Crise do coronavírus

Bolsas mundiais despencam com avanço da variante delta do coronavírus

Frustração com o avanço dos contágios após a vacinação maciça ditou o humor dos mercados internacionais e contagiou a Bovespa, que teve pior resultado desde maio, com queda de 1,24%. Dow Jones cai 2,9%. Ações espanholas de turismo foram castigadas

Rua da Bolsa de Nova York no dia 15 de julho
Rua da Bolsa de Nova York no dia 15 de julhoANGELA WEISS / AFP

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As bolsas de quase todo o mundo foram tingidas de vermelho nesta segunda-feira diante do avanço dos contágios pela variante delta e da incerteza sobre como isso afetará a recuperação econômica, que já estava chegando nos países ricos. Do Brasil à Alemanha, passando pelo Japão e Estados Unidos, os pregões vêm sofrendo quedas acentuadas que não se viam há meses. O Eurostoxx 50, que reúne as 50 maiores empresas cotadas da região do euro, caiu 2,7%, a maior queda até agora este ano, enquanto na Espanha o Ibex 35 caiu 2,4% do seu valor, o pior dia em três meses. Wall Street fechou esta segunda-feira no vermelho e o Dow Jones Industrial, seu principal indicador, caiu 2,09% na pior sessão que a bolsa de Nova York experimentou desde outubro passado devido à forte reação do mercado à alta de novos casos de covid com o avanço da variante delta.

No Brasil, o Índice Bovespa acompanhou o movimento do exterior e fechou com queda de 1,24% nesta segunda. O mercado fechou em 124.394 pontos, a menor pontuação desde 27 de maio. As maiores quedas vieram de varejistas, como Americanas e Via Varejo, e da empresa aérea Gol. O dólar fechou em alta de 2,6% a 5,25 reais. A frustração com o avanço dos contágios após a vacinação ditou o humor dos mercados internacionais. “Antes que a variante delta começasse a ganhar terreno, projetava-se uma recuperação muito forte”, disse David Grecsek, executivo da Aspiriant, em declarações coletadas pela Reuters. “Mas o que vemos hoje é que o mercado vai reagir a qualquer dado ou notícia que altere esse tipo de cenário sereno, [que teria] baixa volatilidade e altos lucros corporativos.”

Um dos setores mais afetados pelo possível retorno das restrições é o turismo, que esperava um pouco de ar fresco neste verão europeu. Na Espanha, a companhia aérea IAG, dona da British Airways e Iberia, tem sido a empresa mais afetada do Ibex 35 e caiu mais de 5,5% nesta segunda-feira. As demais empresas de turismo também perderam entre 3% e 4%: Aena, a gestora de reservas Amadeus e a hoteleira Meliá. Ainda no Ibex, os cinco bancos do índice e grandes grupos industriais como Ferrovial, ArcelorMittal, Indra, ACS e Acerinox despencaram entre 3% e 4%. Por outro lado, em território positivo, apenas três ações fecharam em alta: Almirall (+ 1,36%), Pharma Mar (+ 1,01%) e Siemens Gamesa (+ 0,85%). “A economia global mal sobrevive com ‘respiração assistida’ e outra onda de infecções pode provocar restrições que podem sinalizar a sentença de morte de uma recuperação tênue”, disse Peter Essele, chefe de gestão de investimentos da Commonwealth Financial Network.

Edward Moya, analista de mercado sênior da Oanda, acrescenta que essa incerteza está tirando os investidores da renda variável. “A aversão ao risco é firme e a variante delta tem provocado uma fuga para a segurança”, diz ele em nota divulgada pela Bloomberg. Na Europa, o dia foi semelhante ao da Espanha, com a fabricante de aeronaves francesa Airbus perdendo mais de 6% do valor de suas ações em apenas um dia, as mais castigadas do Eurostoxx 50. Entre os grandes dependentes da mobilidade internacional, a companhia aérea EasyJet teve um tombo (-6,6%) , assim como os cruzeiros Royal Caribbean, o hotel Marriott (-3%) eu a montadora BMW (-3,6%).

Na mesma linha do Ibex, o DAX alemão (-2,6%), o CAC francês (-2,5%) e o FTSE de Londres (-2,3%) registraram queda, assim como a Bolsa de Valores de Milão, que caiu 3,3%. O preço do petróleo também despencou nesta segunda-feira. Os mercados internacionais têm exacerbado a expectativa de queda no preço do barril após o acordo firmado neste domingo pela Organização dos Países Exportadores de Petróleo (Opep), que acertou a ampliação da produção de petróleo bruto, aumentando a oferta para os próximos meses. Como resultado, o preço futuro do barril de Brent, referência na Europa, despencou mais de 6%. Neste contexto, a petrolífera espanhola Repsol deixou no Ibex 35 mais de 4%, o mesmo que aconteceu com a britânica BP e a holandesa Shell nos mercados em que estão cotadas.

Nos EUA, a evolução foi semelhante. O número de contágios na principal potência econômica mundial cresceu 70% na última semana e as financeiras já começam a se antecipar às consequências: o Bank of America cortou meio ponto porcentual, para 6,5%, a previsão de evolução do PIB dos EUA este ano. O S&P 500, principal mercado de ações dos Estados Unidos, caiu acima de 2%, embora na hora do fechamento tenha marcado uma queda de 1,59%. É o pior dia desde meados de maio, assim como aconteceu com o Nasdaq, índice de referência para empresas de tecnologia, que fechou em queda de 1,06%.

A pior parte ficou com o industrial Dow Jones (-2,09%), que experimentou sua pior sessão desde outubro passado. “Há uma preocupação entre os investidores de que a variante delta do vírus retorne os contadores a zero no avanço que foi feito com o covid-19 e na recuperação econômica”, analisou André Bakhos, diretor-gerente da firma de investimentos New Vines Capital, falando à Reuters. O S&P 500 rompeu na última sexta um intervalo de três semanas de lucros. Nesta segunda os ganhos caíram em todos os setores contemplados nesse índice. Os papeis financeiros, industriais, e energéticos foram os mais castigados. O Dow Jones, por sua vez, chegou a cair 2,61% ao longo do dia. A Nasdaq teve um comportamento relativamente melhor com o temor do recrudescimento da pandemia. O índice, que engloba as empresas tecnológicas, já mostrou no ano passado ser mais resistente às contrações de consumo provocadas pelo confinamento.

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