Crise do coronavírus

Pandemia dos não vacinados assombra os EUA

Número de casos novos dispara 70% em uma semana. Casa Branca pede às redes sociais que combatam a desinformação sobre os efeitos secundários das inoculações

Um homem segura um cartaz indicando um centro de vacinação, em Los Angeles (Califórnia).
Um homem segura um cartaz indicando um centro de vacinação, em Los Angeles (Califórnia).FREDERIC J. BROWN / AFP

Sorteios de um milhão de dólares e de bolsas universitárias; cervejas, donuts e maconha de brinde; corridas grátis de Uber para ir às farmácias. As autoridades dos Estados Unidos já não sabem mais o que fazer para conseguir vacinar uma parte da população que, por desleixo ou por receio, ainda não foi receber sua injeção, enquanto as cifras de covid-19 voltam a subir. O número de novos casos disparou 70% na semana passada com relação à anterior, elevando a média diária de 15.500 a 26.300 positivos. Enquanto isso, menos da metade da população total (mas 59% dos adultos) completou a pauta vacinal.

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Frustrado, o presidente Joe Biden exigiu na sexta-feira às redes sociais que freiem a desinformação espalhada contra as vacinas. “Estão matando gente”, disse ele. Nesta segunda-feira, esclareceu: “O Facebook não está matando gente. Há uma dúzia de pessoas por aí dando informação falsa. Isso está matando gente”. O país sofre, como disse Rochelle Walensky, diretora dos Centros de Prevenção e Controle de Doenças (CDC, na sigla em inglês), “a pandemia dos não vacinados”.

É uma pandemia que provoca menos mortos que um ano atrás, mas gera um enorme desconcerto e revela uma grande desigualdade por territórios. Quatro Estados ―Flórida, Texas, Califórnia e Missouri―somam mais de 40% dos novos casos, segundo o coordenador do grupo de trabalho da Casa Branca, Jeffrey Zients. Entre as pessoas que vêm precisando de internação por causa do vírus, 99,5% não tinham recebido a vacina. O acesso às injeções não poderia ser mais fácil no país ―muitos estrangeiros inclusive viajam para lá quando não têm acesso à imunização nos seus lugares de origem― mas, depois de alguns meses de rápida expansão, o ritmo de inoculações tem caído subitamente: de 3,4 milhões de doses por dia em meados de abril para 421.000 na primeira semana de julho.

Dentro das grandes cifras, cada Estado é uma galáxia. Se em lugares como Vermont, Massachusetts, Maine e Rhode Island mais de 70% dos adultos já receberam as duas doses, no Arkansas apenas 44,3% completaram a pauta. Os dados são baixos também no Missouri (49,7%), Texas (53,9%) e Flórida (57%). A Califórnia administrou a pauta completa a 62,5% de seus maiores de idade, mas ainda falta muita gente porque é o Estado mais populoso do país, com quase 40 milhões de habitantes. Em termos relativos, os sinais vermelhos se acendem em Arkansas, Missouri, Flórida e Nevada, que registram 20 casos por 100.000 habitantes por dia, contra uma média nacional de oito casos, com a nova variante delta como predominante.

Cartaz em Washington que incentiva os norte-americanos a se vacinarem, em uma imagem de maio.
Cartaz em Washington que incentiva os norte-americanos a se vacinarem, em uma imagem de maio. Jacquelyn Martin / AP

O rechaço ou adesão à vacina passa, como tantos assuntos nos Estados Unidos, por uma grande divisão política. Uma pesquisa do jornal The Washington Post e da rede ABC News, divulgada no começo de julho, indicava que 47% dos eleitores republicanos ouvidos não pretendiam se vacinar, contra apenas 6% no caso dos democratas. Uma parte dessa disparidade tem a ver com o tipo de território, mais rural e menos denso, onde se concentra o voto conservador, que sente menos medo dos contágios. Outra se deve à desconfiança em relação às instituições. Em geral, a população se sente menos amedrontada que no começo da pandemia. A Administração de Joe Biden também teme os efeitos da desinformação, e isso abriu uma frente de atrito com as grandes plataformas das redes sociais.

Boatos nas mãos de 12 pessoas

Jen Psaki, porta-voz da Casa Branca, acusou o Facebook e outras plataformas não fazerem todo o possível para frear as mentiras sobre os efeitos secundários das vacinas contra a covid-19 e citou a China e a Rússia como origem de boa parte das fake news espalhadas pelas redes. Segundo Psaki, “cerca de 12 pessoas são as que estão produzindo 65% da informação fraudulenta contra as vacinas nas plataformas das redes sociais”.

O assessor-médico-geral dos Estados Unidos, Vivek Murthy, redobrou as críticas no domingo. Em uma entrevista ao canal Fox, afirmou que “a realidade é que a desinformação está se propagando em nosso país como um fogo descontrolado, ajudada e incitada pelas redes sociais”. Dois dias antes, na sexta-feira à tarde, Biden havia dado a entender que o Facebook e demais empresas tecnológicas “estão matando gente”, o que provocou a resposta da companhia de Mark Zuckerberg. O Facebook publicou um comunicado explicando todas as suas ações para o fomento da vacinação e rejeitando qualquer responsabilidade no descumprimento do objetivo do presidente, que era alcançar 70% da população adulta com pelo menos uma dose até 4 de julho.

Enquanto isso, alguns Estados voltam a impor restrições. Diante do avanço da variante delta, o condado de Los Angeles, o mais povoado do país inteiro, impôs novamente a obrigação de usar máscara em ambientes fechados a partir de meia-noite de sábado passado, independentemente de os indivíduos terem ou não sido vacinados, informa Luis Pablo Beauregard. Chicago, a cidade mais populosa de Illinois, por sua vez, estabeleceu limitações para os viajantes procedentes de Arkansas e Missouri, aos quais agora exige um exame negativo de covid-19 ou quarentena para poder entrar.

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