Pandemia de coronavírus

Uso de azitromicina em pacientes graves de covid-19 não é eficaz, mostra estudo na ‘The Lancet’

Pesquisa feita por cientistas brasileiros aponta que o uso do antibiótico, um dos mais administrados contra o coronavírus em todo o mundo, não faz diferença na melhora do doente

Paciente assintomática recebe um kit com azitromicina, cloroquina e dexametasona em Caracas, na Venezuela, no último dia 25.
Paciente assintomática recebe um kit com azitromicina, cloroquina e dexametasona em Caracas, na Venezuela, no último dia 25.Ariana Cubillos / AP

O antibiótico azitromicina, um dos medicamentos mais usados em todo o mundo para o tratamento de pacientes com coronavírus, não tem eficácia, ao menos nos casos mais graves da doença. É o que aponta estudo conduzido por pesquisadores brasileiros publicado nesta sexta-feira na prestigiosa revista científica The Lancet. A análise foi feita com 397 pacientes graves, internados em 57 hospitais por todo o Brasil. Ao menos metade deles estavam com ventilação mecânica. “Observamos que o tratamento com a azitromicina não melhorou o status clínico do paciente, não reduziu a mortalidade e não impactou em tempo de internação no hospital”, explica Regis Goulart Rosa, médico intensivista do Hospital Moinhos de Vento, em Porto Alegre.

Rosa é membro do Comitê Executivo da Coalizão Covid Brasil, aliança para a condução de pesquisas formada por alguns dos maiores hospitais brasileiros e responsável pela realização deste estudo. Ele explica que a metodologia adotada foi o estudo clínico randomizado, considerado padrão ouro por seu rigor. Por meio de um sorteio (randomização), os pesquisadores separaram dois grupos de pacientes: com o primeiro, foi administrada a azitromicina associada aos cuidados usuais. Já no segundo grupo, os pacientes só foram tratados com os cuidados usuais, sem a azitromicina.

Os cuidados usuais refletem os tratamentos clínicos padrões utilizados para para pacientes com a covid-19, explica o médico. “Isso inclui suporte respiratório, suporte de disfunções orgânicas, ventilação mecânica e, no caso do Brasil, como no momento da realização do estudo havia uma recomendação do Ministério da Saúde para tratar todos os pacientes graves com hidroxicloroquina, ela fez parte do nosso cuidado usual”, afirma. O estudo sobre a azitromicina foi realizado entre março e maio. Antes, o mesmo grupo fez outro estudo que apontava a ineficácia da hidroxicloroquina no tratamento da doença, que já matou oficialmente 125.502 pessoas no Brasil, segundo informou o Ministério da Saúde nesta sexta. O vírus da pandemia já contaminou comprovadamente mais de 4 milhões de pessoas no país.

A azitromicina é um antibiótico, com efeito anti-inflamatório, usualmente administrado em pacientes com infecções bacterianas como otite, faringite e diarreia. “Pensava-se anteriormente, com base em resultados de estudos pequenos e in vitro, que a azitromicina pudesse, através do seu efeito anti-inflamatório, causar um benefício para pacientes com covid-19”, afirma o intensivista. “Tanto que a azitromicina fazia parte do tratamento em diversos protocolos ao redor do mundo”. Ele explica que ainda há dúvidas em relação aos benefícios ou não do medicamento em pacientes com quadros mais brandos da doença.

O infectologista alerta, no entanto, sobre o uso indiscriminado deste antibiótico, que, em muitos casos, chegou a ser usado como forma de prevenir o coronavírus, algo que até o momento não teve sua eficácia comprovada. “O uso de antibióticos de maneira indiscriminada pode trazer reações adversas, como a resistência a bactérias e o aumento do risco de arritmias cardíacas”, afirma Rosa.

Nesta semana, a Coalizão Covid-19 Brasil publicou outro estudo, desta vez no periódico científico Journal of the American Medical Association (JAMA), que avaliava o uso do anti-inflamatório dexametazona, do tipo corticoide, no tratamento de casos graves de covid-19. A pesquisa concluiu que pacientes que utilizaram o medicamento ficaram mais dias sem precisar usar o respirador artificial.

No mesmo momento da divulgação dessa pesquisa, foi divulgada também uma revisão de estudos, em formato de meta-análise, realizada pela Organização Mundial da Saúde (OMS), que compilou esses resultados apresentados pela coalizão e os das demais pesquisas que utilizaram corticoides em pacientes com covid-19. Os resultados dessa meta-análise demonstraram que a administração de corticoides reduz a mortalidade em pacientes graves com coronavírus e serviram de base para atualização das diretrizes da OMS sobre o tratamento de covid-19 com corticoides.

A Coalizão Covid Brasil é formada pelo Hospital Israelita Albert Einstein, HCor, Hospital Sírio-Libanês, Hospital Moinhos de Vento, Hospital Alemão Oswaldo Cruz, Beneficência Portuguesa de São Paulo, Brazilian Clinical Research Institute (BCRI) e Rede Brasileira de Pesquisa em Terapia Intensiva (BRICNet). A aliança também está com outros seis estudos em andamento. Dentre eles, uma pesquisa que avalia se a hidroxicloroquina previne o agravamento da covid-19 em pacientes não hospitalizados e outra para saber se o tocilizumabe, um remédio usado no tratamento para artrite, pode melhorar a evolução clínica de pacientes com coronavírus hospitalizados.

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