Em 2019, o então secretário adjunto do Tesouro, Marshall Billingslea, avisou que os acordos comerciais da Turquia com a Venezuela estavam sendo examinados. O mesmo ocorre com os navios com gasolina que o Irã envia desde junho de 2020 à Venezuela para atender à demanda interna e sobre os quais Washington também fez advertências.

Óleo em troca de milho mexicano

A rede de Saab também chegou ao México. Acordo firmado em junho de 2019 entre a mexicana Libre Abordo, sem experiência no setor, e a Corporação Venezuelana de Comércio Exterior (Corpovex) —a estatal venezuelana encarregada de centralizar as importações públicas— definia a troca de petróleo venezuelano por milho e caminhões cisterna. O Governo mexicano segue a pista dos quase 200 milhões de euros (1,28 bilhão de reais) derivados da troca, de acordo com uma investigação do EL PAÍS e Armando.info

O Departamento do Tesouro dos Estados Unidos, que também investiga o caso, afirma que mais de 30 milhões de barris de petróleo bruto foram embarcados por esse sistema, operação que viola as sanções norte-americanas à Venezuela.

Os detalhes de todo esse emaranhado multilateral podem estar nas mãos de Saab. Se colaborar, poderá sair da prisão em cerca de sete anos, segundo cálculos das autoridades judiciais, e não entre os 20 e 30 que correspondem aos crimes de que é acusado. “A DEA tinha a ilusão de que com a prisão do Chapo acabara o narcotráfico. Mas não é o caso nas organizações do crime organizado”, afirma o ex-procurador venezuelano. Outros parceiros sempre continuam o negócio. Saab, que tem 49 anos, poderia poupar parte de sua vida na prisão se delatar seus sócios e superiores no esquema de corrupção. É isso que faz tremer os alicerces do chavismo.

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