Um ano depois, primeiros internados com covid-19 em Wuhan seguem com sequelas

Monitoramento de pacientes internados com pneumonia na China indica que os sintomas se prolongam por muito mais tempo do que se pensava, revelando um problema de saúde pública de primeira grandeza

Jordi Soriano, de 51 anos, é o primeiro paciente de covid-19 a ser submetido com sucesso a um transplante pulmonar na Espanha, depois de se contagiar na terceira onda da pandemia e permanecer por mais de quatro meses na UTI.
Jordi Soriano, de 51 anos, é o primeiro paciente de covid-19 a ser submetido com sucesso a um transplante pulmonar na Espanha, depois de se contagiar na terceira onda da pandemia e permanecer por mais de quatro meses na UTI.Marta Perez (EFE)
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Um estudo sobre alguns dos primeiros pacientes hospitalizados por covid-19 no mundo oferece resultados preocupantes: em uma parte deles, as sequelas físicas ou psicológicas da infecção continuam presentes pelo menos um ano depois da alta, e é provável que alguns sofram com isso inclusive durante mais tempo.

Uma das maiores incertezas trazidas pela pandemia, até agora, é quanto dura a doença e sobretudo se este coronavírus, capaz de invadir muitos tipos de tecidos, inclusive os músculos, o sistema nervoso e o cérebro, deixa danos prolongados nos pacientes, principalmente aqueles que sofreram uma doença mais grave com hospitalização e respiração artificial.

Nesta sexta-feira, a revista médica The Lancet publica um estudo com mais de 1.200 pacientes hospitalizados por covid-19 em Wuhan, a cidade chinesa onde o vírus surgiu. A amostra inclui alguns dos primeiros pacientes diagnosticados, que receberam alta entre 7 de janeiro e 29 de maio de 2020.

Os resultados mostram que a maioria não tem crises um ano depois, mas metade declara sofrer pelo menos um sintoma persistente. Um em cada três continua tendo problemas para respirar ou complicações pulmonares depois de um ano, sobretudo os que sofreram de forma mais grave. Os autores compararam o estado de saúde desses sobreviventes com o de uma população similar que não se infectou. E seu veredicto é claro: a saúde dos primeiros é pior.

“Nosso estudo é o maior já feito até o momento sobre o estado de saúde de pacientes hospitalizados por covid-19 um ano depois de receber alta”, disse Bin Cao, médico do Centro Nacional de Pneumologia da China e coautor do trabalho, em um comunicado à imprensa. “Estas conclusões parecem indicar que alguns pacientes demorarão mais de um ano para se recuperar, algo que os serviços de saúde no mundo pós-pandemia precisam levar em conta.”

O trabalho chinês é importante, porque confirma o que já sugeriam muitos outros estudos em todo o mundo, feitos com grupos de pacientes menores e com monitoramentos mais curtos. Os sintomas mais comuns são o cansaço e a dor muscular, embora também haja impactos psicológicos como confusão e outros como a falta de respiração. Como já se viu em estudos no Reino Unido, Espanha e outros países, as mulheres são muito mais propensas a sofrer sequelas duradouras, talvez por terem um sistema imunológico mais reativo. Os resultados desse estudo, em todo caso, não dizem respeito à população geral, uma vez que trata de pacientes hospitalizados, e justamente no começo da doença, quando havia menos informação sobre seu tratamento.

No estudo chinês, as mulheres tinham em relação aos homens o dobro de probabilidades de relatar ansiedade ou depressão, e quase o triplo de sofrer lesões físicas nos pulmões um ano depois.

Estas sequelas, às vezes chamadas de covid longa ou persistente, representam um desafio enorme para os pesquisadores, porque a maioria de estudos se baseia em sintomas relatados pelos próprios pacientes. Também por isso, é difícil saber até que ponto seus danos são físicos ou psicológicos, e é quase impossível eliminar o efeito da subjetividade. O trabalho chinês, além de questionários, fez análises da capacidade pulmonar dos pacientes para averiguar se ainda tinham reduções. Os pesquisadores comprovaram que o número de pacientes que sofriam esses problemas seis meses depois de terem alta não diminuiu um ano depois; esse efeito foi verificado em todos os grupos de pacientes, independentemente da sua gravidade. Também realizaram exames exploratórios de pulmão. Embora a quantidade de pacientes com lesões tenha diminuído, a incidência continuava sendo alta um ano depois, ressalta o trabalho, feito com pacientes do Hospital Jin Yin-tan de Wuhan, primeira cidade que foi epicentro da pandemia.

