Apoio ao partido de Erdogan cai ao seu menor nível com crise na Turquia e acusações de corrupção

Próximos meses serão cruciais. Para se aproximar dos EUA, presidente turco aceitou que seu Exército assuma controle do aeroporto de Cabul e procura negociação com o Talibã para garantir segurança das tropas

O presidente da Turquia, Recep Tayyip Erdogan, posa com escoteiros ao chegar a uma área devastada por incêndios florestais no sudoeste do país, em 31 de julho.
O presidente da Turquia, Recep Tayyip Erdogan, posa com escoteiros ao chegar a uma área devastada por incêndios florestais no sudoeste do país, em 31 de julho.AP

Num 14 de agosto, 20 anos atrás, um grupo de políticos que tinha Recep Tayyip Erdogan como liderança mais visível fundou o Partido da Justiça e Desenvolvimento (AKP, na sigla em turco). Em apenas 15 meses, venceu as eleições com maioria absoluta, e desde então não perdeu uma só disputa eleitoral em nível nacional, tornando-se a agremiação política mais bem-sucedida desde que a Turquia começou a realizar eleições democráticas, em meados do século passado.

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Mas a celebração do AKP está sendo discreta. Com uma parte do país calcinada pelo fogo e com outra sob inundações, Erdogan preferiu adiar a festa que estava prevista para o último sábado. E não foi só isso: a economia não consegue decolar, e os problemas se acumulam nas mãos do presidente turco, enquanto a oposição farejou sangue e se lançou ao ataque.

Há meses, o AKP registra seus piores números históricos: depois de obter 50% dos votos há apenas meia década, as pesquisas agora o situam abaixo dos 34% obtidos nas primeiras eleições que disputou. Esse dado, porém, ainda não reflete o impacto das devastadoras inundações das últimas semanas, com mais de 40 mortos e dezenas de desaparecidos, e dos mais de 150.000 hectares e oito vidas humanas que os incêndios destruíram. Tudo isso em meio a fortes críticas pela demora do Governo em atuar.

Para a cientista política turca Seren Selvin Korkmaz, foi mais um prova da ineficácia do regime introduzido há três anos, em substituição ao sistema parlamentar. “Erdogan defendia o sistema presidencialista como um modo de acelerar a tomada de decisões e melhorar a estabilidade, mas o sistema demonstrou sua incapacidade de lutar contra as crises. A primeira razão é que este sistema personaliza a autoridade e anula as instituições. Em lugar do talento ou da experiência técnica, o que conta é a lealdade ao presidente. Mesmo a burocracia perdeu sua capacidade de atuação”, escreve a especialista em um boletim do Middle East Institute.

Um exemplo são os decretos presidenciais. Não é raro despertar um sábado e descobrir que, durante a noite ou a madrugada, o presidente tomou uma decisão polêmica e inesperada ―seja a designação de um interventor em determina instituição, a troca de presidente do Banco Central (foram quatro em dois anos) ou a retirada unilateral da Turquia de um tratado internacional como a Convenção de Istambul contra a violência machista.

Crise encadeadas

Se o ano passado terminou com sérias suspeitas de manipulação dos dados de mortes por covid-19, este 2021 começou com protestos dos alunos da universidade mais prestigiosa do país contra a imposição de um reitor por Erdogan ―em um raro gesto de concessão, o presidente finalmente reconsiderou e demitiu em julho o reitor indicado. Nos meses seguintes, houve constantes denuncia de corrupção, a descoberta de uma rede de tráfico de pessoas da qual prefeituras do partido governista se beneficiavam, ataques a partidos opositores (especialmente o pró-curdo HDP), crise ambientais (o mar de Mármara coberto por uma gosma branca, o uso do país como esgoto da Europa, a resistência de centenas de aldeões contra o desmatamento causado pela atividade mineradora), assim como revelações sobre as vinculações de certos setores do Governo com máfias. Como se isso não bastasse, as polêmicas decisões do presidente em questões monetárias provocaram uma desvalorização da lira, com o subsequente aumento da inflação e as dificuldades de milhões de famílias em um contexto de crise econômica.

