Pandemia de coronavírus

Medicamentos contra o coronavírus. Muita pesquisa, mas pouca ciência na aplicação

Estudos básicos se aliam aos testes clínicos para demonstrar a eficiência e segurança de remédios usados para outras doenças, mas que poderiam servir para a Covid-19

Comprimidos de hidroxicloroquina, em teste para tratar o coronavírus, à venda em Nova Delhi (Índia).
Comprimidos de hidroxicloroquina, em teste para tratar o coronavírus, à venda em Nova Delhi (Índia).Manish Swarup / AP

“Há muitas dúvidas. Cada vez temos mais claro que os antivirais poderiam ser úteis nas fases iniciais. Não sabemos qual deles é eficaz, mas provavelmente sejam pouco úteis em fases avançadas, quando prepondera uma resposta inflamatória exagerada do hospedeiro. Nesse momento, em pacientes bem selecionados, parecem ser mais necessários fármacos imunossupressores, mas ainda não temos evidências clínicas sólidas.” Jesús Rodríguez Baño, chefe de Serviço de Doenças Infecciosas do Hospital Universitário Virgem de la Macarena, em Sevilha (Espanha), resume em uma mensagem a situação que muitos médicos e pesquisadores enfrentam diante do novo coronavírus. Utilizam fármacos que já mostraram sua utilidade em outras infecções ou em determinadas doenças na qual é importante a regulação do sistema imunológico, mas que ainda não tiveram sua eficácia contra a Covid-19 testada em estudos mais amplos. Entre o estresse e a incerteza, esses profissionais buscam acumular informação útil ao mesmo tempo em que tentam salvar o maior número possível de vidas.

Nessa corrida, os médicos que atendem os pacientes diariamente têm o apoio dos cientistas envolvidos em pesquisa básica, que até recentemente não imaginariam que suas descobertas pudessem chegar tão rapidamente aos hospitais. Mas os tempos mudaram. Recentemente, uma equipe de pesquisadores liderada por José Ordovás-Montañés, do Hospital Infantil de Boston e da Escola de Medicina de Harvard, liberava o rascunho de um artigo que está em revisão para ser publicado na revista Cell onde podem ser encontradas as chaves para tratar melhor milhares de pessoas afetadas pelo coronavírus no mundo.

“Estamos vendo que muitas decisões sobre os tratamentos para esta doença se baseiam, na melhor das hipóteses, em pouquíssima ciência. As pessoas querem aplicar algo o quanto antes possível”, observa Ordovás-Montañés. “É o caso da hidroxicloroquina, que parecia funcionar observando resultados de um ensaio não controlado em pacientes que de todas maneiras iriam melhorar”, continua. “Nós queríamos entender como o vírus entra no organismo, que células ele pode infectar e quais não, o que faz que alguns casos piorem a partir de certo ponto, ou por que tem gente que se infecta, mas não tem nenhum sintoma”, acrescenta.

Ao tentar desvendar os truques que o SARS-CoV-2 utiliza para assaltar as células humanas, os cientistas analisaram os locais onde se expressam mais as proteínas ACE2 e a enzima TMPRSS2. Essas proteínas têm papéis imprescindíveis para nossa fisiologia e o funcionamento dos pulmões, mas também servem ao novo coronavírus para atacar o organismo. Em fevereiro deste ano, grupos de todo o mundo averiguaram que o novo coronavírus tem uma técnica de sequestro das células similar ao vírus causador da SARS em 2003.

A equipe de Ordovás-Montañés observou que os lugares onde havia uma maior expressão das duas proteínas eram as células nasais, algumas do intestino e sobretudo dos pulmões, algo que explica os sintomas da Covid-19. Entretanto, a análise de células individuais mostrou que, diferentemente da SARS e da gripe, que contagiam um maior percentual de células, o novo vírus só afeta algumas poucas de cada tecido. “Isto poderia explicar por que este vírus, ao contrário daqueles anteriores, permite que você continue infectado, mas sem sintomas alarmantes durante um tempo, contagiando mais gente”, afirma o pesquisador. Na opinião dele, conhecer em detalhes quais células são infectadas e por que poderia ajudar a escolher tratamentos mais específicos e eficazes.

A forma de infectar do novo coronavírus, mais seletiva que a gripe, permite que os doentes sigam com vida normal e contagiem antes de terem sintomas fortes

Além destes conhecimentos fundamentais sobre a natureza da infecção pelo SARS-CoV-2, os resultados de Ordovás-Montañés e seus colegas têm implicações pelo efeito dos interferons sobre a ACE2 e sua coenzima. Os interferons, proteínas cruciais na reação imunológica às infecções, são usados quando não existe uma vacina ou um antiviral. Serviam, por exemplo, contra a hepatite C antes de haver tratamentos eficazes contra o vírus, e foram usados também contra o novo vírus, mas na falta de ensaios controlados não se sabe se ajudaram, pioraram ou não fizeram nada. Os dados do estudo que a Cell está avaliando sugerem que administrar interferon a um paciente aceleraria a produção das duas proteínas que servem de porta de entrada ao coronavírus, facilitando a invasão, mas também protegendo o tecido, numa autêntica corrida armamentista.

A 5.500 quilômetros de Boston, no Hospital Universitário Ramón y Cajal, de Madri, Luisa Villar, chefe de Imunologia da instituição, se alegra em conhecer os resultados de Ordovás, porque corroboram sua experiência das últimas semanas. “Os interferons tipo 1, como o alfa e o beta, têm um possível efeito antiviral e se considera seu uso em infecções como esta, mas nossos dados indicavam que os resultados não eram os esperados”, explica. “O interferon induz o receptor do vírus em muitas células que não o expressam e o aumenta em células que já o expressam. Assim se facilita a infecção, e é algo que obviamente não queremos”, conclui.

Em 19 de março, Villar já avisou outros hospitais sobre seus resultados, embora a evidência continuasse sendo limitada “porque o número de pacientes era pequeno e podia haver variantes de confusão”. África González, presidenta da Sociedade Espanhola de Imunologia, observa que, a partir do trabalho de Villar, já havia informação na comunidade médica sobre as dúvidas em relação aos interferons. Por um lado “já há uma nota do ministério (da Saúde da Espanha) dizendo que não são recomendados por serem usados para doenças autoimunes”, aponta González. Como aconteceu com outros fármacos, o uso de interferons para o coronavírus poderia pôr em perigo o fornecimento para pacientes de doenças em que sua eficácia foi demonstrada, e é algo que se deseja evitar. Resultados como os apresentados na Cell “ampararam, junto com os dados clínicos, que não se deveriam utilizar interferons nestes pacientes”, conclui González. Algumas poucas semanas depois de terem topado com o novo coronavírus, médicos e investigadores continuam estudando para enfrentá-lo com evidências e deixar de tratá-lo às cegas.

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