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O complexo paradoxo econômico argentino: o único país americano mais pobre do que um século atrás

A qualificadora de riscos MSCI considera a Argentina um “caso único” juntamente com Líbano, Palestina e Botsuana

Manifestação em junho contra a fome em Buenos Aires.
Manifestação em junho contra a fome em Buenos Aires.JUAN MABROMATA / AFP

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A ex-presidenta Cristina Fernández de Kirchner, atual vice-presidenta, disse há poucos meses uma frase com a qual é difícil não concordar: “A Argentina é o lugar onde morrem todas as teorias econômicas”.

De fato, a Argentina funciona (ou não funciona) com regras próprias ou, dependendo do ponto de vista, com regras que mudam de um dia para o outro. É difícil imaginar como operam os atores econômicos em um país com 10 tipos de câmbio diferentes em relação ao dólar, do oficial, 100 pesos (5,40 reais) por dólar, ao blue (180 pesos por dólar), passando pelo contado com liquidação (165 pesos por dólar), e com controles cambiais muito rígidos (os cidadãos podem comprar no máximo 200 dólares por mês), com uma inflação anual perto de 50%, com uma moeda que se desvaloriza continuamente e sem acesso ao crédito internacional.

No mês passado, a agência de classificação de riscos MSCI (antiga Morgan Stanley Capital International) deixou de considerar a Argentina como “mercado emergente” e não a rebaixou para a categoria inferior, a de “mercado fronteiriço”, colocando-a, em vez disso, em um grupo heterogêneo de países economicamente excêntricos e fechados em si mesmos: os chamados standalone, ou casos únicos. Nele estão, juntamente com a Argentina, Líbano, Palestina, Botsuana, Bósnia, Trinidad-Tobago, Panamá, Jamaica, Bulgária, Malta e Ucrânia. A MSCI explicou que a rigidez dos controles sobre a movimentação de capitais excluía a Argentina dos circuitos financeiros convencionais, daí sua classificação como standalone.

A Argentina suspendeu o pagamento de suas dívidas em nove ocasiões, entre elas a maior moratória da história mundial (2001). Também é o único país americano mais pobre do que um século atrás, comparado a si mesmo em dólares constantes. Em 1913, era o décimo país mais rico do mundo em renda per capita; agora ocupa o 75º lugar. Não existe uma explicação clara para esse fenômeno, conhecido como “o paradoxo argentino”.

Há explicações parciais. A instabilidade política (o século XX foi quase uma sucessão de golpes militares, com alguns intervalos de poder civil sob supervisão dos quartéis), uma fortíssima inflação histórica com picos de hiperinflação (3.079% ao ano em 1989) e uma paralela desvalorização do peso (100 pesos de 1999 equivalem a 8.800 pesos atuais), uma crônica falta de dólares e uma clara propensão governamental ao endividamento contribuíram para distorcer a evolução do quadro macroeconômico.

Outra explicação que suscita polêmicas inflamadas se refere ao peronismo. Uns dizem que o populismo peronista, hegemônico desde 1945, apesar de ter ficado proscrito entre 1955 e 1973, está na raiz de todos os males. Outros dizem que a estrutura capilar do peronismo e sua generosidade com os subsídios evitaram que a Argentina sofresse mais colapsos como o de 2001. Talvez seja razoável supor que o peronismo é, ao mesmo tempo, problema e solução.

Também pesam os fatores psicológicos. Na mente dos argentinos, ainda ressoa o eco daquela frase que se dizia na Paris do início do século XX para se referir a alguém descomunalmente rico: “Riche comme un argentin”. Embora aquela fosse uma meia verdade. Na época, a renda per capita era alta porque algumas poucas famílias tinham dinheiro suficiente para compensar o fato de que muitas não tinham quase nada. De qualquer forma, o argentino médio continua se considerando rico ou, ao menos, digno de sê-lo. Embora um terço da população viva em extrema pobreza.

Em relação aos recursos naturais, a Argentina era e é um país rico. Em agricultura e pecuária, em energia (o campo patagônico de Vaca Muerta é um dos maiores do mundo em petróleo e gás de extração não convencional), em tecnologia (empresas como Globant e Mercado Libre são internacionalmente competitivas) e até em bem-estar. Nenhum país vizinho, nem mesmo o conceituado Uruguai ou o dinâmico Chile, tem nem de longe seu sistema de saúde ou sua abundante rede de subsídios.

Dito isso, vamos aos inconvenientes. A fertilidade agrícola se traduz em uma dependência extrema das exportações de soja para a entrada de dólares. A exportação de carne bovina tende a igualar os preços do mercado interno com os do externo, e esse encarecimento é insuportável para uma sociedade viciada em bife: assim que se soube que o consumo de carne tinha caído para “apenas” 45,2 quilos por pessoa ao ano, a menor quantidade em um século, o Governo proibiu quase totalmente as exportações.

Os preços baixaram. Continuam sendo relativamente caros para os salários argentinos, mas convertidos para euros espantam: um quilo de bife de chouriço, um saboroso corte de contrafilé, era comprado na semana passada por menos de quatro euros (24,80 reais) em qualquer supermercado de Buenos Aires. O problema é que com a restrição para a exportação de carne, é prejudicado um setor que representa quase 10% do comércio exterior argentino.

Quanto à energia, o campo de Vaca Muerta está quase paralisado desde o colapso financeiro de 2018.

E a maioria dos proprietários e diretores das empresas de tecnologia transferiu sua residência para outros países, principalmente para o Uruguai.

Voltemos à pergunta do início: como é possível que a Argentina funcione com tanta distorção? O economista Carlos Melconian, que foi assessor do ex-presidente Mauricio Macri e dirigiu a instituição pública Banco Nación, lançou dias atrás uma ideia provocativa: o Estado argentino precisa de uma inflação muito alta para não quebrar.

Há uma certa dose de verdade nessa tese. Para evitar um ajuste que teria resultado socialmente insuportável após três anos de recessão e em plena crise pandêmica, o ministro da Economia, Martín Guzmán, e o presidente do Banco Central, Miguel Pesce, recorreram à emissão em massa de pesos, em grande parte realocados imediatamente em dívida para moderar o efeito inflacionário. Neste momento há 1,3 trilhão de pesos (70 bilhões de reais) armazenados em dívida a juros que oscilam entre 37% e 39% ao ano. A inflação já subiu 23,7% nos seis primeiros meses de 2021 e as empresas financeiras calculam que chegará a 48% a fim de ano. Como a taxa de juro real equivale à taxa nominal menos a inflação, o Estado argentino não só não paga juros por sua dívida em pesos, como também vê como esta vai se liquefazendo pouco a pouco.

De qualquer forma, apesar do acordo alcançado com os credores privados estrangeiros e faltando negociar com o FMI como devolver os 45 bilhões de dólares (235 bilhões de reais) emprestados durante o mandato de Macri, a dívida global é muito alta: 355 bilhões de dólares (1,85 trilhão de reais). Dessa quantia, 60% são em moeda norte-americana. E essa divisa, diferentemente do peso, não se liquefaz com a inflação.

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