“O partido de Erdogan foi perdendo apoio gradualmente durante os últimos anos por um amálgama de diferentes crises. E não está sabendo administrar a situação, apenas buscando modos de adiar o inevitável: uma derrota eleitoral”, afirma Berk Esen, professor de Ciências Políticas da Universidade Sabanci, de Istambul. Embora o AKP continue sendo a força política mais popular do país, há um ano diferentes pesquisas mostram que os partidos da oposição, unidos, somam mais representação que o AKP e seus aliados da ultradireita. Pela primeira vez em mais de uma década, além disso, a oposição conseguiu ditar a pauta e dirigir o debate para o seu terreno, por exemplo com uma campanha que se perguntava sobre os responsáveis pela volatilização das divisas do Banco Central, apontando Berat Albayrak, genro do presidente e ex-ministro de Finanças, que se demitiu no ano passado após se sentir contrariado por várias nomeações feitas por seu sogro.

Albayrak não voltou a aparecer em público, estimulando os debates sobre a sucessão do líder. As lutas internas entre facções do AKP ou do Governo se tornaram mais frequentes, vindo à tona também com maior frequência. Segundo Esen, se trata de uma “disputa pelos despojos”, já que o sistema agora tem menos a distribuir, tanto pela situação econômica como pela perda de importantes prefeituras: “Em regimes autoritários muito institucionalizados e apoiados em um partido forte, como o chinês e o soviético, o trato é que você deve se sacrificar no começo da sua carreira e, à medida que sobe no escalão, obtém mais benefícios. Mas, em um regime personalista como este, onde já não há um partido forte, ninguém sabe se vale a pena fazer sacrifícios, porque não se sabe se o regime continuará, então o que se busca é o benefício imediato. E para isso é preciso manter uma linha direta com Erdogan, porque o poder é detido por um grupo cada vez menor de pessoas em torno de Erdogan e sua família, e evitar que outros consigam esse acesso. Então todo mundo se odeia entre si, e Erdogan está contente com isso, porque vê as elites brigando entre si sem que ninguém o desafie.”

Durante os recentes incêndios e em encontros com cidadãos que se queixavam da má situação econômica, o presidente turco deu sinais de pouca sensibilidade. Há quem argumente que isso ocorre porque a camarilha que cerca Erdogan lhe sonega informação sobre a situação real do país; outros falam em uma fadiga decorrente da idade e da sua longa carreira política, citando como exemplo um recente discurso no qual parecia meio adormecido enquanto falava.

Os próximos meses serão cruciais para o futuro de Erdogan: a fim de se aproximar dos Estados Unidos, o presidente turco aceitou que seu Exército assuma o controle do aeroporto de Cabul, no Afeganistão, e está procurando uma negociação com o Talibã para garantir a segurança de suas tropas numa missão que não é muito popular domesticamente. Mas justamente o avanço do Talibã está provocando a fuga de milhares de afegãos que, através do Irã, se dirigem para a Turquia e a União Europeia. A oposição viu na questão migratória um modo de desgastar o Executivo e adotou um discurso populista que busca exacerbar o sentimento antirrefugiados de parte da população turca, especialmente daqueles mais afetados pela crise.

Entretanto, não seria a primeira vez em que Erdogan se levanta de uma situação crítica. “É um político que, quando está perdendo apoio, é capaz de manejar a situação e criar uma conjuntura favorável a si”, opina Özer Sencar, diretor da empresa de pesquisas MetroPOLL, que no seu levantamento de julho registrou uma recuperação na aprovação de Erdogan. Ele tem entre 6 e 12 pontos a mais em intenções de voto que seu partido. Vários analistas atribuem esta melhora à viagem do presidente a Diyarbakir, a capital extraoficial dos curdos da Turquia, onde insinuou a possibilidade de retomar o processo de paz com essa etnia. Depois que o processo foi interrompido, em 2015, Erdogan ordenou esmagar a insurgência armada do PKK e reprimir o principal partido político pró-curdo, razão pela qual uma reviravolta deste tipo poderia parecer inverossímil. Mas guinadas assim lhe permitiram permanecer no poder por quase duas décadas e, segundo Sencar, esta já está lhe servindo para recuperar parte do voto curdo perdido, especialmente daqueles que não chegam a confiar plenamente na principal coalizão opositora, cujos partidos têm um alto componente nacionalista turco.

Em uma coluna no jornal emiradense The National, o jornalista David Lepeska adverte também para a capacidade de ressurreição de Erdogan recorrendo ao conceito “antifrágil” do ensaísta Nassim Taleb: “Há coisas que se beneficiam dos choques, prosperam e crescem quando estão expostas à volatilidade, à aleatoriedade, à desordem e ao estresse”.

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