Em comparação com pessoas da mesma faixa etária e com outros problemas de saúde pré-existentes, mas que não sofreram covid-19, os pacientes que contraíram a doença tinham mais problemas de dor e de mobilidade. Também era mais prevalente entre eles a ansiedade e a depressão. Um dado preocupante é que a incidência declarada destas sequelas psiquiátricas aumentou um ano depois em comparação com seis meses depois. “Não sabemos por que isto acontece”, admite Xiaoying Gu, pesquisador do Instituto de Ciências Médicas e coautor do estudo, em um comunicado à imprensa. “Pode se dever à própria infecção viral, ou à reação do sistema imunológico a ela. Também pode influir a reclusão, a solidão e inclusive o desemprego ocasionado pela doença. Precisamos de estudos de longo prazo para entender as consequências físicas e psiquiátricas da covid-19”, afirma.

Quase dois anos depois do início da pandemia, a Espanha prepara o início de um estudo nacional sobre a covid persistente em hospitais do país, anunciaram na, quinta-feira, a ministra da Saúde, Carolina Darias, e o diretor do Instituto de Saúde Carlos III, Cristóbal Belda.

Alguns grupos independentes já estudaram este tema, como, por exemplo, o do médico Alexandre Pérez, do serviço de medicina interna do Hospital Álvaro Cunqueiro, em Vigo (noroeste da Espanha). Seu trabalho, que ainda não foi publicado em uma revista especializada, mostra que seis meses depois da infecção quase metade de pacientes declarava ter algum sintoma. Os mais frequentes eram problemas torácicos, falta de fôlego e fadiga. Neste caso, o trabalho analisou não só pacientes hospitalizados, mas também aqueles com infecções mais leves que se recuperaram em casa.

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“Esta é uma doença muito difícil de estudar porque não existe uma definição precisa, e cada país ou cada grupo usa critérios ligeiramente diferentes”, explica Pérez. Em alguns casos, é relativamente fácil entender que as sequelas estão conectadas com os efeitos do vírus SARS-CoV-2 —por exemplo, as lesões pulmonares persistentes—, mas, em outros, como a depressão, é complicado saber se é um efeito direto da infecção ou um resultado subjetivo por uma situação geral de estresse e/ou preocupação do paciente.

Os problemas persistentes já eram conhecidos em outros casos de infecções virais, como o HIV, o vírus da mononucleose e a hepatite. O problema agora, no entanto, é a enorme dimensão do problema devido à grande quantidade de pessoas infectadas em todo o mundo, acrescenta Pérez. É um enorme desafio entender quais sintomas estão relacionados com a infecção, quais se devem à inflamação crônica causada pelo vírus, e quais outros se devem a doenças prévias, já que este tipo de complicações duradouras são mais frequentes em pacientes mais idosos, que frequentemente têm sofrem com outras patologias. “Hoje em dia não temos nenhum tratamento disponível para os pacientes que sofrem complicações respiratórias depois da covid-19. Em outro estudo que vamos publicar, vimos que, em muitos casos, esses problemas são psicológicos, uma vez que os pulmões estão perfeitos. No entanto, há outros pacientes que, apesar de perceberem menos perda de ar, ainda têm danos físicos visíveis”, ressalta.

“É preciso pesquisar muito mais para entender o que está acontecendo com estes pacientes”, observa Pilar Rodríguez Ledo, vice-presidenta da Sociedade Espanhola de Médicos Gerais e de Família (SEMG). “É crucial saber quais fatores desencadeiam estes sintomas persistentes, tanto em função da variante do vírus como pelas características físicas e genéticas de cada pessoa. Só assim poderemos ter biomarcadores que nos permitam alguma anteciopação para impedir que surjam danos duradouros.”

“O estudo chinês é muito completo porque usa questionários, exames físicos, testes de fadiga e exames laboratoriais”, ressalta Josep Maria Miro, infectologista do Hospital Clínico de Barcelona e integrante do Grupo Colaborativo Multidisciplinar para o Acompanhamento Científico da covid-19, promovido pelo Instituto de Saúde Global de Barcelona. “Mas não sabemos até que ponto os dados da China dimensionariam o que acontece na Espanha. É preciso, por exemplo, levar em conta que a idade média dos pacientes era de 57 anos, quando na Espanha o perfil de pacientes hospitalizados tem pessoas um pouco mais velhas”, explica.

O trabalho chinês se concentra, principalmente, em hospitalizados com casos leves ou moderados e tem relativamente poucos pacientes com doença muito grave e internados em UTIs. E, além disso, é preciso levar em conta que estes pacientes receberam tratamentos bastante diferentes de outros da Espanha durante ondas posteriores, como, por exemplo, o uso de corticoides. “Um dado positivo é que 80% dos pacientes que tinham trabalho antes de se infectarem voltaram à atividade profissional, mas um quarto deles em categorias inferiores, talvez devido às sequelas que a doença deixou”, destaca Miro.

“A necessidade de entender e combater a covid longa é enorme”, afirmam os médicos responsáveis pela revista The Lancet em um editorial. “Sintomas como a fadiga persistente, a falta de respiração, a névoa mental e a depressão podem afetar milhões de pessoas e, mesmo assim, sabemos pouquíssimo desta doença. Ela impacta a capacidade das pessoas de retomar a vida normal. A covid longa é um desafio médico de primeira magnitude”, alertam.

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